Como mudar a educação na raiz

Screen Shot 2014-07-27 at 14.24.31* texto inicialmente publicado no Portal Aprendiz.

As pessoas saíam das lojas para olhar o acontecimento.

– Piriri, piriri, obá! Oi quem vem lá, obá!

A cantoria se espalhava pelos ouvidos de concreto.

– Piriri, piriri, obá!

Nas janelas dos carros, curiosos esticavam seus pescoços. O policial observava a marcha com atenção. O atendente da loja de sapatos saiu para a porta com a testa franzida em sinal de interrogação. Uma mulher chamou a atenção da amiga para juntas varrerem a cena com suas pestanas.

– Por onde passa, obá! Estremece a terra, obá!

Ainda que discreta, a marcha chamou atenção. Sem megafones, sem faixas, sem cartazes. Não havia black blocks. Não se tratava de uma manifestação comum. Não eram os “fraldas pintadas”, não era a esquerda, não era a direita. Quem compunha a marcha? Vinte e uma crianças de 5 e 6 anos e três educadores. Como reivindicação, pediam a cidade inteira. Pediam parques, praças, ruas. Pediam que a cidade recebesse as crianças com cuidado e carinho. Pediam que as pessoas olhassem nos olhos umas das outras. Pediam que ninguém se esquecesse de brincar. Pediam respiros. Pediam o retorno da poesia à presidência das imaginações. Pediam cor. Pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.

Sim, pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.

As crianças não gritavam frases políticas nem carregavam cartazes para requerer tais demandas. Seu ato berrava mais do que qualquer palavra ou faixa, demandava o sonho enquanto o realizava. Tratava-se de um ato de ocupação criativa da cidade, de brincação caminhativa. A marcha saiu da escola municipal de ensino infantil Gabriel Prestes com um destino final: uma biblioteca. No trajeto, andamos apenas algumas quadras, ritmados pela cantoria do “piriri, obá!”. Nesses poucos metros, sentimos a realidade se deslocar.

As pessoas ao redor haviam, de repente, quebrado suas resistências secas. Sorriam de boca aberta, escancarada de espanto positivo. As crianças riam em enxurradas, animadas, hiperpresentes. Como é raro encontramos grupos de crianças em ruas movimentadas, a marcha impressionou as pessoas. E as crianças saem pouco para as ruas por que é perigoso? Viver é perigoso, claro. Hoje em dia, as pessoas acreditam que tudo é perigoso e seguem, pouco a pouco, fugindo de tudo que as coloque em atrito com nossa cultura, que as joguem na aspereza da pele dos dias ou nas brechas lúdicas da cidade, e assim perdem o que há de mais pulsante e educativo na realidade. Quanto mais fogem do perigo, mais o alimentam. Quanto mais se iludem ao achar que escaparam, mais se sufocam. As crianças que marchavam pelas ruas do centro de São Paulo, acompanhadas por educadores, provavam que a resolução mais madura é destruir o perigo na raiz, ocupando sua casa – e ocupando-a criativamente.

No fim do dia, uma das professoras que estava na caminhança pelas ruas falou: “A cidade ouviu as vozes da infância e seus percursos!”. Outra educadora comentou: “Senti a mesma emoção quando levamos as crianças da minha escola, à pé, até o prédio do Banespa. As pessoas sorriam e viam as crianças na rua, me senti humanizando a cidade”. E eu pensava, no meu silêncio fervilhante: há algo muito errado na desconexão crônica do adulto com qualquer coisa que o cerca, um desconcerto que as crianças desmancham com um simples malabarismo de olhar. Numa conversa sobre essa experiência, cheguei a lançar uma provocação brincante: “Se fôssemos realmente radicais, colocaríamos as crianças para educar os adultos. O que temos a aprender com elas não é mais importante do que o que elas têm a aprender com a gente?”.

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Resistir e criar

Em uma cidade de cidadãos não praticantes e com altruísmo sedentário, como provocamos uma mudança na relação entre as pessoas? E as ruas, como torná-las apoteoses da mudança, lugares onde se deem mais e mais encontros potentes? “As ruas já não conduzem apenas, elas mesmas são lugares”, dizia o escritor John Brinckerhoff Jackson, um teórico que lidava com a temática das paisagens. Estimular que as crianças e jovens ocupem o território ao seu redor de maneira criativa, gerando contatos genuínos, é um ato educativo, político, de saúde e cuidado. É dizer para as novas gerações que suas presenças mudam o entorno. É apontar uma nova cultura, que demanda uma nova construção de aprendizagem, na qual a cidade como um todo é reconhecida como um organismo vivo de educação – várias expressões e projetos têm vindo à tona para tocar esse ponto crucial da mudança da nossa cultura pela percepção que a educação demanda um cuidado coletivo, como bairro-escola, cidade educadora, comunidade de aprendizagem e território educativo.

Já pensou se a aprendizagem informal que mora nas brechas das cidades for mais e mais descoberta? Quantas pessoas não aceitariam compartilhar suas histórias, ensinar o que sabem? Já imaginou se você passasse a se reconhecer como um educador das ruas? Podemos criar um novo imaginário sobre o que é educação, percebendo que a educação que transborda pela cidade é um símbolo diferente dos outros que se perpetuaram até agora. É uma raiz que vai mais fundo e encontra outras raízes – nessa linha profunda, educação é cuidado consigo mesmo, com o outro e o ambiente.

Sempre que analiso a urgência por mudanças na educação me lembro do olhar de Gandhi sobre as causas do seu tempo. Depois de se mudar para a África do Sul para trabalhar, ainda jovem, Gandhi sofreu bastante preconceito por ser indiano. Ao entrar nos trens sul-africanos, na primeira classe, exigiam que fosse transferido para a terceira classe, mas nunca consentia com esse tipo de situação. Ele sentia fortemente que não dava mais para aceitar que uma pessoa fosse menosprezada por sua cor ou nacionalidade. E esse sentimento de “não dá mais”, essa necessidade de não cooperar com uma situação ou mesmo resistir a ela, se repete quando Gandhi percebe que os indianos importavam sal da Inglaterra, sendo que era possível pegar sal diretamente na Índia. Sentindo que não dá mais para colaborar com esse tipo de situação, Gandhi estimula a não cooperação, a desobediência criativa, e leva à frente a Marcha do Sal, na qual milhares de pessoas seguiram até o litoral do Oceano Índico para buscar o sal direto na fonte. Essa urgência no olhar retorna quando Gandhi se depara com indianos pagando impostos absurdos. Não dá mais. Não dá mais.

E nessa linha de pensamento, o que “não dá mais” em relação à nossa educação deseducadora?

