Você precisa aprender a viver com menos recursos

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Em tempos de pouca água nas represas e crises ambientais fazendo fila na nossa porta, precisamos aprender a viver com menos recursos. Mas o que é viver com menos recursos?

Resolvi compartilhar uma história que vivi no ano passado, que ainda ecoa na minha mente uma infinidade de vezes, exatamente sobre nossa relação com os recursos disponíveis ao redor. Sempre que me pego numa situação de desperdício, sou chamado ao chão da consciência por essa história.

Vou narrá-la como se quem estivesse vivendo esse momento fosse você.

Imagine que você está na Índia, lavando os pratos do seu jantar, à noite. É escuro. Há lua no céu, mas poucos raios de luz se esticam sobre a pia.

Você está lavando a louça com terra. Esfrega um pouquinho de terra na superfície do prato, depois enxágua e está limpo. Simples, rápido, sem detergente nem esponja.

Há mais duas pessoas lavando louças ao seu lado.

Tateando no escuro, você decide ligar uma lanterna para jogar luz sobre a pia.

Com a lanterna acesa, você sente que consegue se assegurar que não está sobrando nenhum torrão de terra nos pratos.

Vem um homem lá de longe. Chega perto. Olha nos seus olhos com firmeza, como se fossem jabuticabas prestes a serem colhidas. Rapidamente, ele lhe diz:

- Você precisa aprender a viver com menos recursos. Não precisa ligar a lanterna, há a luz da lua. À noite, a luz da lua não é suficiente para você? Você precisa aprender a viver com menos recursos. Ah, você precisa aprender a viver com menos recursos…

Você desliga a lanterna, pensando no quanto ainda precisa aprender. Pois dá para viver com bem menos, bem menos…

Os buracos na sala

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créditos: Mohammed Abed / AFP

A sala está em buracos.

Qual é o buraco maior, o que está na parede ou o que está dentro das pessoas que abriram esses buracos?

O buraco nas pessoas é muito maior.

A foto acima é recente, mostra um garoto palestino em Gaza. Mostra uma escola perfurada pela dificuldade humana de viver em paz. Mostra uma escola que mais parece uma peneira, com fendas e cavernas em que o mal escorre sob os olhos de um garotinho que certamente não consegue entender o que está se passando — alguém consegue?

Me senti muito mal ao olhar essa foto. Não que eu não tenha visto imagens piores da situação no Oriente Médio, vi sim, e há fotos que expressam o concreto horror, que têm cheiro de queimadura, que ricocheteiam no olhar e batem no estômago como balas de revólver. Essa imagem saltou dentro de mim e me incomodou mais do que as outras porque dediquei mais tempo para olhá-la, para tocá-la com os dedos do meus olhos. Parei muitos minutos diante dela, fazendo uma radiografia de cada um dos buracos na parede, e comecei a contá-los, tentando sentir a fundura dos poços de escuro, imaginando o sons do ambiente, sentindo o chão de pedras no caminho. Então pisei firme nesse chão, inalando a poeira que se acumulava sobre as mesas no canto do esquecimento. Me perguntei: que tipo de sensação da vida tem uma criança que nasce na esburacação?

Olhe a foto por mais tempo, ande pela sala na companhia do garoto.

Coloque a mão nos buracos na lousa, o que você sente?

Assim como o garoto, use seu dedo indicador para escrever algo na lousa. O que quer escrever?

Passe as palmas das suas mãos sobre a lousa, prove o sabor do pó que se acumula em cada centímetro de superfície. Só quando dedicamos mais tempo para sentir o que está ao nosso redor é que nos aproximamos do que realmente está pulsando sob os panos das cenas. Se entramos numa sala escura, só alguns minutos de observação permitem que nossos olhos se acostumem com o breu e passem a vislumbrar linhas e vultos.

Agora que você olhou a foto com mais tempo, me diga: o que você sente?

Não sei sobre você, mas eu sinto minhas entranhas tão ou mais perfuradas do que a lousa. Se meu corpo fosse uma casa e as pessoas pudessem entrar nele, encontrariam peneiras em forma de paredes. Pois ao abrir os olhos para a realidade que o homem está construindo — ou desconstruindo –, ainda que eu veja muitos pontos potentes, belos e promissores, sou também metralhado bruscamente por cacos de catástrofes que se espalham e se reproduzem como vermes.

E não vim para esmiuçar a discussão sobre o conflito entre palestinos e israelenses, desconheço as miudezas dessa narrativa. Minhas palavras apontam outra questão: a insensibilidade que gera mais e mais buracos, seja no Oriente Médio, seja aqui no Brasil.

Toda vez que me entrego a passeios pelos porões do nosso tempo, sinto a necessidade de caminhar para ver a realidade em movimento. Numa das minhas caminhadas silenciosas mais recentes, cheguei até o Parque da Água Branca, em Perdizes, e andei à noite entre as árvores. Perambulavam pela mente os poços de horror em Gaza e os porões selvagens que encontro por perto, em SP, pelo Brasil. Cheguei até uma parte do parque onde havia um bambuzal. Estava escuro, então entrei no meio do bambuzal e, olhando para cima, via apenas o pano preto da noite se estendendo na folhas que alcançavam as alturas. O vento movia as folhas com uma delicadeza bonita de se ver e ouvir, como se a multidão de folhinhas fosse um cardume na água, ora numa direção, ora em outra. Decidi me deitar no chão, para olhar o ambiente com o corpo inteiro. Os pernilongos me mordiam, deixavam coceiras em mim.

Corpo estendido sobre o chão, olhar estendido sobre o céu. Me senti em pedaços. Como se cada parte de mim fosse uma pedra jogada numa parte do parque. Nossos tempos nos transformam em pedras para que então sejamos atirados uns nos outros?

