
- Pare com essa frescura de falar que os personagens dos seus textos literários quase conversam com você. Literatura é prática, é sentar a bunda na cadeira e escrever. Esse papinho de que os personagens mandam na história é conversa fiada, inclusive diminui os méritos do escritor.
Escutei o comentário acima há poucos dias, de uma amiga que realmente gosto de ter por perto, porque ela sempre instiga questionamentos profundos com frases bem diretas. Resolvi escrever um texto inspirado na sua fala, para refletir sobre a relação entre eu e meus personagens. As palavras da fala acima não foram exatamente transcritas, mas tentei ser o mais fiel possível na reprodução do comentário. Minha amiga fez esse comentário porque me ouviu dizer que há alguns dias um personagem tem me acompanhado – e quase implorado para que eu escreva a sua história. Explico melhor a situação: lendo Macbeth, de Shakespeare, me deparei com a seguinte frase: “A vida é só uma sombra: um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido”. Desde então, nasceu dentro de mim um personagem tal qual o descrito por Shakespeare. Quando o personagem veio ao mundo no meu mundo de dentro, veio também o primeiro parágrafo da história:
“Ele acabou de ser demitido. Talvez uma frase menor seria mais objetiva: ele acabou. Seu emprego era sua morada, sua namorada. Sua namorada o demitiu. Ela não terminou o namoro, implícito está que o namoro acabou também. Implícito está que o amor não acabou agora, mas antes. Agora houve o aviso do fim do emprego e, nas entrelinhas, do fim do namoro. O amor acabou antes, o amor sempre acaba antes do fim, o fim é o pós-amor, é como se a queda viesse depois da dor da queda.”
O parágrafo acima ainda é um pouco confuso, mas está claro que esse personagem agora é vivo nas minhas entranhas. Ele tem nome, sexo, ex-namorada-chefa. Está em busca de emprego, e vai encontrá-lo, mais exatamente em um teatro-espelunca na periferia da cidade. Ele se debate na frase de Shakespeare tanto quanto se debate dentro da minha cabeça, querendo agir, sair por aí aos gritos – e seus gritos são tão altos quanto os nossos, aqueles que damos em silêncio.
Sim, literatura é prática. Sem a bunda na cadeira, não há conto, não há livro. Mas, ainda assim, acredito que os personagens se movimentem tanto nas palavras quanto de uma maneira mais viva, difícil de definir.
Minha curta experiência com literatura é suficiente para que eu tenha impressões para compartilhar. E a mais clara é a seguinte: até hoje convivo com alguns dos meus personagens, como o mendigo musicista, que se apresenta na praça com seu instrumento feito de cabos de ferro velho. Lembro claramente da dona de casa com uma doença em fase terminal, à espera do pássaro que frequenta o bebedouro da sua varanda diariamente. Me recordo também da criança precoce, nascida antes do dia marcado pelo médico – ela rasgou o útero da mãe com o pé, e desde então precisa alimentar a matriarca depositando comida na boca do seu estômago. Quando digo que esses personagens convivem comigo e às vezes até escrevem os textos depois divulgados por aí, quero dizer, na verdade, que eles são partes de mim deixadas em evidência no momento da escrita.
Eles são a prova da multidão dentro de mim – e em cada um de nós. Quando digo que um certo personagem não sai da minha cabeça, também quero dizer: “estou com vontade de explorar uma outra parte de mim”.
Os personagens não me habitam. Essa mistura de carne, sangue e pensamento – entre outras coisas desconhecidas – , que está agora digitando este texto, é que habita os personagens. Por uma série de circunstâncias, hoje ela habita o personagem André, construído com muita repetição ao longo de mais de duas décadas. Então, segue uma resposta à minha amiga: é, provavelmente continuarei dizendo coisas como: meus personagens são tão vivos quando o eu-André. Quando escrevo, habito outras potencialidades internas – e elas são tão fortes quanto o eu construído ao longo dos últimos anos. Falo com os personagens no mesmo nível, olho no olho, porque eu sou eles. Aliás, a maior ficção de todas, a que na maioria das vezes levamos a sério demais, é acreditarmos que somos apenas nós mesmos. Ao nos agarrarmos no eu da rotina, acabamos sendo mesquinhos demais com multiplicidade da vida.