Não dá mais para acharmos normal um aluno passar doze anos na escola e mesmo assim não aprender nem a ler. Não dá mais para perguntarmos a jovens de 17 anos se eles têm um sonho e ouvir que a aspiração é repetir as carreiras que outros tantos hoje seguem, rumo a oceanos de infelicidade, sem que tenham refletido minimamente sobre quem são e como podem lapidar sua singularidade. Não dá mais para chegar em escolas, ficar impressionado com o número de professores de licença, muitos em depressão, e achar que um sistema que deixa a mente e o corpo das pessoas domado, mutilado e dolorido deve ser reaberto do mesmo jeitinho todos os dias. Não dá mais para acharmos que a violência é um caminho a ser seguido – e o que fazemos com as crianças, jovens e professores hoje é violência. Violentamos sonhos que nem chegam a ser sonhados. E cada vez mais acredito que só quando nos apropriarmos do ambiente ao nosso redor com ênfase, criatividade e generosidade é que deixaremos espaço para emergir uma abordagem de aprendizagem forte o suficiente para mudar a educação em larga escala.

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Recentemente uma amiga compartilhou no Facebook uma imagem com uma piada que ironiza nossas relações rachadas, dizia assim: “Fiquei sem internet por um dia e descobri que tem um pessoal aqui em casa, até sentei com eles na mesa, acho que é minha família”. E bem assim acontece com nosso entorno, imaginem a situação: “Um dia tropecei numa pedra na rua e descobri que tem um pessoal caminhando ao meu lado, até parei um deles para perguntar quem era, acho que também é um ser humano como eu”. Se não cultivarmos laços fortes com a cidade e as pessoas ao redor, aprendendo com elas, aceleraremos o processo de desumanização em curso. Viraremos máquinas, pedras, rinocerontes com sonhos natimortos. Na peça “O rinoceronte”, do franco-romeno Eugène Ionesco, há uma epidemia de “rinocerite” em uma cidade, que transforma quase todo mundo nesses grandes mamíferos de pele espessa, sem porosidade. Apenas um homem resiste – e, ainda bem, ele resiste até o final.

Resistir e criar: dois movimentos urgentes.

Para continuar essa reflexão tão necessária, sugiro que você organize um encontro na rua, com amigos e desconhecidos, para dialogar sobre as seguintes perguntas: Que propostas um educador pode colocar em prática para incluir a cidade como território a ser explorado? O que seria um educador das ruas? O que dá para aprendermos caminhando, observando, perdendo-se pela cidade? Se morar em São Paulo, participe do encontro que estou organizando, no dia 3 de agosto: http://cinese.me/encontros/deriva-sobre-educacao

Resistir e criar.

Piriri, piriri, obá!

* depois me conte como foi seu encontro: andre@educ-acao.com

André Gravatá é jornalista, mas pode ser definido como um “esticador de horizontes”, sempre atento às transformações ao seu redor. Com o coletivo Educ.Ação, escreveu “Volta ao Mundo em 13 Escolas”, que pode ser baixado e lido gratuitamente. Em maio de 2014, como integrante doMovimento Entusiasmo, organizou com artistas, escolas, educadores, ativistas e estudantes a Virada Educação, um evento de ocupação criativa do centro da cidade de São Paulo. Pode ser encontrado através do andre@educ-acao.com.

Carta aberta sobre ruínas e casarões

Caro policial que encontrei ontem,

escrevo esta carta para te convidar a refletir.

Ouvi você falando algo que me fez sentir repulsa. Enquanto falava, seus olhos mais pareciam dardos em movimento. Numa praça, você abordou um garoto sem camisa e mochila de lado, a alguns metros de mim. Você procurava apreender drogas, provavelmente. No meio da conversa com o jovem, vieram as seguintes palavras na sua boca: “Você é um lixo”.

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Você pronunciou essas palavras lentosamente. Sílaba por sílaba. Deu pra sentir, ah, sim, que você estava saboreando essas palavras. Você é capaz de pronunciar essa frase de novo com a ênfase que eu vi você dar em cada movimento na boca? Que gosto tem a palavra “lixo”? Que gosto tem a palavra “você”? Não sei o gosto que sentiu, mas sei o que senti. Há amargor maior?

É que ninguém tem o direito de chamar ninguém de lixo. Ninguém. O que é lixo? Lixo é uma coisa que a gente descarta (e com cuidado), ser humano não é nem uma coisa nem um descartável. Não tive coragem de dizer isso na sua frente pois seus olhos em forma de dardos também me intimidaram.

Reflita um pouco comigo, por favor. Recentemente, me aproximei de alguns dos seus colegas antes de uma manifestação e perguntei se podia ler um poema para eles. Mesmo reticentes, aceitaram. Era um poema do Carlos Drummond de Andrade, intitulado Mãos Dadas. O poema fala sobre o presente em que vivemos, sobre a importância de criarmos no presente o que queremos, sem lamentar, sem procurar a volta de um mundo caduco que já está para trás. E logo depois da leitura, um dos policiais disse que ele sente que as pessoas ao redor dele o veem como um bicho. E ele pronunciou a palavra bicho algumas vezes, desabafando que não é nada bom sentir que os outros pensam que você é um animal selvagem.

Lixo, bicho… De que valem todos esses rótulos? Eles te arruínam. E me arruínam também. Deixam ruínas.

O que fazemos com as ruínas? Abandonamos. O que os rótulos fazem ao transformar as pessoas em ruínas? Geram abandonamentos.

E como se dão os abandonamentos?

Quando já achamos que sabemos tudo sobre alguém, nosso olhar abandona as camadas dessa pessoa, como se não tivesse mais nada para descobrir (a primeira rotulação é a que fica?). Mas eu, você, enfim, as pessoas têm camadas, ô se tem. Sem relevo, as pessoas viram rasos, sem gosto, sem rosto, viram números, e assim perdemos o que pulsa nelas.

Essencialmente, as pessoas não são ruínas, mas sim casarões. Imagine um casarão com tantas portas dentro de portas dentro de portas dentro de portas que você não é capaz de contá-las. Assim são as pessoas em processo de descobrência. A ciência de descobrir uma pessoa — a descobrência — é uma arte. Demanda que a gente se abra também. Mas se a gente se trata como ruína, não conseguimos ver ninguém como casarão.

Abrir as portas dos outros não é fácil, deixa a gente vulnerável. Quanto mais entramos no outro, menos sabemos onde vamos chegar. Porém, é o ato de se perder que promove um encontro substancial.

Diante de tudo isso, estou te pedindo, com todas as minhas energias: não seja ruína, não seja ruína, não seja ruína.