Observando as altas cabeças dos bambus em contato, em movimento numa dança com o vento… Olhando as árvores ao redor… Me dei conta do quanto a paciência da natureza tem a nos ensinar. Aquelas árvores levaram anos para crescer… Silenciosamente… Suas folhas, tão precisamente esculpidas pelo tempo… Tão cuidadosamente esculpidas pelo tempo… De novo, o tempo. Tudo mudará se dedicarmos mais tempo para aprender com o ambiente ao nosso redor, para escutar as fotos que gritam com a garganta em estado de convulsão, para perambular pelos vales e cavernas das pessoas… Num mundo em que tão poucos se leem para além das primeiras páginas, ver e ouvir sem se inebriar com a neblina instalada no ar se torna um ato político, uma campanha silenciosa pela erradicação do analfabetismo relacional.

Deixemos o Parque da Água Branca e suas árvores em paz. Voltemos a Gaza, diante do menino na sala. O que fazer depois de meditar sobre essa cena? O quê? Repito: a foto é forte não por causa do que dá para olhar, mas pelo que não se vê na sala. Afinal, o pior não são os buracos na parede, mas o que tais buracos evocam e apontam: os buracos nas pessoas, os buracos em mim.

[AVISO: Se aceitar prosseguir a leitura do post, por favor, não deixe de seguir a proposta que vou compartilhar. Se não quiser levar à frente nenhum combinado para esculpir sua sensibilidade, por favor, largue esse texto de lado, sente-se no sofá da sua sala com paredes perfuradas por buracos, finja que nada aconteceu... Se continuar a leitura, atenda à proposta sem pestanejar, por favor, por favor, por favor]

O que são buracos? Lugares onde mora o escuro, a fraqueza. Onde mora o horror. Mas também pelos buracos pode entrar a luz. Pelas frestas pode escorrer a água que mata a sede. Então percebamos cada buraco nas paredes como gritos que suplicam por relações genuínas que os preencham.

Para cultivar relações, entrando nas entrelinhas do outro, precisamos criar mais e mais momentos em que lemos as pessoas com tempo e atenção. Pois então, proponho que você se comprometa a organizar uma Roda de Leitura de Pessoas.

E o que é uma Roda de Leitura de Pessoas?

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Se quiser, use esse cartaz para divulgar sua Roda de Leitura de Pessoas.

Trata-se de um encontro de pelo menos duas horas em que duas pessoas são convidadas a contar sua história de vida em detalhes.

Primeiro, junte um grupo de pessoas. (I)

Elejam juntos quem serão os dois participantes da roda que vão compartilhar suas histórias de vida. (II)

Proponha que comecem contando um momento que os marcaram muito e escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute. No decorrer da conversa, convide os participantes a fazerem perguntas que levem os olhares para outras camadas das narrativas. (III)

Inicialmente, não se esqueça de provocar as pessoas presentes a escutarem com atenção não apenas palavras, mas também os silêncios.

Roda de Leitura de Pessoas é uma simples provocação de encontro com páginas alheias que a pressa e a miopia não nos deixa ler — há infinitos volumes na epopeia de cada um. Faça essa roda na sua casa, escola, empresa, seja onde for. É uma forma de você entrar nas suas salas. Nas salas dos outros. Para observar buracos e frestas. Para olhar as lousas. As mesas. A poeira impregnada nas superfícies e nas peles. As bonitezas e fios d’água que escorrem pelos cantos.

A sala está em buracos.

Ler o que se passa lá dentro não é pouco. Ler o que se passa lá dentro exige coragem. Coragem de encontrar o mau de frente. Coragem de encontrar o bem de frente. Coragem de esculpir a si mesmo. Sem esse passo, não conseguimos responder o mundo à altura. Sem esse passo, só aumentarão os buracos na sala.

andre@educ-acao.com

O barão da árvore de Higienópolis é um mágico

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* texto republicado no Planeta Sustentável.

Gabriel decidiu morar numa amoreira do bairro de Higienópolis, região de classe alta em São Paulo, ao lado de uma das saídas do Shopping Higienópolis. Gabriel, 15 anos, o menino-passarinho, não anda com documentos, sonha em aprender mágicas com baralho, não sabe ler, carrega a tiracolo um livro de mágicas. Gabriel parou na Rua Veiga Filho porque achou a rua bonita. Gabriel deve ter passado pela rua e olhado a árvore com atenção suficiente para imaginar sua cama em cima da árvore, para imaginar a si mesmo subindo na árvore e explorando-a como ninguém antes havia feito ou sequer sonhado.

Gabriel gosta da novela Carrossel. Gabriel não conhece Cosme Chuvasco de Rondó, o personagem de Ítalo Calvino do livro O barão das árvores, que resolveu morar nas árvores e se despediu da família dizendo “não vou descer nunca”. Gabriel, o barão da árvore de Higienópolis, recebe visitas da polícia, dos bombeiros e de moradores que o veem como um intruso mal-vindo. Gabriel, o barão da árvore de Higienópolis, recebe visitas de Luciana, uma mulher frondosa, que se torna sua primeira mãe das ruas, seu primeiro galho firme onde se pendurar caso se veja em perigo.

Gabriel sofreu uma agressão física por um dos moradores da região. Gabriel incomoda pela sua presença, ao ponto de o denunciarem por poluição visual. Gabriel ouve um morador do bairro: “Cortem a árvore e o menino não terá mais onde subir”. Gabriel ouve outro morador: “Esse garoto não pode viver na árvore, ele está cometendo um crime ambiental”. Gabriel pergunta: “O que é crime ambiental?”.

Gabriel quer aprender mágicas e, quando me contam a história de Gabriel, tento aprender uma mágica para compartilhar com ele. Gabriel recebe a visita de uma jornalista do Estadão, a Vivian, que ouve atentamente (e sensivelmente) sua história. Gabriel recebe a visita de Eduardo, Jorge, Gabi, Nicolau, Guiomar, Cauê, Pepê, Beliza, Rosália, Tamiê, Pedro, Flávio, mais e mais visitas de Luciana. Gabriel desce da árvore, transforma a calçada da Rua Veiga Filho na sua sala de estar. Gabriel atrai a atenção das pessoas por olhar no olho, transbordar pelos poros a sua paixão por mágica. Gabriel é um mago e não sabe, com sua alquimia natural une ao seu redor pessoas que dificilmente se encontrariam se não fosse a sua presença – ou Gabriel sabe que é um mágico? Gabriel é o mágico que desperta nas pessoas o sentimento de cuidado. Gabriel dorme rodeado de pessoas que fazem vigília para o proteger.

