
“Possuído pelo sonho, o homem trabalha”, diz Rubem Alves no livro Aprendiz de mim – Um bairro que virou escola, que conta a experiência da Cidade Escola Aprendiz, um projeto nascido há mais de dez anos.
Começou na Vila Madalena, com um site através do qual alunos de escolas públicas e privadas divulgavam seus textos sobre educação e cidadania. Ficou maior, se transformou num projeto que incluiu desde um beco, que se tornou quase que uma galeria de arte a céu aberto, com grafites mil, até uma fábrica abandonada, que virou um café, ponto de encontro para discussões e inclusão digital, onde os mais velhos encontram a oportunidade de aprender os primeiros cliques.
Como somos moldados pelo mundo em que vivemos, um projeto assim muda as pessoas, dá mais esperança e oportunidades, tanto que ajudou gênios como o Zezão, do grafite, que teve uma vida difícil, foi preso várias vezes, e em 2003 se tornou arte-educador do Aprendiz, deixando os dias de motoboy para ganhar seu pão de cada dia através da arte.
Rubem cita uma frase de Marx: “o homem é o mundo do homem”. Se o lugar em que você vive tem uma efervescência cultural contagiante, uma praça bonita, uma escola repleta de atividades… Enfim, se há uma apropriação do espaço público de maneira criativa, as pessoas também passam a se apropriar mais das oportunidades, elas mudam influenciadas por seu mundo.
Amanhã a cidade de São Paulo completa 456 anos. De acordo com uma pesquisa Datafolha, que ouviu 654 moradores da cidade no último dia 4 de janeiro, 41% das pessoas mudariam de cidade, contra 57% que nem cogitam sair daqui (em 2001, 61% das pessoas responderam que mudariam de São Paulo).
Já gente está aqui, pouco adianta querer mudar daqui, o melhor é mudar aqui, seja lá onde esse aqui seja. Cultivar o sonho de uma cidade melhor deveria ser regra, porque com os sonhos não há o dilema do ovo e da galinha, afinal, primeiro nasce o sonho, depois a obra – a obra pode até vir antes do sonho, mas muito por acaso, né?
Um israelense chamado Shai Agassi, que está trabalhando duro para implantar a sua ideia de carros elétricos, disse há algumas semanas numa entrevista à revista Época, quando perguntado se ele era um sonhador: “Não [sou um sonhador]. Sou um imageneer [mistura de imaginador com engenheiro, na tradução do inglês]. Quem faz artigos, livros ou filmes é um sonhador. Quem executa os projetos, busca parcerias, encontra investidores e faz o plano de negócios é um imagineer”.
A Cidade Escola Aprendiz continua a todo vapor. O Gilberto Dimenstein, que veio inspirado lá de NY e colocou em prática essa ideia de um acolhimento comunitário ligado a educação, é um imagineer. Como o homem é o mundo do homem (e homem é só uma forma de falar, inclui mulheres e homens, é claro), para melhorar, o mundo do homem depende dos homens que nele residem.
# imagem: foto de arte do Zezão #
[ESTE POST CONTÉM SPOILERS SOBRE O FILME NA NATUREZA SELVAGEM]


(uma crônica para reativar o blog…)
A escritora Margarida de Navarra (1492-1549) soube revelar os vais e vens humanos no conto ”O velho caolho”. É a história de um velho tão trabalhador (e caolho!) que nem tinha tempo de ver sua jovem esposa.