Hoje passei a manhã no hospital, acompanhando minha mãe, pois ela está doente, e o médico nem olhou nos olhos dela, não deu aberturas para que exercitássemos a arte da descobrência — e ele mesmo não se esforçou para descobrir minha mãe. Enquanto ele a atendia, outro médico falava, também para todos ouvirem: “Só de raiva, vou liberar aquela paciente”. Sim… a falta de descobrência e o vício em ruínas não é um problema só seu, não é uma questão pessoal contigo nem com os policiais em especial, mas com todos que fazem questão de fechar as portas dos outros antes mesmo de abri-las. E, claro, mesmo na tentativa de aproximação, poucos abrem suas portas desde o início, por isso a descobrência demanda calmaria e porosidade.

A sua frase — “Você é um lixo” — ecoa na minha cabeça, pois não são apenas palavras pronunciadas por você. Há toda a nossa cultura e nosso tempo falando através da sua voz. Toda a história fala enquanto você diz: “Você é um lixo”.

Peço encarecidamente que você não mais pronuncie algo deste tipo. Dedique-se mais à descobrência, garanto que você vai se perceber (e sentir o mundo) de um jeito diferente.

Obs.: Na minha inquietação desabafadora, muitos esperariam que eu te xingasse de lixo também. Te xingar e sair correndo. Te xingar no Facebook, num arroubo infantil. Mas não seria capaz de fazer isso, não precisamos de mais ruínas num mundo em pedaços. Num mundo tão cheio de portas para abrirmos com cuidado.

Um menino de 9 anos me empurrou contra a parede

Preste atenção. O presente é urgente.

Preste atenção e veja uma mulher com uma bolsa Louis Vuitton — provavelmente falsa — e uns óculos descansando no topo da sua testa. Ela atende o celular, está perto de uma escola, no horário de saída dos alunos. “Sua puta, sua vadia, sua puta.” É o que ela diz para a outra pessoa na linha, alto o suficiente para ecoar no horizonte de cor de papel de pão amassado. Decido ficar perto da mulher para entender — ou continuar não entendendo — o que está acontecendo — ou desacontecendo. Ela está falando com a própria filha.

“Sua puta, sua puta, ou você aparece daqui a pouco ou vai se ver comigo…”

A mulher se aproxima de uma base de guardas civis. Começa a falar com os homens uniformizados, que a ouvem tão inertes quanto árvores sem seiva, não esboçam nenhuma contração no rosto. Um skatista se aproxima e a mulher o olha diretamente, com ódio respingando na pele e se elevando tipo uma agulha aguda. “Você se prevalece com tudo!”, diz a mulher ao skatista. “Fica ligueira”, responde o jovem, com aspereza nas gotas de voz que se espalham pelo ar, confetes cinzas. “Olha o chão que você pisa… Tô procurando emprego que nem uma louca. Meu pai é um tentente reformado. Tem que haver uma lei para mudar tudo isso. (ela para de olhar para o skatista e se dirige novamente aos guardas) Tava pondo culpa no coordenador da escola. Ele devia orientar minha filha, ela é menor infratora. E eu a amei. Ela é linda. E eu nunca vi esse skatista pilantra. Só os cegos não veem, tenho certeza que esse pivete sabe que eu sou mãe da Raquel, e ele tá aqui de olho em mim porque a Raquel mandou, essa minha filha, essa vadia. E eu peguei ela sim. Quase decepei o dedo. Com uma faca. Do jeito que eu quase tirei o dedo, eu arranco a cabeça fora.”

Preste atenção e se arrepie com a frase dessa mulher — eu me arrepiei prolongadamente, meu primeiro arrepio-gerúndio.

Preste atenção e veja que ao seu lado há um morador de rua com uma pedra enorme na mão. Ele bate a pedra em uma fechadura de porta. Está à procura do metal que está lá dentro. Vai vendê-lo. Três reais é o que vai receber por um kilo do tal metal. A partezinha que ele retira da fechadura corresponde a umas 50 gramas — ou menos. Atrás dele, anuncia um restaurante: “bruschettas por R$18″. Ele não tem a ponta de um dos dedos, perdida nos trabalhos de pedreiro, entre os tijolos da casa onde você mora hoje.

Preste atenção e vai ver que os atendentes no supermercado sempre perguntam: “Quer nota fiscal paulista?”. Você, cansado, sempre responde sim ou não, sem nem ligar para a interrogação. E um dia você não responde nem sim nem não. “Quero outra coisa.” “Senhor, quer o quê?” “Quero uma resposta. E esta é a pergunta: Qual é o seu sonho?” A atendente do supermercado fica parada, estranhada. Não sabe se responde ou passa as compras. Naquele exato instante, entra em erosão o marasmo que é cuidadosamente preservado para preencher todas as frestas humanas de uma angústia mole como visgo. Aquela pergunta tira o verniz de um momento pálido, dá cor aos pedaços de tempo ressecados e pendurados nos varais da realidade.

Preste atenção e você vai encontrar uma professora numa escola dizer: “Fique longe de mim se quiser ter sucesso. Trabalho há 14 anos no mesmo lugar e sou tratada como estreante todos os dias”. E você vai encontrar, num debate sobre educação, uma mulher limpando as salas, e essa mulher vai te dizer que não tem nada a dizer sobre o debate, porque só o que ela tem que fazer é limpar, é servir, é trabalhar para os outros.

Preste atenção, preste atenção. Se prestarmos mais atenção no que aconteceu e no que acontece, no que desaconteceu e no que desacontece, no que nem cabe num acontecimento nem ontem nem hoje, perceberemos que há um movimento taquicárdico e espasmódico em curso no lençol freático de nós mesmos. E nossa energia para criar uma realidade possível que se distancie do caos completo tem que ser maior e maior.

Tive um encontro que reforçou em mim a necessidade de mais atenção e mais energia na construção de um outro tipo de vida coletiva. Por circunstâncias que nem sei explicar, ontem me encontrei comigo mesmo. Encontrei o garoto que eu era, eu aos 9 anos. É que me deparei com anotações feitas em um caderno que eu chamava de diário. As páginas falam por elas mesmas. Abaixo, compartilho duas delas:

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A realidade que ardia em 13 de março de 2000.

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Redemoinho mental do dia 15 de março de 2000.

Essas e outras páginas me fizeram lembrar do extenso vazio da minha infância. De um vazio imposto por essa sociedade de relações fracas, desconexão generalizada e espetáculo permanente. Os assuntos principais dessas páginas do diário do garoto de 9 anos são a escola e a televisão. Falo exaustivamente dos programas que eu assistia e reassistia, numa ânsia infinita. O que me assusta é perceber que a sociedade me entregou uma vivência insossa e carente de significado para preencher as fantásticas lacunas do tempo.