Gabriel me vê fazer a mágica que treinei exclusivamente para ele. Gabriel se impressiona. Gabriel se frustra um pouco depois que conto o segredo da mágica, quando revelo como faço uma moeda de cinco centavos desaparecer no meu cotovelo. Gabriel acha que não sou um mágico de verdade, diz para mim, risonho, irônico: “Quero ver você transformar essa moeda de cinco centavos em uma nota de dois reais”. Gabriel me mostra seu livro de mágicas. Gabriel pede para eu lhe ensinar uma mágica com cartas de baralho. Gabriel vai conversar com um garoto que trouxe um computador para ambos brincarem e, enquanto isso, me dedico a aprender uma mágica nova, junto com Pepê, filho de Luciana. Gabriel se impressiona quando vê a mágica que eu e Pepê aprendemos, ainda que ele dê a entender, sutilmente, com uma pontinha de desconfiança no olhar, que não nos aprova como mágicos – entusiasmados, eu e Pepê fundamos rapidamente nossa dupla de mágica que sabe uma mágica só: “Os Monomagic”.

Gabriel não sabe, mas já já vai encontrar sua mãe novamente. Gabriel chegou na Rua Veiga Filho oito dias atrás, contando que se escondeu entre a carga de um caminhão cegonha para chegar em São Paulo, deixando para trás o município de Cachoeiras do Macacu, perto de Nova Friburgo (RJ), deixando para trás sua família, deixando para trás sua televisão onde assistia à novela Carrossel. Gabriel já já vai encontrar sua mãe e, ao seu redor, as pessoas que chegam não saem mais. Gabriel não sabe, mas Rosália, uma das pessoas que o rodeiam agora, tem um sítio em Nova Friburgo. Gabriel não sabe, mas Rosália conseguiu entrar em contato com sua mãe. Gabriel quer dormir mais um pouco, mas há um caminhão ao seu lado que não para de fazer barulho. Gabriel se esconde debaixo da coberta, então Luciana se aproxima de um dos responsáveis pelo descarregamento do caminhão e oferece ajuda para retirar as caixas recheadas de produtos do McDonald’s. Gabriel continua debaixo das cobertas enquanto Luciana começa a carregar as caixas do McDonald’s para fora do veículo e chama mais gente para ajudá-la – e o homem no caminhão barulhento diz: “Esse menino vale ouro, é?”.

Gabriel vai ao shopping comprar um boneco do Toy Story com o dinheiro que ganhou nos últimos dias. Gabriel está na loja, encantado com a quantidade de bonecos do Woody, seu personagem favorito, e enquanto isso sua mãe chega na Rua Veiga Filho. Gabriel nem imagina que sua mãe está na sua sala de estar. Gabriel nem imagina que sua mãe já o procurou até no IML, sem mais acreditar que veria o filho vivo. Gabriel nem imagina que sua mãe escreveu, atrás de uma foto sua, as seguintes palavras: “Dia 9.07.2014. Gabriel com 15 anos parou no Rio de Janeiro através de carona. Mas Jesus guardou e cuidou dele. Essa foto foi revelada para divulgar o desaparecimento dele. Deus é fiel e nunca abandona os seus”. Gabriel contou que a mãe havia o abandonado, mas ela ressalta outra versão, desabafando que o filho faz tratamento psiquiátrico.

Gabriel sai do shopping com uma sacola da Rihappy na mão. Gabriel olha para sua sala de estar na rua e se depara com sua mãe. Gabriel e a mãe, Dulciléa, se abraçam, e a mãe chora, e choros brotam no asfalto como enxurrada. Gabriel abraça Dulciléa e diz: “Vamo embora, mãe?”. Gabriel volta para casa com a mãe, o padrasto, o Woody e seu livro de mágicas. Gabriel é um mágico porque conseguiu uma proeza magnífica. Gabriel tira fotos com todos, finda sua epopeia na Veiga Filho. Gabriel é um mágico porque conseguiu uma proeza magnífica: transformou o asfalto em lugar de encantamento.

Ah, Gabriel, boa sorte no seu caminho… Que nos esforcemos para que cada vez mais o labirinto que chamamos de cidade se torne um espaço pontilhado de encontros profundos. Gabriel é um alerta, aponta o melhor e o pior em nós.

* agradecimento especial à Natália Ferreira, que me apresentou à Luciana.

Como mudar a educação na raiz

Screen Shot 2014-07-27 at 14.24.31* texto inicialmente publicado no Portal Aprendiz // republicado em espanhol na Reevo.

As pessoas saíam das lojas para olhar o acontecimento.

– Piriri, piriri, obá! Oi quem vem lá, obá!

A cantoria se espalhava pelos ouvidos de concreto.

– Piriri, piriri, obá!

Nas janelas dos carros, curiosos esticavam seus pescoços. O policial observava a marcha com atenção. O atendente da loja de sapatos saiu para a porta com a testa franzida em sinal de interrogação. Uma mulher chamou a atenção da amiga para juntas varrerem a cena com suas pestanas.

– Por onde passa, obá! Estremece a terra, obá!

Ainda que discreta, a marcha chamou atenção. Sem megafones, sem faixas, sem cartazes. Não havia black blocks. Não se tratava de uma manifestação comum. Não eram os “fraldas pintadas”, não era a esquerda, não era a direita. Quem compunha a marcha? Vinte e uma crianças de 5 e 6 anos e três educadores. Como reivindicação, pediam a cidade inteira. Pediam parques, praças, ruas. Pediam que a cidade recebesse as crianças com cuidado e carinho. Pediam que as pessoas olhassem nos olhos umas das outras. Pediam que ninguém se esquecesse de brincar. Pediam respiros. Pediam o retorno da poesia à presidência das imaginações. Pediam cor. Pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.

Sim, pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.

