Ao invés de dar a descarga normalmente, que tal despejar um balde de tinta branca na privada? Foi isso que os moradores da zona leste de São Paulo fizeram há uns meses para testar o dispendioso serviço de tratamento de esgoto.
Como você pode ler aqui, eles se surpreenderam: coincidentemente, a água do córrego mais próximo ficou branca! Nem sinal de tratamento de esgoto… De acordo com o Jornal da Tarde, em dados de novembro de 2008, são 6.670 pontos de rios e córregos da Região Metropolitana de São Paulo recebendo esgoto in natura coletado da rede da Sabesp.
Só descarguei essa história porque lembrei que dia 14 de agosto foi o dia de combate à poluição – e quis comemorar essa data hoje também, já que todo dia deveria ser esse dia. Se muitas pessoas ainda nem aprenderam a jogar lixo no lixo, que é uma das formas mais elementares de poluir (em SP, por exemplo, são 300 toneladas diárias de resíduos coletados só na varrição!), a Sabesp deve ter se achado no direito de não tratar da “vida privada” de outros tantos cidadãos.
Diariamente, antes da maioria das pessoas cuidarem da tal vida privada, mais exatamente entre as 4h25 às 6h30, o empresário Hideaki Iijima varre a calçada perto da casa dele. Ele não é gari, na verdade, fundou uma empresa que rende alguns milhões por ano. Justifica que varrer é purificador, limpa a alma. Criou uma ONG chamada Zeladoria do Planeta que mensalmente realiza encontros com voluntários que se dispõem a varrer parques, ruas…
Eles limpam a alma com a vassoura, os moradores da zona leste com tinta branca e o pessoal do Blue Man Group com tinta azul. Claro que é preciso discutir a poluição dos carros, dos aviões, entre outros. Ainda assim, é bom lembrar que lixo é um perigoso agente poluente. Quanto mais limpeza, menos possibilidade de panes no mundo – diferentemente das salas de cinema e teatros, no globo não há saídas de emergência (vide mais informações no vídeo abaixo, criação do Blue Man Group).
OBS: E entrem no Ecoblogs - estou torcendo para entrar na turma deles!
Na última sexta aconteceu o IIº Seminário Paulistano de Calçadas. Calçadas? Sim, elas mesmas, aquelas sem as quais você estaria no olho da rua. Pode soar chato ou trivial, mas repensar as calçadas passa por questões bastante relevantes, como acessibilidade e acidentes com pedestres. Walter Feldman, Secretário Municipal de Esporte, Lazer e Recriação, estava no evento e fez questão de nos lembrar: antes de sermos motoristas, somos pedestres.
De acordo com o último censo do IBGE, em 2000, aproximadamente 14,5%. dos brasileiros apresentam alguma deficiência física, dos quais quase dois terços permanecem em suas residências. Será que eles ficariam em casa se as ruas fossem lugares mais fáceis de circular com uma cadeira de rodas? Para vereadora Mara Cristina Gabrilli não podemos esquecer também das grávidas, idosos, mulheres de salto, quem empurra carrinho com bebê… Uma calçada só é adequada se passar despercebida por todas as pessoas, principalmente pelas que se encaixam nesses últimos perfis.
Desde 2005, há um programa político de padronização de calçadas chamado Passeio Livre e no ano passado, com a aprovação do Plano Emergencial de Calçadas, começou a se pensar na revitalização das vias estratégicas. O proprietário do imóvel que não mantém sua calçada conservada corre risco de receber multa de R$200 por metro linear.
Nesse seminário também se discutiu a necessidade de mais investimentos públicos – com R$300 milhões seria possível interferir (para melhor, é claro) em cerca de 5 milhões das 12 milhões de viagens feitas a pé diariamente na cidade de São Paulo. São cerca de 30 mil quilômetros de calçadas paulistas. Começe a reparar nelas quando andar por aí, as irregularidades ainda são impressionantes.
Os dois estavam direcionados para mim. Nessa hora, senti uma dificuldade imensa. Como a distância entre eu e eles era só meio passo de estupefato – aquele ser animalesco que nasce das entranhas, sem reservas, diante de fascinações –, percebi o quanto era difícil me decidir se olhava mais para um ou para outro. Eles dois, os olhos dela, forjados com mel e verniz, pareciam autônomos do seu corpo. Piscavam numa velocidade sem correspondente nem na pulsação do coração nem na velocidade da respiração. O piscar era tão rápido que demorava um ano. Se você já passou um ano a esperar por qualquer coisa, um ente viajando, uma faculdade terminando, gerúndios que descamam segundos, certamente imagina o que era ficar um ano inteiro, inteiro sem aquele olhar.
Sorte das pálpebras, estas membranas que pouco partilhavam da sua vista privilegiada. Confesso, ambas eram também esforçadas, tecidos que comportavam um oceano, especificamente um Oceano Pacífico. A correnteza me levava para dentro dela, e o mais estranho era que, refletido no olhar, eu me via. Via-me diferente, desproporcional, perdido naqueles botões que saltavam da tez pontilhada, da casca cremosa. Como eu me via perdido no olhar no qual havia me perdido? Só sei que ao mesmo tempo eu continuava tentando, sem sucesso, me decidir para que olho olhar, à espreita do momento no qual a pálpebra deixava a íris, sem lentes nem cílios por lá caídos, aparecer. Demorava tanto que às vezes eu piscava!