Meu diário-mirim é um elogio ao vazio. Como a gente se esquece rápido do que vive, não é? Pouco mais de dez anos depois, encontro o garoto que fui e nem me lembro mais de como ele era. Suas palavras abrem meus olhos. Me empurram para um estado de atenção maior. Emergencial. A realidade construída pelos humanos está em estado de emergência, só não vê quem não quer, quem não tem coragem de abrir os olhos afogados em privilégios ou misérias.

Numa realidade em estado de emergência, mães chamam as filhas de putas e prometem arrancar suas cabeças, homens beijam o asfalto porque seus chefes deixam de pagar seus salários mesmo depois que os infelizes já até perderam parte dos dedos na lida diária. O menino de 9 anos está agora mesmo olhando para mim e dizendo: “Não percebe o que está desacontecendo?”.

O menino de 9 anos está agora mesmo me olhando com todos os poros. O menino de 9 anos acordou, me empurra contra a parede. O menino de 9 anos está repetindo o mesmo que disse ontem um morador de rua quando eu falei “desculpas” depois de negar dinheiro: “Desculpas é o caralho”. O menino de 9 anos está me olhando no fundo dos olhos e me perguntando: “Você realmente acha que já dá o melhor de si para o mundo? Acha que se dedica ao máximo para ousar novas realidades?”. O menino de 9 anos nem entende sua professora nem se esforça para isso. O menino de 9 anos aprendeu o desencanto e passou a rejeitar até quem aparece à sua frente para colaborar com ele — talvez sua professora seja uma pessoa legal, mas ele está com os olhos fechados para as pessoas legais que andam vestidas de mentiras.

O menino de 9 anos um dia anotou no seu diário: “Como as pessoas conseguem mentir tanto?”.

O menino de 9 anos não entende ainda como as coisas funcionam — ou desfuncionam.

O menino de 9 anos aponta o dedo para mim: “Por que você e seus amigos se contentam com mudanças tão fracas?”. O menino de 9 anos acredita que estou num caminho relevante, mas acha que exploro pouco os limites da minha ação. O menino de 9 anos me diz que o problema não é o mal, pois o mal faz parte do humano, mas sim a aceitação covarde que temos diante do absurdo encenado e reencenado a cada instante. O menino de 9 anos me chacoalha, quer que eu perceba minha imensa capacidade de enganar a mim mesmo. O menino de 9 anos para de olhar para mim, abaixa a cabeça. Perde-se nos próprios pensamentos de menino de 9 anos. Pensa no Pokemon, no Power Rangers, na Eliana e seus dedinhos. Pensa em fugir de casa, brincar com os amigos na rua, ir comprar pão, requeijão e mortadela na padaria do Seu Moisés. O menino de 9 anos quer se despedir de mim. Mas não sabe como. Nem eu sei como. Nem eu sei como nos encontramos e tivemos essa conversa que prosseguiu mais como um monólogo do que como um diálogo. O menino de 9 anos tem mais a dizer do que eu? Ele sabe mais do que eu? Ele sente mais do que eu? O menino de 9 anos vai ter aula amanhã e novamente vai odiar se sentar numa sala fechada com professores que lançam propostas que ele não consegue conectar com sua vida de menino de 9 anos.

O menino de 9 anos levanta a cabeça e olha de novo para mim, e esse olhar é suficiente para expressar o inexplicável. O olhar do menino de 9 anos é o realejo do insondável. É a caverna portátil do fim e do início. Do seu olhar, escorrem milhares de botões de melancolias e vitalidades. O menino de 9 anos vai embora com seu olhar, suas palavras e seu diário. O menino de 9 anos me olha com a ternura e o ódio de alguém que ama e abomina ao mesmo tempo. Me dá um voto de confiança. Me deixa com tornados mentais e um abraço. Como as pessoas conseguem mentir tanto? Como descontinuar o absurdo que se infiltrou na pele dos dias?

O menino de 9 anos já se foi. Não sei quando vou reencontrá-lo. O menino de 9 anos se foi, mas deixou multidões de meninos de 9 anos que não querem ser amortecidos por esse presente doente.

O menino de nove anos deixa uma provocação presa no chão, uma rosa que rompe o asfalto: o presente é urgente, não se distraia. O presente é urgente.

Um convite para farejar a realidade como um cão

Ouço uma música tocar num carro, num volume bem alto. Dava para ouvir bem antes de ver qualquer carro no horizonte. “Ô novinha taradinha, / Danadinha, gostosinha / O Jajá fala pra tu / Eu quero é? / Eu quero é tu.” Enquanto essa música ainda está ecoando nos ouvidos, uma outra vai entrando pouco a pouco, como se estivesse caminhando ao meu encontro, ao vivo, vindo de um bar. Rodeado de cervejas e uma sinuca, um homem cantava, ao mesmo tempo tocando a melodia no violão: “Tá vendo aquele edifício moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto.”

Encontrei essas músicas se encontrando diante de mim hoje à tarde. Cenas como essa me deixam como um cão que anda, de um lado para outro, farejando tudo, tentando entender as histórias das pessoas, sentir os sons, conectar os pontos inconectáveis, colocando o nariz onde der para colocar. E essa metáfora de um cão farejando o presente é a mesma que Elias Canetti, um escritor búlgaro, naturalizado britânico, prêmio Nobel de Literatura em 1981, usa num discurso que proferiu em 1936, sobre o escritor austríaco Hermann Broch.

O que mais me chama atenção nesse discurso, bem mais do que a análise que Canetti faz de Broch, é a descrição dele sobre o que seria necessário para um poeta ter significado na sua época. Curiosamente, quase 40 anos depois, em 1974, Canetti ainda afirmou que aquelas três características continuavam sendo imprescindíveis para ele. Constatou, aliás, que se esforçava para satisfazer às exigências que ele mesmo tinha listado. Mesmo sendo uma análise do início do século passado, hoje publicada no livro A consciência das palavras, no texto Hermann Broch, sua atualidade é clara. E vale ressaltar que o autor usa a palavra “poeta” como um termo mais amplo, tal como “escritor” – sobre esse ponto, vale ler o texto O ofício do poeta, publicado no mesmo livro.

As características que ele exige do poeta são bastante relevantes não só para escritores e poetas, mas para qualquer pessoa que queira realmente revirar nossos tempos turbulentos pelo avesso.