As crianças não gritavam frases políticas nem carregavam cartazes para requerer tais demandas. Seu ato berrava mais do que qualquer palavra ou faixa, demandava o sonho enquanto o realizava. Tratava-se de um ato de ocupação criativa da cidade, de brincação caminhativa. A marcha saiu da escola municipal de ensino infantil Gabriel Prestes com um destino final: uma biblioteca. No trajeto, andamos apenas algumas quadras, ritmados pela cantoria do “piriri, obá!”. Nesses poucos metros, sentimos a realidade se deslocar.

As pessoas ao redor haviam, de repente, quebrado suas resistências secas. Sorriam de boca aberta, escancarada de espanto positivo. As crianças riam em enxurradas, animadas, hiperpresentes. Como é raro encontramos grupos de crianças em ruas movimentadas, a marcha impressionou as pessoas. E as crianças saem pouco para as ruas por que é perigoso? Viver é perigoso, claro. Hoje em dia, as pessoas acreditam que tudo é perigoso e seguem, pouco a pouco, fugindo de tudo que as coloque em atrito com nossa cultura, que as joguem na aspereza da pele dos dias ou nas brechas lúdicas da cidade, e assim perdem o que há de mais pulsante e educativo na realidade. Quanto mais fogem do perigo, mais o alimentam. Quanto mais se iludem ao achar que escaparam, mais se sufocam. As crianças que marchavam pelas ruas do centro de São Paulo, acompanhadas por educadores, provavam que a resolução mais madura é destruir o perigo na raiz, ocupando sua casa – e ocupando-a criativamente.

No fim do dia, uma das professoras que estava na caminhança pelas ruas falou: “A cidade ouviu as vozes da infância e seus percursos!”. Outra educadora comentou: “Senti a mesma emoção quando levamos as crianças da minha escola, à pé, até o prédio do Banespa. As pessoas sorriam e viam as crianças na rua, me senti humanizando a cidade”. E eu pensava, no meu silêncio fervilhante: há algo muito errado na desconexão crônica do adulto com qualquer coisa que o cerca, um desconcerto que as crianças desmancham com um simples malabarismo de olhar. Numa conversa sobre essa experiência, cheguei a lançar uma provocação brincante: “Se fôssemos realmente radicais, colocaríamos as crianças para educar os adultos. O que temos a aprender com elas não é mais importante do que o que elas têm a aprender com a gente?”.

como mudar a educacao na raiz

Resistir e criar

Em uma cidade de cidadãos não praticantes e com altruísmo sedentário, como provocamos uma mudança na relação entre as pessoas? E as ruas, como torná-las apoteoses da mudança, lugares onde se deem mais e mais encontros potentes? “As ruas já não conduzem apenas, elas mesmas são lugares”, dizia o escritor John Brinckerhoff Jackson, um teórico que lidava com a temática das paisagens. Estimular que as crianças e jovens ocupem o território ao seu redor de maneira criativa, gerando contatos genuínos, é um ato educativo, político, de saúde e cuidado. É dizer para as novas gerações que suas presenças mudam o entorno. É apontar uma nova cultura, que demanda uma nova construção de aprendizagem, na qual a cidade como um todo é reconhecida como um organismo vivo de educação – várias expressões e projetos têm vindo à tona para tocar esse ponto crucial da mudança da nossa cultura pela percepção que a educação demanda um cuidado coletivo, como bairro-escola, cidade educadora, comunidade de aprendizagem e território educativo.

Já pensou se a aprendizagem informal que mora nas brechas das cidades for mais e mais descoberta? Quantas pessoas não aceitariam compartilhar suas histórias, ensinar o que sabem? Já imaginou se você passasse a se reconhecer como um educador das ruas? Podemos criar um novo imaginário sobre o que é educação, percebendo que a educação que transborda pela cidade é um símbolo diferente dos outros que se perpetuaram até agora. É uma raiz que vai mais fundo e encontra outras raízes – nessa linha profunda, educação é cuidado consigo mesmo, com o outro e o ambiente.

Sempre que analiso a urgência por mudanças na educação me lembro do olhar de Gandhi sobre as causas do seu tempo. Depois de se mudar para a África do Sul para trabalhar, ainda jovem, Gandhi sofreu bastante preconceito por ser indiano. Ao entrar nos trens sul-africanos, na primeira classe, exigiam que fosse transferido para a terceira classe, mas nunca consentia com esse tipo de situação. Ele sentia fortemente que não dava mais para aceitar que uma pessoa fosse menosprezada por sua cor ou nacionalidade. E esse sentimento de “não dá mais”, essa necessidade de não cooperar com uma situação ou mesmo resistir a ela, se repete quando Gandhi percebe que os indianos importavam sal da Inglaterra, sendo que era possível pegar sal diretamente na Índia. Sentindo que não dá mais para colaborar com esse tipo de situação, Gandhi estimula a não cooperação, a desobediência criativa, e leva à frente a Marcha do Sal, na qual milhares de pessoas seguiram até o litoral do Oceano Índico para buscar o sal direto na fonte. Essa urgência no olhar retorna quando Gandhi se depara com indianos pagando impostos absurdos. Não dá mais. Não dá mais.

E nessa linha de pensamento, o que “não dá mais” em relação à nossa educação deseducadora?

Não dá mais para acharmos normal um aluno passar doze anos na escola e mesmo assim não aprender nem a ler. Não dá mais para perguntarmos a jovens de 17 anos se eles têm um sonho e ouvir que a aspiração é repetir as carreiras que outros tantos hoje seguem, rumo a oceanos de infelicidade, sem que tenham refletido minimamente sobre quem são e como podem lapidar sua singularidade. Não dá mais para chegar em escolas, ficar impressionado com o número de professores de licença, muitos em depressão, e achar que um sistema que deixa a mente e o corpo das pessoas domado, mutilado e dolorido deve ser reaberto do mesmo jeitinho todos os dias. Não dá mais para acharmos que a violência é um caminho a ser seguido – e o que fazemos com as crianças, jovens e professores hoje é violência. Violentamos sonhos que nem chegam a ser sonhados. E cada vez mais acredito que só quando nos apropriarmos do ambiente ao nosso redor com ênfase, criatividade e generosidade é que deixaremos espaço para emergir uma abordagem de aprendizagem forte o suficiente para mudar a educação em larga escala.