Então percebi a necessidade de me concentrar no olhar dela, estabelecer uma relação tão ritmada que levassem os piscares a seguir o mesmo compasso, como numa dança na qual os parceiros articulam os mesmos movimentos, em coreografias combinadas sem combinação. Assim, os anos supracitados passavam mais rápido. Ah, ative-me tanto nos dois olhos que não tive tempo de olhar os pés da moça, quiçá eram nadadeiras.
“Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E no entanto essa é a única maneira de compreender…”.
Para promover a consciência em relação à água potável e ao descaso com as pessoas que convivem com a dura realidade de só ter água suja para beber, a agência Casanova Pendrill fez a campanha do vídeo, chamada Dirty Water.
Já imaginou uma máquina vendendo água suja nas ruas de Nova York? Pois bem, deu certo.
A escritora Margarida de Navarra (1492-1549) soube revelar os vais e vens humanos no conto ”O velho caolho”. É a história de um velho tão trabalhador (e caolho!) que nem tinha tempo de ver sua jovem esposa.
A serelepe moça se apaixonou por um jovem da vizinhança e os boatos da traição chegaram aos ouvidos do marido. O velho decidiu investigar a suspeita. Inventou uma viagem de trabalho para tentar flagrar os pombinhos entre lençóis.
Quando o velho tentou surpreender os dois, chegando em casa de súbito, ainda enquanto acreditavam que ele estava longe, a moça foi mais esperta:
“Abriu a porta e, abraçando o pescoço do marido, beijou-o e colocou uma das mãos sobre o olho sadio, perguntando-lhe se com o outro ele não estava vendo tão bem quanto via antes de perdê-lo. Enquanto o marido ficava assim vedado, o conquistador pôde escapulir-se sem ser visto”.
O velho praguejou:
“Que Deus te emende! Porque está além da força humana trazer uma mulher ordinária dos caminhos do mal a não ser matando-a”.
Depois, cedeu a conselhos e voltou a viver com ela.
Recentemente, o MST pressionou o governo Lula para que 90 mil famílias sejam assentadas, na lógica de que é preciso pressionar o governo antes do ano eleitoral chegar – no qual pouco poderá ser feito.
Sob pressão, Lula decidiu atualizar os índices que medem a produtividade de fazendas sujeitas a desapropriação para reforma agrária (índices de 1975 que, espera-se, serão mais rigorosos). Os ruralistas gritaram. Argumentam que estamos em período de crise, que eles já estão muito pressionados em relação ao cumprimento da legislação ambiental…
Caso realmente esses índices sejam atualizados, muitos ruralistas terão que produzir mais para não perderem suas propriedades. Só nos resta esperar para ver se o presidente permanecerá inabalável em sua decisão – ou se fará as vezes de velho caolho e depreciador da própria palavra. Um que ontem lembrou bastante o velho da história é Mercadante.
Foto: pintura em bandeja de ovos do artista holandês Enno de Kroon (visto em http://www.bemlegaus.com/)
4.781 pessoas conseguiriam fazer xixi no banho 4.781 vezes, pensariam 4.781 esculturas de queijo diferentes… Brincadeiras à parte, 4.781 pessoas (esse é o número que descobriram até agora, obviamente há muito mais) tiveram a liberdade privada por incompetência do Estado – recentemente o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) averiguou a situação de alguns presos, encontrando 4.781 casos nos quais ou houve prisão indevida ou a pessoa já tinha cumprido sua pena e ainda estava entre as grades.
Vale a pena ler o editorial do Estadão de hoje, pertinentemente intitulado de “A pena de morte em vigor”. De acordo com o Estadão, “Em um ano o CNJ examinou 28.052 processos em 13 Estados e terminou por libertar 17,36% do total de presos cuja situação jurídica foi analisada, inclusive 310 menores”. Além de injustiçados, passaram dias de cachorro abandonado.
Gramsci, um pensador italiano que escreveu muito durante os mais de 10 anos em que esteve preso, disse que “pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que partilham de um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos”. Até agora agimos fazendo vistas grossas ao caos nas cadeias. Enclausurados no nosso grupo, nos tornamos mais burros.
Antes ser um bobo destes descritos pela Clarice Lispector (veja o vídeo abaixo) do que burro. Na verdade, nem ser burro nem ser bobo adianta muito…
Este blog já começa com uma missão: discutir sustentabilidade. É um conceito bastante amplo (infelizmente, ainda visto por alguns desinformados como muito chato), que em resumo pode ser entendido como um meio de fazer com que a atividade humana de hoje não comprometa os recursos da galera do futuro.
Pretendo divulgar as ações que estão sendo realizadas mundo afora, promover discussões e, principalmente, estimular a mudança de pensamento, sempre com uma abordagem que relacione referências culturais, políticas, pops, históricas, entre outras – afinal, tudo está interconectado nessa wifi-zone chamada mundo.
A senadora Marina Silva, nossa ex-ministra do meio ambiente e talvez futura candidata a presidente, gosta muito de uma frase do sociólogo e filósofo Edgar Morin (esse senhor que esboça uma expressão meio desafiadora na foto acima):