Seguem as exigências de Canetti:

1. Prender-se ao próprio tempo com máxima firmeza

Como um cão, andar por aqui e acolá, incansável, “pronto para ser instigado, difícil para ser contido”, metendo o focinho úmido em tudo, com obstinação inquietante. “Peço desculpas pela imagem, que deverá lhes parecer extremamente desmerecedora do objeto tratado aqui”, desculpa-se Canetti ao fazer a metáfora do cão. Ao farejarmos o que está na nossa frente, viciados pelo encontro com as coisas, não só entramos em contato com o que nos rodeia, mas lapidamos nosso imaginário particular. “[Esse] vício impele o poeta a criar seu próprio mundo, o que ninguém mais em seu lugar conseguiria. Imediaticidade e inexauribilidade, essas duas características que desde sempre se soube exigir do gênio, e que este sempre possui, são as filhas desse vício”, comenta o escritor.

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“Cuidado com o cão” (Cave Canem)

Sem esse vício de meter o focinho na realidade, eu não teria escutado as músicas que cito no início do texto, que saltavam diante de mim. Sem esse vício, ontem não teria conversado com uma senhora que encontrei sentada numa praça perto de casa. Levei para essa senhora uma garrafinha de água e um salgado que comprei na padaria, e ela me respondeu, não, não quero, e eu disse, por favor, aceite, é um presente, e ela respondeu, ah, aceito, então anote no celular, e eu perguntei, anotar o quê?, e ela, anotar que você comprou essa comida, porque sempre que a gente compra comida tem que anotar em algum lugar que comprou comida.

Foi meu vício de me chocar com meu tempo que me fez observar essa senhora com atenção. E perceber que o coque no alto da sua cabeça parecia uma pedra cinza feita de cabelos velhos. Ainda que em nenhum itinerário comum uma conversa dessas esteja planejada, continuar conversando com ela me inundou de sentimentos e sensações inquietantes.

2. Vontade séria de compreender o tempo atual

O ímpeto de entender o que está ocorrendo no nosso tempo é a segunda característica essencial. Entender mais do que os fatos dos jornais, buscando principalmente a universalidade por trás deles. Broch, o escritor que Canetti analisa, defende que a missão da poesia é exatamente dar conta do universal que está ocupando cada segundo do nosso tempo. Haveria algo mais importante de compreender do que o universal que liga os pontos por trás das ações? A missão do poético é abarcar a totalidade. “[O poético] está acima de todo condicionamento empírico ou social, para o poético é indiferente se o homem vive numa época feudal, burguesa ou proletária – o dever da poesia para com o absoluto do conhecimento, pura e simplesmente”, comenta Broch no discurso “James Joyce e o presente”.

O poético não está só na poesia escrita, claro. Pode assumir mil formas, de palavras a sons, de movimentos a gestos.

3. Estar contra o seu tempo

Não adianta estar contra isto ou aquilo, mas sim contra a totalidade do nosso tempo. “A oposição deve soar alto e tomar forma – o poeta não pode, por exemplo, entorpecer-se ou resignar-se ao silêncio. (…) Deve desejar o sono, mas jamais se permitir alcançá-lo”, comenta Canetti.

“Esta é, sem dúvida, uma exigência radical e cruel; cruel, pois está em profunda contradição com aquela anterior (…) como vimos, o poeta está à mercê da sua época, é seu criado mais humilde, seu cão. E esse mesmo cão, que durante toda a sua vida corre atrás dos desejos de seu focinho, esse fruidor e vítima involuntária, ao mesmo tempo caçador e presa do prazer, essa mesma criatura, deve, num átimo, estar contra tudo, pôr-se contra si mesmo e contra seu vício, sem, contudo, poder jamais libertar-se dele, tendo de seguir em frente, revoltado, com plena consciência de seu próprio dilema”, completa Canetti.

Com essas três características (prender-se ao tempo atual, esforçar-se por compreender o que existe e estar contra o próprio tempo), o poeta conseguiria marcar sua época, suas criações seriam plenas de significado. Para Canetti, o poeta é um guardião de metamorfoses. É aquele capaz de se apropriar da herança literária da humanidade e de se transformar em qualquer um, de “manter abertas as vias de acesso entre os homens”.

“Só pela metamorfose (no sentido extremo em que essa palavra é usada aqui) seria possível sentir o que um homem é por trás de suas palavras”, afirma Canetti, ressaltando também que prefere usar a palavra metamorfose em vez de empatia ou qualquer outra nesse sentido.

O poeta abre espaço em si mesmo e treina, sem se cansar, o exercício de se tornar outros seres humanos.

O poeta é aquele que resiste aos “mensageiros do nada”, aos derrotistas que não acreditam em uma realidade diferente. “Eu disse que só pode ser poeta quem sente responsabilidade, embora ele talvez faça menos do que os outros para comprová-la em ações isoladas. Trata-se de uma responsabilidade para com a vida que se destrói, e não se deve ter vergonha de dizer que essa responsabilidade é alimentada pela compaixão”, reflete Canetti. Alguém que leia as palavras de Canetti talvez se assuste pela força com que ele fala sobre a responsabilidade do poeta. Esse alguém pode perguntar: e se o poeta não quiser ter responsabilidade nenhuma? É uma questão possível nesse contexto, mas vale ressaltar que aqui não estamos discutindo o conceito de poeta nem fazendo uma análise acadêmica sobre o fazer poético. Estamos apenas nos aproximando da descrição de um autor que se preocupava muito com as mazelas do seu tempo, para quem sabe aprendermos um pouco com ele.

Soltar-se dos grilhões do nosso tempo não é uma tarefa fácil. É árdua e demanda um esforço teimosamente constante. Quando Canetti fala sobre ser contra o próprio tempo, por exemplo, a princípio pode parecer exagerado, mas seu intuito é apenas deixar claro que a conivência diante da crueldade perpetrada a cada segundo sob nossos narizes é algo horrendo, e com isso não devemos compactuar – no geral, realidades muito cruéis recebem nosso consentimento em forma de silêncio.

Canetti deixa um convite. Um convite para farejar a realidade como um cão, não hesitar no esforço de compreendê-la nas entranhas e negá-la, sempre num processo de criação, entregando ao mundo a poesia que vai corroer nosso tempo e lançar novos chãos para os pés sem rumo. Um convite endereçado aos poetas, mas que vale para todo mundo.

Como não morrer engasgado com o próprio umbigo

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Para que morarmos na superfície das coisas, sendo que as mudanças necessárias são profundas?