como mudar a educacao na raiz

Recentemente uma amiga compartilhou no Facebook uma imagem com uma piada que ironiza nossas relações rachadas, dizia assim: “Fiquei sem internet por um dia e descobri que tem um pessoal aqui em casa, até sentei com eles na mesa, acho que é minha família”. E bem assim acontece com nosso entorno, imaginem a situação: “Um dia tropecei numa pedra na rua e descobri que tem um pessoal caminhando ao meu lado, até parei um deles para perguntar quem era, acho que também é um ser humano como eu”. Se não cultivarmos laços fortes com a cidade e as pessoas ao redor, aprendendo com elas, aceleraremos o processo de desumanização em curso. Viraremos máquinas, pedras, rinocerontes com sonhos natimortos. Na peça “O rinoceronte”, do franco-romeno Eugène Ionesco, há uma epidemia de “rinocerite” em uma cidade, que transforma quase todo mundo nesses grandes mamíferos de pele espessa, sem porosidade. Apenas um homem resiste – e, ainda bem, ele resiste até o final.

Resistir e criar: dois movimentos urgentes.

Resistir e criar.

Piriri, piriri, obá!

* depois me conte como foi seu encontro: andre@educ-acao.com

André Gravatá é jornalista, mas pode ser definido como um “esticador de horizontes”, sempre atento às transformações ao seu redor. Com o coletivo Educ.Ação, escreveu “Volta ao Mundo em 13 Escolas”, que pode ser baixado e lido gratuitamente. Em maio de 2014, como integrante doMovimento Entusiasmo, organizou com artistas, escolas, educadores, ativistas e estudantes a Virada Educação, um evento de ocupação criativa do centro da cidade de São Paulo. Pode ser encontrado através do andre@educ-acao.com.

Carta aberta sobre ruínas e casarões

Caro policial que encontrei ontem,

escrevo esta carta para te convidar a refletir.

Ouvi você falando algo que me fez sentir repulsa. Enquanto falava, seus olhos mais pareciam dardos em movimento. Numa praça, você abordou um garoto sem camisa e mochila de lado, a alguns metros de mim. Você procurava apreender drogas, provavelmente. No meio da conversa com o jovem, vieram as seguintes palavras na sua boca: “Você é um lixo”.

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Você pronunciou essas palavras lentosamente. Sílaba por sílaba. Deu pra sentir, ah, sim, que você estava saboreando essas palavras. Você é capaz de pronunciar essa frase de novo com a ênfase que eu vi você dar em cada movimento na boca? Que gosto tem a palavra “lixo”? Que gosto tem a palavra “você”? Não sei o gosto que sentiu, mas sei o que senti. Há amargor maior?

É que ninguém tem o direito de chamar ninguém de lixo. Ninguém. O que é lixo? Lixo é uma coisa que a gente descarta (e com cuidado), ser humano não é nem uma coisa nem um descartável. Não tive coragem de dizer isso na sua frente pois seus olhos em forma de dardos também me intimidaram.

Reflita um pouco comigo, por favor. Recentemente, me aproximei de alguns dos seus colegas antes de uma manifestação e perguntei se podia ler um poema para eles. Mesmo reticentes, aceitaram. Era um poema do Carlos Drummond de Andrade, intitulado Mãos Dadas. O poema fala sobre o presente em que vivemos, sobre a importância de criarmos no presente o que queremos, sem lamentar, sem procurar a volta de um mundo caduco que já está para trás. E logo depois da leitura, um dos policiais disse que ele sente que as pessoas ao redor dele o veem como um bicho. E ele pronunciou a palavra bicho algumas vezes, desabafando que não é nada bom sentir que os outros pensam que você é um animal selvagem.

Lixo, bicho… De que valem todos esses rótulos? Eles te arruínam. E me arruínam também. Deixam ruínas.

O que fazemos com as ruínas? Abandonamos. O que os rótulos fazem ao transformar as pessoas em ruínas? Geram abandonamentos.

E como se dão os abandonamentos?

Quando já achamos que sabemos tudo sobre alguém, nosso olhar abandona as camadas dessa pessoa, como se não tivesse mais nada para descobrir (a primeira rotulação é a que fica?). Mas eu, você, enfim, as pessoas têm camadas, ô se tem. Sem relevo, as pessoas viram rasos, sem gosto, sem rosto, viram números, e assim perdemos o que pulsa nelas.

Essencialmente, as pessoas não são ruínas, mas sim casarões. Imagine um casarão com tantas portas dentro de portas dentro de portas dentro de portas que você não é capaz de contá-las. Assim são as pessoas em processo de descobrência. A ciência de descobrir uma pessoa — a descobrência — é uma arte. Demanda que a gente se abra também. Mas se a gente se trata como ruína, não conseguimos ver ninguém como casarão.

Abrir as portas dos outros não é fácil, deixa a gente vulnerável. Quanto mais entramos no outro, menos sabemos onde vamos chegar. Porém, é o ato de se perder que promove um encontro substancial.

Diante de tudo isso, estou te pedindo, com todas as minhas energias: não seja ruína, não seja ruína, não seja ruína.

Hoje passei a manhã no hospital, acompanhando minha mãe, pois ela está doente, e o médico nem olhou nos olhos dela, não deu aberturas para que exercitássemos a arte da descobrência — e ele mesmo não se esforçou para descobrir minha mãe. Enquanto ele a atendia, outro médico falava, também para todos ouvirem: “Só de raiva, vou liberar aquela paciente”. Sim… a falta de descobrência e o vício em ruínas não é um problema só seu, não é uma questão pessoal contigo nem com os policiais em especial, mas com todos que fazem questão de fechar as portas dos outros antes mesmo de abri-las. E, claro, mesmo na tentativa de aproximação, poucos abrem suas portas desde o início, por isso a descobrência demanda calmaria e porosidade.

A sua frase — “Você é um lixo” — ecoa na minha cabeça, pois não são apenas palavras pronunciadas por você. Há toda a nossa cultura e nosso tempo falando através da sua voz. Toda a história fala enquanto você diz: “Você é um lixo”.

Peço encarecidamente que você não mais pronuncie algo deste tipo. Dedique-se mais à descobrência, garanto que você vai se perceber (e sentir o mundo) de um jeito diferente.