À noite, na Praça Roosevelt, em São Paulo. Encontro um garoto de 12 anos que me diz: “Larguei as drogas”. Um garoto de 12 anos que já foi viciado e já largou as drogas e já está em outra vida. 12 anos. Ele vê a escola como o antro do marasmo, um adjetivo resume tudo: “chata”. Ama a igreja e o funk ostentação. O pai é traficante, mora longe. Sua irmã? É uma garota “do mundo”. Aproxima-se um morador de rua que me conta: “Minha vida é frenética. Não adianta eu sair da rua, porque a rua não vai sair de mim”. Passando perto de uma manifestação do #NãoVaiTerCopa, falo com um policial militar e ele me confessa, pesaroso: “Todo mundo pensa que sou um bicho, estou cansado de pensarem que sou um bicho”. Encontro uma prostituta na Praça da Luz, perto da Estação da Luz. Ela, uma senhora, com uns 60 anos, um sorriso amarrotado no rosto. “Posso escrever um poema para a senhora?”, pergunto. Ela ri alto, me chama de “safadinho”, aceita que eu escreva o poema, e comenta que o que mais gosta é de viajar, que o mundo é o lugar onde a gente aprende, e dou um poema para ela. “Vou colocar esse presente em uma moldura”, afirma. Quanto ela cobra por programa? 30 reais. Passo numa rua que fica a algumas quadras de onde estou morando hoje em dia e encontro um cortiço que vai ser derrubado para dar lugar a uma padaria, que vai servir às mais de quinhentas famílias que estão chegando na região e vão morar nos prédios que estão sendo erguidos. Erguidos num espaço que antes também era ocupado por outros cortiços. Cortiços apinhados de pessoas que ganham pouco e que trabalham muito construindo prédios onde nunca poderiam morar. E as pessoas que vão morar nos novos prédios vão ter luxo, ah, vão. Não precisarão nem se levantar para apagar a luz. Vão fazer isso por meio do celular, usando um aplicativo que permite até abrir a porta de longe. E quando chegarem em casa, cansadas de um dia atribulado, vão poder descansar numa piscina rasinha, com uns dois palmos de água para esfriar os pés, ou mesmo nadando na piscina semi-olímpica. Falo com o vendedor de apartamentos de um dos prédios e ele me conta que mora em São Miguel Paulista, na periferia de SP. Me diz também que apartamentos de 19m2 vendem como água. Que já existem apartamentos de 6m2 na China ou Japão, não se lembra bem. Me mostra, no iPad, o apartamento decorado. O aplicativo possibilita que eu veja inclusive o chão dos cômodos. Vejo o lustre também, uma parafernália enorme, de “alto nível”. Ando um pouco mais nessa mesma rua e me arrepio por inteiro. Estou ao lado de um amigo. Olho para ele, ele olha para mim, não falamos uma palavra. À nossa frente, um prédio enorme e com aparência precária, gigante de imenso, com tantas janelas, uau, quantas janelas, e lixo sendo jogado por algumas delas. Ao lado, outro prédio imenso de gigante, inacabado, sem reboco, como se tivessem parado de construir de repente, como se os pedreiros tivessem sido demitidos de surpresa, saído correndo e esquecido metade das ferramentas e andaimes. Uns jovens nos chamam, oferecem drogas. Uma mulher com roupas curtas me olha como se me comesse com as pupilas fatigadas. Entro no supermercado, passam uns jovens ao meu lado. Eles não têm mais do que 12, 13 anos. “O que vão comprar?”, pergunta o cara no caixa. “Cigarros”, respondem. Noutra ocasião, saio de uma reunião em um shopping super requintado. Me sento na praça de alimentação com um prato de comida. À minha frente, um homem pede: “Posso me sentar aqui também?”. Ele se senta à minha frente, na mesma mesa, e passa todo o almoço sem falar nada. Eu passo o almoço sem falar nada. Um momento vazio de presente. Estamos na mesma mesa e não conversamos, como se estivéssemos apenas cumprindo mais uma burocracia da vida, como se não houvesse outro ser humano à nossa frente. Saio de uma outra reunião e resolvo ler um poema para uma pessoa na rua. Pergunto: “Moça, posso ler um poema para você?”. “Não, tô com pressa”. “Então vou ler mesmo assim, ok?”. Sigo ao lado dela, correndo um pouco e lendo um poema do Carlos Drummond de Andrade que anuncia: “O presente é tão grande, não nos afastemos”. Quando termino o poema, ela olha para trás e comenta: “Agora estou mais animada, obrigado”. Encontro um morador de rua sentado no chão. Ele me mostra algumas folhas: “Não consigo resolver nada da minha vida com esses papéis. Papel é coisa de gente estudada”. Visito uma escola, procuro a diretora. A porta dela está fechada, lá dentro uma mãe grita para a filha de 13 anos: “Não queria que você fosse minha filha, você não devia ter nascido. Nem adianta querer voltar para casa, não volte mais!”. A menina corre pela escola, se esconde. A mãe vai embora sem se preocupar com o paradeiro da garota. Antes de uma reunião numa ONG lá no centro de SP, para mostrar um projeto, uma frase se esgueira pelos corredores da instituição. Alguém lá dentro dizia: “Aquela anta não fez o café?”.

Todas essas situações são reais, foram vivenciadas nos últimos dias. Todas essas situações e muitas outras (muitas mesmo) que nem gostaria de compartilhar me viram pelo avesso a cada minuto. Basta abrirmos os olhos (de verdade) para percebermos o absurdo do mundo. E em nós. Sou sempre a pessoa que aponta o lado da abundância, acredito na mudança e estou rodeado por pessoas que têm se esforçado para agir no campo da afirmação de novas possibilidades, mas desta vez quero aprofundar um pouco de um lado obscuro que há em nós. Esse lado obscuro é a ilusão que vejo por aí e em mim, bem compartilhada, de que a mudança superficial das coisas é suficiente. E não estou dizendo que acreditamos nisso conscientemente, claro. Mas parece sim que passamos tempo demais na superfície e nos aproximamos pouco dos limites da nossa ação. Certos modos de nos acomodarmos ao mundo são muito sutis…

Adianta fazer um cafuné numa pessoa atropelada, que está sangrando na estrada, e achar que isso é suficiente? Nosso mundo foi atropelado. Atropelado por uma série de interesses que tem mais a ver com a morte do entusiasmo do que com a pulsação da vida.

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Como fazer com que cada instante em que estou vivo seja uma manifestação potente do que há de mais genuíno em mim?

Entre tantas situações que me reviram tanto, uma questão me pega cada vez mais: nossa ação no mundo ainda não é covarde demais? Não temos sido covardes para lidar com esse turbilhão caótico, despotencializador e ceifador de sonhos? Numa viagem para a Inglaterra, visitei uma faculdade com um curso que tinha a seguinte pergunta: até que ponto as inovações representam apenas falsos sinais de mudança, mantendo viva no coração do capitalismo a forma intrinsecamente destrutiva das corporações? Pergunto a mim mesmo e a você: até que ponto nós achamos que estamos inovando e na verdade estamos apenas sedimentando e fortalecendo mais ainda esse mundo de máscaras e imagens falsas e selvagens? Não podemos tentar ir mais fundo?