Obs.: Na minha inquietação desabafadora, muitos esperariam que eu te xingasse de lixo também. Te xingar e sair correndo. Te xingar no Facebook, num arroubo infantil. Mas não seria capaz de fazer isso, não precisamos de mais ruínas num mundo em pedaços. Num mundo tão cheio de portas para abrirmos com cuidado.

Um menino de 9 anos me empurrou contra a parede

Preste atenção. O presente é urgente.

Preste atenção e veja uma mulher com uma bolsa Louis Vuitton — provavelmente falsa — e uns óculos descansando no topo da sua testa. Ela atende o celular, está perto de uma escola, no horário de saída dos alunos. “Sua puta, sua vadia, sua puta.” É o que ela diz para a outra pessoa na linha, alto o suficiente para ecoar no horizonte de cor de papel de pão amassado. Decido ficar perto da mulher para entender — ou continuar não entendendo — o que está acontecendo — ou desacontecendo. Ela está falando com a própria filha.

“Sua puta, sua puta, ou você aparece daqui a pouco ou vai se ver comigo…”

A mulher se aproxima de uma base de guardas civis. Começa a falar com os homens uniformizados, que a ouvem tão inertes quanto árvores sem seiva, não esboçam nenhuma contração no rosto. Um skatista se aproxima e a mulher o olha diretamente, com ódio respingando na pele e se elevando tipo uma agulha aguda. “Você se prevalece com tudo!”, diz a mulher ao skatista. “Fica ligueira”, responde o jovem, com aspereza nas gotas de voz que se espalham pelo ar, confetes cinzas. “Olha o chão que você pisa… Tô procurando emprego que nem uma louca. Meu pai é um tentente reformado. Tem que haver uma lei para mudar tudo isso. (ela para de olhar para o skatista e se dirige novamente aos guardas) Tava pondo culpa no coordenador da escola. Ele devia orientar minha filha, ela é menor infratora. E eu a amei. Ela é linda. E eu nunca vi esse skatista pilantra. Só os cegos não veem, tenho certeza que esse pivete sabe que eu sou mãe da Raquel, e ele tá aqui de olho em mim porque a Raquel mandou, essa minha filha, essa vadia. E eu peguei ela sim. Quase decepei o dedo. Com uma faca. Do jeito que eu quase tirei o dedo, eu arranco a cabeça fora.”

Preste atenção e se arrepie com a frase dessa mulher — eu me arrepiei prolongadamente, meu primeiro arrepio-gerúndio.

Preste atenção e veja que ao seu lado há um morador de rua com uma pedra enorme na mão. Ele bate a pedra em uma fechadura de porta. Está à procura do metal que está lá dentro. Vai vendê-lo. Três reais é o que vai receber por um kilo do tal metal. A partezinha que ele retira da fechadura corresponde a umas 50 gramas — ou menos. Atrás dele, anuncia um restaurante: “bruschettas por R$18″. Ele não tem a ponta de um dos dedos, perdida nos trabalhos de pedreiro, entre os tijolos da casa onde você mora hoje.

Preste atenção e vai ver que os atendentes no supermercado sempre perguntam: “Quer nota fiscal paulista?”. Você, cansado, sempre responde sim ou não, sem nem ligar para a interrogação. E um dia você não responde nem sim nem não. “Quero outra coisa.” “Senhor, quer o quê?” “Quero uma resposta. E esta é a pergunta: Qual é o seu sonho?” A atendente do supermercado fica parada, estranhada. Não sabe se responde ou passa as compras. Naquele exato instante, entra em erosão o marasmo que é cuidadosamente preservado para preencher todas as frestas humanas de uma angústia mole como visgo. Aquela pergunta tira o verniz de um momento pálido, dá cor aos pedaços de tempo ressecados e pendurados nos varais da realidade.

Preste atenção e você vai encontrar uma professora numa escola dizer: “Fique longe de mim se quiser ter sucesso. Trabalho há 14 anos no mesmo lugar e sou tratada como estreante todos os dias”. E você vai encontrar, num debate sobre educação, uma mulher limpando as salas, e essa mulher vai te dizer que não tem nada a dizer sobre o debate, porque só o que ela tem que fazer é limpar, é servir, é trabalhar para os outros.

Preste atenção, preste atenção. Se prestarmos mais atenção no que aconteceu e no que acontece, no que desaconteceu e no que desacontece, no que nem cabe num acontecimento nem ontem nem hoje, perceberemos que há um movimento taquicárdico e espasmódico em curso no lençol freático de nós mesmos. E nossa energia para criar uma realidade possível que se distancie do caos completo tem que ser maior e maior.

Tive um encontro que reforçou em mim a necessidade de mais atenção e mais energia na construção de um outro tipo de vida coletiva. Por circunstâncias que nem sei explicar, ontem me encontrei comigo mesmo. Encontrei o garoto que eu era, eu aos 9 anos. É que me deparei com anotações feitas em um caderno que eu chamava de diário. As páginas falam por elas mesmas. Abaixo, compartilho duas delas:

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A realidade que ardia em 13 de março de 2000.

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Redemoinho mental do dia 15 de março de 2000.

Essas e outras páginas me fizeram lembrar do extenso vazio da minha infância. De um vazio imposto por essa sociedade de relações fracas, desconexão generalizada e espetáculo permanente. Os assuntos principais dessas páginas do diário do garoto de 9 anos são a escola e a televisão. Falo exaustivamente dos programas que eu assistia e reassistia, numa ânsia infinita. O que me assusta é perceber que a sociedade me entregou uma vivência insossa e carente de significado para preencher as fantásticas lacunas do tempo.

Meu diário-mirim é um elogio ao vazio. Como a gente se esquece rápido do que vive, não é? Pouco mais de dez anos depois, encontro o garoto que fui e nem me lembro mais de como ele era. Suas palavras abrem meus olhos. Me empurram para um estado de atenção maior. Emergencial. A realidade construída pelos humanos está em estado de emergência, só não vê quem não quer, quem não tem coragem de abrir os olhos afogados em privilégios ou misérias.