Mais fundo, mais fundo?

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O poeta Leminski já sabia que a profundidade das coisas está na cara, mas a gente desaprendeu a ver

No livro “Perto do Coração Selvagem”, Clarice Lispector diz: “Um dia virá em que todo meu movimento será criação, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer”. Hoje, meu maior esforço está direcionado para lapidar meus movimentos, para que eles sejam mais e mais criação e profundidade, para que eu caia menos em erros antigos, como lembrar do coletivo e esquecer de cuidar do meu microcosmo mais íntimo, não dando atenção para as pessoas que tanto me amam. Sinto que essa lapidação demanda essencialmente de uma coisa: atenção. Preciso seguir mais atento. Inundando-me com o que há de belo e feio, abrindo meus poros até que eles explodam como fogos de artifício e me provoquem movimentos que vão além do que acho que é o suficiente. Como diria Brecht, as derrotas de quem está se esforçando por um mundo diferente só provam que ainda há poucos que se esforçam por inteiros nesse caminho. Quanto mais sensíveis ao mundo que nos rodeia e ocupa cada centímetro da nossa pele, mais ativos estaremos nessa realidade que, sim, precisa de mais gente porosa.

Se as coisas estão do jeito que estão, não é só por causa dos outros, mas por causa de mim também, que faço vista grossa a tantos absurdos, que considero normal o abominável. Se há tantos problemas e violência, não somos também cúmplices de tudo isso? Ou percebemos que a responsabilidade pelo que está aí não é só de partidos, bandidos e loucos, mas sim de cada um de nós, ou vamos todos morrer engasgados com nosso próprio umbigo.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

andre@educ-acao.com

O que atinge bem mais fundo do que qualquer bala de borracha, pedra ou bomba de gás lacrimogêneo?

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Ontem uma foto chamou a minha atenção mais do que todas as outras que apareciam na timeline do Facebook. A imagem que me arrepiou mostrava a praça Taksim, na Turquia, com um piano rodeado de pessoas. O show público, espontâneo e improvisado aconteceu durante os protestos da última quarta-feira, pouco antes da meia-noite. De início, as pessoas se fundiram nos acordes da música Imagine, de John Lennon. As vozes da multidão ecoaram até a canção O sole mio, como contou o jornalista português Paulo Moura, que esteve presente na cena.

Instantes como esse provam que a importância das manifestações não se refere apenas à defesa de resultados a longo prazo. O resultado já está acontecendo, ele é a própria insatisfação se transformando em movimento, em impulso de criação de outros mundos possíveis, de outras cenas possíveis na urbanidade árida e concreta. O resultado é um processo que começa agora e não sabemos onde termina.

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Goya, 1814 / SP, 2013

O que esse momento pode trazer de mais pulsante é a conscientização sobre a relevância da ação individual e uma nova rede de conexões entre as pessoas.

Aliás, tudo muda quando percebemos a potência da nossa ação, quando entendemos que somos criadores de realidades com cada um dos nossos micro-comportamentos. Isso me lembra uma entrevista com o Criolo, em que o curador Hans Ulrich Obrist pergunta para ele qual é a sua obra maior, a tal obra-prima, daí o cantor responde que seu ato mais sublime foi o dia em que ele se percebeu.

Perceber a si mesmo demanda cair, de corpo inteiro, na zona de desconforto. Levar para fora o que está pulsando internamente, defrontar-se com o que sobra lá dentro depois que a insatisfação já ganhou o mundo em forma de grito.

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Sinto que, caso venha à tona, nos próximos atos brasileiros, uma abundância de momentos como aquele do piano na praça Taksim, conseguiremos dar a volta por cima em nós mesmos, amplificar o fôlego da construção da mudança e aumentar a profundidade da participação das pessoas. A arte catalisa a união.

Quando falo “arte”, não me refiro apenas ao piano na Turquia, mas a essa inquietação que vai além da lógica na superfície, recriando a atmosfera que está posta, driblando a própria bola.

Há quem esteja organizando uma quadrilha de festa junina para amanhã, ironizando a ideia da “formação de quadrilha” com bom humor.

Um evento que propõe às pessoas que coloquem um lençol branco na janela já conta com mais de 80 mil confirmados.

Um evento criado por mães (e pais) que querem participar do ato de amanhã, convencidas de que “não dá mais para só ficar rezando para os filhos voltarem vivos”, tem mais de 1.500 participantes.

Uma outra proposta convida as pessoas a irem de branco e protestarem em silêncio.

Há grupos que querem levar rosas.

Quanto mais faíscas criativas dentro do ato, mais as pessoas estarão se reinventando como cidadãos e seres humanos. Mais explícita será a sede por paz.

“A vida deve ser pensada, querida e desejada tal como um artista deseja e cria sua obra, ao empregar toda a sua energia para produzir um objeto único”, explica a professora Rosa Dias, no livro “Nietzsche, vida como obra de arte”.

O que atinge bem mais fundo do que qualquer bala de borracha, pedra ou bomba de gás lacrimogêneo é a arte. A arte de recriar o mundo dentro do mundo.

5 reflexões sobre a indignação em SP, educação e um novo vocabulário

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Os R$0,20 a mais nas passagens de ônibus são apenas a ponta do iceberg gigantesco que move a indignação em SP. Há um número significativo de pessoas que se fartaram devido à ineficiência pública, que esgotaram suas crenças na política tradicional.

Abaixo, cinco reflexões sobre o cenário que despertou a insatisfação coletiva. No final, aponto um elemento-chave nessa ebulição de ânimos – e, só para aumentar a curiosidade, já vou dizendo que esse elemento não é o vinagre.

1. A violência praticada pela polícia nos protestos é tão forte quanto a violência praticada pelo sistema público no dia a dia
As pessoas estão protestando devido a um acúmulo de insatisfação. Um dia, entrei num ônibus lotado, no qual um passageiro discutia com a cobradora. Num arroubo inesperado, a cobradora disse, remetendo-se a todos: “Vocês, passageiros, são um bando de cornos e bandidos”. Ela provavelmente disse isso porque estava cansada, porque ganha muito mal, porque anda com uma dor sem diagnóstico e não consegue vaga no SUS. Minha mãe, aliás, recentemente ouviu de uma enfermeira de um hospital público que ela estava com uma infecção urinária. A enfermeira entregou alguns exames e ordenou: “Volte daqui a um mês, daí você falará com o médico sobre isso”. No dia marcado, o cidadão de jaleco branco teve a audácia de dizer: “A senhora não tem nada. Aquele exame não é da senhora. Sabe o que é? Às vezes, os exames se misturam”. Como vocês acham que uma pessoa se sente depois de uma situação assim? Estou usando dois exemplos pessoais para reforçar o que já sabemos: a indignação em SP abrange muito mais do que a área de transportes.

2. As novas gerações vivem a política de um outro jeito
Os movimentos que vemos crescer hoje em dia apontam a uma nova maneira de ver o mundo, em que a falta de um único líder e uma única bandeira são sinais da descentralização de responsabilidades e valorização da diversidade – uma diversidade que abarca o risco, a incerteza, até por isso é possível encontrar tantos perfis de manifestantes, até por isso não dá para resumir um movimento complexo apenas com as histórias daqueles que exageram na dose e destroem patrimônios públicos. O mundo mudou. Mesmo. Mudou a maneira de nos relacionarmos entre si, de nos relacionarmos com as máquinas. Nasce uma maneira de ser e de sentir que ainda não conseguimos entender muito bem. Mais fluida, caleidoscópica, sinuosa. O filósofo Michel Serres vai longe nas suas reflexões, com um olhar um tanto quanto positivo sobre o futuro: “Temos agora apenas motoristas, apenas motricidade; não mais espectadores, o espaço do teatro se enche de atores, móveis; não mais juízes no tribunal, apenas oradores, ativos; não mais sacerdotes no santuário, o templo se enche de pregadores; não mais professores no quadro-negro, eles estão por toda a sala de aula… E, haveremos de dizer, não mais poderosos na arena política, que estará ocupada por quem recebia as decisões”.

3. Ir para as ruas já é parte da mudança
Desde pequenos, aprendemos a sair em busca do “resultado” de tudo, talvez porque na escola a gente era avaliado por provas e pontos e provas e outros poucos pontos. Às vezes nós esquecemos que os processos que vivenciamos são tão importantes quanto os resultados. É notável o fato de milhares de pessoas comparecerem nos últimos protestos e organizarem uma força-tarefa tão dedicada para compartilhar informações sobre os fatos. Isso já é parte da mudança em estado puro. Pessoas que nunca expressaram nenhum interesse político nas suas timelines do Facebook, hoje se desfiaram em comentários imensos sobre o disparate da violência policial exposta.

Na semana passada, estive em dois encontros realizados pelo Occupy, em Nova York. Num deles, a pauta era a construção de um banco alternativo. Em outro, o tema era hackear a educação. Em ambos os encontros, um ponto estava claro: o que restou de mais significativo do movimento em Wall Street foi a comunidade de conexões tecida durante as ocupações. Tais atos são apenas pontos que conectam longos processos. Protestos e ocupações são disparadores de uma profusão de conexões entre as pessoas, entre sinapses que nunca se encontraram.

4. A indignação presente nas entranhas dos protestos é um sentimento potente
“Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade descontrolada da raposa no galinheiro”, apontou o escritor e diplomata franco-alemão Stéphane Hessel, um dos autores da Declaração dos Direitos Humanos, no livro Indignai-vos, um manifesto sobre a confiança no ser humano.

5. Tudo deságua na educação
Por que demoramos tanto para transformar nossa indignação em ação? Por que demoramos tanto para sequer dar voz para a nossa indignação? Fomos educados, pela escola e pelo mundo, a nos adaptarmos à realidade, a seguir carreiras lineares, a substituirmos o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates por um claro e hostil “esqueça-te a ti mesmo e se torne um número na multidão”. Os policiais seriam tão violentos caso fossem melhor treinados? Os cidadãos seriam mais ativos no dia a dia, nem que fosse apenas para cobrar os políticos, caso exercitassem autonomia, criatividade, cidadania e conexão com o próprio território desde o primeiro dia na primeira série até o último ano do ensino médio? Esta semana, não só a notícia da violência policial me chocou. Uma outra, compartilhada com menos alarde, soou tão grave quanto, é uma outra forma de conjugação do verbo violentar: reduziram até 40% dos salários de professores de Juazeiro do Norte, no Ceará, e, de quebra, ainda aumentaram a carga horária de trabalho.

É crucial que tratemos a educação como primordial-vital-indispensável para que a mudança em curso atinja as raízes dos problemas. E vale lembrar que a palavra radical vem do latim radicalis, de “raiz”. Ser radical nos nossos tempos é transformarmos parte da indignação num movimento em busca de mais qualidade na educação.

Para terminar, gostaria de compartilhar com vocês um vocabulário com neologismos que inventei para uma história de ficção, cujo ato central é uma ocupação na Avenida Paulista. No texto, os personagens se dão conta que um novo mundo demanda um léxico subvertido. Compartilho estes termos para inspirar ainda mais criatividade nos dias que virão:

horizontar
verbo algodoeiro
1. ato de expandir os próprios horizontes.
ex. eu horizonto, nós horizontamos.

despesadelar
substantivo onírico
1. engajar-se por mudanças na realidade. 2. desfigurar pesadelos concretos.

crespidão
substantivo crescente
1. momento em que duas pessoas se encaram, olho no olho.

hictopia
substantivo do futuro do presente
1. aqui é o lugar. 2. a revolução é local.

nunctopia
substantivo topográfico-temporal
1. agora é o lugar (nota: existem duas formas principais de conceber o agora: 1. desvario ilimitado desconectado de qualquer causa, desumanizamento e 2. percepção ativa da trama (do trauma (da traça (do traço (do vasto (do mundo)))))).

juntosamento
substantivo ativo
1. gestão coletiva minuciosamente compartilhada. 2. grupo sem líder, sem hierarquia.

ocupologia
substantivo aquoso
1. estudos – e práticas – das diferentes formas de ocupar espaços e tempos. 2. ciência ativa do ato de ocupar.

mundê
substantivo lacerativo
1. ferramenta usada para despregar os parafusos da máquina do mundo. 2. caás, caés, caís, caós, caús. 3. manifestação disruptiva.

atinhonho
adjetivo trepidante
1. sonho pragmático. 2. ação nascida nas nuvens em suspensão nas mentes das pessoas.

grex
substantivo composto
1. grupo de pessoas comprometidas com uma causa e cientes da sua incompletude como seres humanos. 2. coletivo de indivíduos engajados.

radicá
verstantivo
1. buscar a raiz do radical. 2. radiculeiro.

horizontofágico
verstantivo ocular
1. que ou aquele que caleidoscopa sua identidade.

coletivar
verbo plural
1. transformar o individual em coletivo. * verbo apenas conjugado na terceira pessoa do plural.