Numa realidade em estado de emergência, mães chamam as filhas de putas e prometem arrancar suas cabeças, homens beijam o asfalto porque seus chefes deixam de pagar seus salários mesmo depois que os infelizes já até perderam parte dos dedos na lida diária. O menino de 9 anos está agora mesmo olhando para mim e dizendo: “Não percebe o que está desacontecendo?”.

O menino de 9 anos está agora mesmo me olhando com todos os poros. O menino de 9 anos acordou, me empurra contra a parede. O menino de 9 anos está repetindo o mesmo que disse ontem um morador de rua quando eu falei “desculpas” depois de negar dinheiro: “Desculpas é o caralho”. O menino de 9 anos está me olhando no fundo dos olhos e me perguntando: “Você realmente acha que já dá o melhor de si para o mundo? Acha que se dedica ao máximo para ousar novas realidades?”. O menino de 9 anos nem entende sua professora nem se esforça para isso. O menino de 9 anos aprendeu o desencanto e passou a rejeitar até quem aparece à sua frente para colaborar com ele — talvez sua professora seja uma pessoa legal, mas ele está com os olhos fechados para as pessoas legais que andam vestidas de mentiras.

O menino de 9 anos um dia anotou no seu diário: “Como as pessoas conseguem mentir tanto?”.

O menino de 9 anos não entende ainda como as coisas funcionam — ou desfuncionam.

O menino de 9 anos aponta o dedo para mim: “Por que você e seus amigos se contentam com mudanças tão fracas?”. O menino de 9 anos acredita que estou num caminho relevante, mas acha que exploro pouco os limites da minha ação. O menino de 9 anos me diz que o problema não é o mal, pois o mal faz parte do humano, mas sim a aceitação covarde que temos diante do absurdo encenado e reencenado a cada instante. O menino de 9 anos me chacoalha, quer que eu perceba minha imensa capacidade de enganar a mim mesmo. O menino de 9 anos para de olhar para mim, abaixa a cabeça. Perde-se nos próprios pensamentos de menino de 9 anos. Pensa no Pokemon, no Power Rangers, na Eliana e seus dedinhos. Pensa em fugir de casa, brincar com os amigos na rua, ir comprar pão, requeijão e mortadela na padaria do Seu Moisés. O menino de 9 anos quer se despedir de mim. Mas não sabe como. Nem eu sei como. Nem eu sei como nos encontramos e tivemos essa conversa que prosseguiu mais como um monólogo do que como um diálogo. O menino de 9 anos tem mais a dizer do que eu? Ele sabe mais do que eu? Ele sente mais do que eu? O menino de 9 anos vai ter aula amanhã e novamente vai odiar se sentar numa sala fechada com professores que lançam propostas que ele não consegue conectar com sua vida de menino de 9 anos.

O menino de 9 anos levanta a cabeça e olha de novo para mim, e esse olhar é suficiente para expressar o inexplicável. O olhar do menino de 9 anos é o realejo do insondável. É a caverna portátil do fim e do início. Do seu olhar, escorrem milhares de botões de melancolias e vitalidades. O menino de 9 anos vai embora com seu olhar, suas palavras e seu diário. O menino de 9 anos me olha com a ternura e o ódio de alguém que ama e abomina ao mesmo tempo. Me dá um voto de confiança. Me deixa com tornados mentais e um abraço. Como as pessoas conseguem mentir tanto? Como descontinuar o absurdo que se infiltrou na pele dos dias?

O menino de 9 anos já se foi. Não sei quando vou reencontrá-lo. O menino de 9 anos se foi, mas deixou multidões de meninos de 9 anos que não querem ser amortecidos por esse presente doente.

O menino de nove anos deixa uma provocação presa no chão, uma rosa que rompe o asfalto: o presente é urgente, não se distraia. O presente é urgente.

Um convite para farejar a realidade como um cão

Ouço uma música tocar num carro, num volume bem alto. Dava para ouvir bem antes de ver qualquer carro no horizonte. “Ô novinha taradinha, / Danadinha, gostosinha / O Jajá fala pra tu / Eu quero é? / Eu quero é tu.” Enquanto essa música ainda está ecoando nos ouvidos, uma outra vai entrando pouco a pouco, como se estivesse caminhando ao meu encontro, ao vivo, vindo de um bar. Rodeado de cervejas e uma sinuca, um homem cantava, ao mesmo tempo tocando a melodia no violão: “Tá vendo aquele edifício moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto.”

Encontrei essas músicas se encontrando diante de mim hoje à tarde. Cenas como essa me deixam como um cão que anda, de um lado para outro, farejando tudo, tentando entender as histórias das pessoas, sentir os sons, conectar os pontos inconectáveis, colocando o nariz onde der para colocar. E essa metáfora de um cão farejando o presente é a mesma que Elias Canetti, um escritor búlgaro, naturalizado britânico, prêmio Nobel de Literatura em 1981, usa num discurso que proferiu em 1936, sobre o escritor austríaco Hermann Broch.

O que mais me chama atenção nesse discurso, bem mais do que a análise que Canetti faz de Broch, é a descrição dele sobre o que seria necessário para um poeta ter significado na sua época. Curiosamente, quase 40 anos depois, em 1974, Canetti ainda afirmou que aquelas três características continuavam sendo imprescindíveis para ele. Constatou, aliás, que se esforçava para satisfazer às exigências que ele mesmo tinha listado. Mesmo sendo uma análise do início do século passado, hoje publicada no livro A consciência das palavras, no texto Hermann Broch, sua atualidade é clara. E vale ressaltar que o autor usa a palavra “poeta” como um termo mais amplo, tal como “escritor” – sobre esse ponto, vale ler o texto O ofício do poeta, publicado no mesmo livro.

As características que ele exige do poeta são bastante relevantes não só para escritores e poetas, mas para qualquer pessoa que queira realmente revirar nossos tempos turbulentos pelo avesso.

Seguem as exigências de Canetti:

1. Prender-se ao próprio tempo com máxima firmeza

Como um cão, andar por aqui e acolá, incansável, “pronto para ser instigado, difícil para ser contido”, metendo o focinho úmido em tudo, com obstinação inquietante. “Peço desculpas pela imagem, que deverá lhes parecer extremamente desmerecedora do objeto tratado aqui”, desculpa-se Canetti ao fazer a metáfora do cão. Ao farejarmos o que está na nossa frente, viciados pelo encontro com as coisas, não só entramos em contato com o que nos rodeia, mas lapidamos nosso imaginário particular. “[Esse] vício impele o poeta a criar seu próprio mundo, o que ninguém mais em seu lugar conseguiria. Imediaticidade e inexauribilidade, essas duas características que desde sempre se soube exigir do gênio, e que este sempre possui, são as filhas desse vício”, comenta o escritor.

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“Cuidado com o cão” (Cave Canem)

Sem esse vício de meter o focinho na realidade, eu não teria escutado as músicas que cito no início do texto, que saltavam diante de mim. Sem esse vício, ontem não teria conversado com uma senhora que encontrei sentada numa praça perto de casa. Levei para essa senhora uma garrafinha de água e um salgado que comprei na padaria, e ela me respondeu, não, não quero, e eu disse, por favor, aceite, é um presente, e ela respondeu, ah, aceito, então anote no celular, e eu perguntei, anotar o quê?, e ela, anotar que você comprou essa comida, porque sempre que a gente compra comida tem que anotar em algum lugar que comprou comida.

Foi meu vício de me chocar com meu tempo que me fez observar essa senhora com atenção. E perceber que o coque no alto da sua cabeça parecia uma pedra cinza feita de cabelos velhos. Ainda que em nenhum itinerário comum uma conversa dessas esteja planejada, continuar conversando com ela me inundou de sentimentos e sensações inquietantes.

2. Vontade séria de compreender o tempo atual

O ímpeto de entender o que está ocorrendo no nosso tempo é a segunda característica essencial. Entender mais do que os fatos dos jornais, buscando principalmente a universalidade por trás deles. Broch, o escritor que Canetti analisa, defende que a missão da poesia é exatamente dar conta do universal que está ocupando cada segundo do nosso tempo. Haveria algo mais importante de compreender do que o universal que liga os pontos por trás das ações? A missão do poético é abarcar a totalidade. “[O poético] está acima de todo condicionamento empírico ou social, para o poético é indiferente se o homem vive numa época feudal, burguesa ou proletária – o dever da poesia para com o absoluto do conhecimento, pura e simplesmente”, comenta Broch no discurso “James Joyce e o presente”.

O poético não está só na poesia escrita, claro. Pode assumir mil formas, de palavras a sons, de movimentos a gestos.

3. Estar contra o seu tempo

Não adianta estar contra isto ou aquilo, mas sim contra a totalidade do nosso tempo. “A oposição deve soar alto e tomar forma – o poeta não pode, por exemplo, entorpecer-se ou resignar-se ao silêncio. (…) Deve desejar o sono, mas jamais se permitir alcançá-lo”, comenta Canetti.

“Esta é, sem dúvida, uma exigência radical e cruel; cruel, pois está em profunda contradição com aquela anterior (…) como vimos, o poeta está à mercê da sua época, é seu criado mais humilde, seu cão. E esse mesmo cão, que durante toda a sua vida corre atrás dos desejos de seu focinho, esse fruidor e vítima involuntária, ao mesmo tempo caçador e presa do prazer, essa mesma criatura, deve, num átimo, estar contra tudo, pôr-se contra si mesmo e contra seu vício, sem, contudo, poder jamais libertar-se dele, tendo de seguir em frente, revoltado, com plena consciência de seu próprio dilema”, completa Canetti.

Com essas três características (prender-se ao tempo atual, esforçar-se por compreender o que existe e estar contra o próprio tempo), o poeta conseguiria marcar sua época, suas criações seriam plenas de significado. Para Canetti, o poeta é um guardião de metamorfoses. É aquele capaz de se apropriar da herança literária da humanidade e de se transformar em qualquer um, de “manter abertas as vias de acesso entre os homens”.

“Só pela metamorfose (no sentido extremo em que essa palavra é usada aqui) seria possível sentir o que um homem é por trás de suas palavras”, afirma Canetti, ressaltando também que prefere usar a palavra metamorfose em vez de empatia ou qualquer outra nesse sentido.

O poeta abre espaço em si mesmo e treina, sem se cansar, o exercício de se tornar outros seres humanos.

O poeta é aquele que resiste aos “mensageiros do nada”, aos derrotistas que não acreditam em uma realidade diferente. “Eu disse que só pode ser poeta quem sente responsabilidade, embora ele talvez faça menos do que os outros para comprová-la em ações isoladas. Trata-se de uma responsabilidade para com a vida que se destrói, e não se deve ter vergonha de dizer que essa responsabilidade é alimentada pela compaixão”, reflete Canetti. Alguém que leia as palavras de Canetti talvez se assuste pela força com que ele fala sobre a responsabilidade do poeta. Esse alguém pode perguntar: e se o poeta não quiser ter responsabilidade nenhuma? É uma questão possível nesse contexto, mas vale ressaltar que aqui não estamos discutindo o conceito de poeta nem fazendo uma análise acadêmica sobre o fazer poético. Estamos apenas nos aproximando da descrição de um autor que se preocupava muito com as mazelas do seu tempo, para quem sabe aprendermos um pouco com ele.

Soltar-se dos grilhões do nosso tempo não é uma tarefa fácil. É árdua e demanda um esforço teimosamente constante. Quando Canetti fala sobre ser contra o próprio tempo, por exemplo, a princípio pode parecer exagerado, mas seu intuito é apenas deixar claro que a conivência diante da crueldade perpetrada a cada segundo sob nossos narizes é algo horrendo, e com isso não devemos compactuar – no geral, realidades muito cruéis recebem nosso consentimento em forma de silêncio.

Canetti deixa um convite. Um convite para farejar a realidade como um cão, não hesitar no esforço de compreendê-la nas entranhas e negá-la, sempre num processo de criação, entregando ao mundo a poesia que vai corroer nosso tempo e lançar novos chãos para os pés sem rumo. Um convite endereçado aos poetas, mas que vale para todo mundo.