O coração caiu na mesa. Ele tossiu o próprio coração. Os amigos não acreditaram que isso era possível. O garçom veio com um pano de prato, queria ajudá-lo. Chamaram a ambulância, a polícia, a televisão. A repórter marcou uma entrevista, mas não conseguiu fazer nenhuma pergunta, estava perdida. Nem adiantaria fazer, ele não queria responder. Hospital. Foi para onde o levaram. Queriam colocar o coração de volta para dentro do corpo. Ele dizia que não, estava bem. Sempre quis deixar seu coração para fora, no mundo, nunca teve medo das metáforas vivas.

(dedicado a Regina Datti e Bob Pascoal)

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Na Superinteressante de junho (capa acima), há uma matéria minha sobre os brasileiros que estão transformando o mundo da tecnologia. Vejam a abertura:

“Kinect. Android. Grooveshark. Instagram. As maiores novidades da tecnologia têm uma coisa em comum: foram inventadas ou são comandadas por brasileiros. Veja como conquistamos o Vale do Silício – e as histórias das pessoas que fizeram isso acontecer.”

Logo que a matéria estiver disponível online, divulgarei o link no blog.

Quando você anda pelas ruas – ou até dentro da sua casa – , presta atenção nas paredes? E no chão? Nas cores? Texturas?

No último fim de semana, participei de uma oficina de fotografia contemplativa com Andy Karr, coautor do livro The practice of contemplative photography [A prática da fotografia contemplativa]. “A fotografia convencional enfatiza o tema e a técnica. A fotografia contemplativa enfatiza o trabalho com o olho, a mente e o coração para encontrar o extraordinário no ordinário. Isso não é uma invenção nova. Henri Cartier-Bresson escreveu: ‘Fotografar significa […] colocar mente, olho e coração sobre o mesmo eixo’”, diz Karr no texto Ver com clareza. 

O fundamental na fotografia contemplativa é o olhar curioso, atento e presente, espantado com a realidade.

Para saber mais, clique aqui.

Abaixo, compartilho algumas das fotos que tirei durante o curso (veja outras no Flickr):

- Pare com essa frescura de falar que os personagens dos seus textos literários quase conversam com você. Literatura é prática, é sentar a bunda na cadeira e escrever. Esse papinho de que os personagens mandam na história é conversa fiada, inclusive diminui os méritos do escritor.

Escutei o comentário acima há poucos dias, de uma amiga que realmente gosto de ter por perto, porque ela sempre instiga questionamentos profundos com frases bem diretas. Resolvi escrever um texto inspirado na sua fala, para refletir sobre a relação entre eu e meus personagens. As palavras da fala acima não foram exatamente transcritas, mas tentei ser o mais fiel possível na reprodução do comentário. Minha amiga fez esse comentário porque me ouviu dizer que há alguns dias um personagem tem me acompanhado – e quase implorado para que eu escreva a sua história. Explico melhor a situação: lendo Macbeth, de Shakespeare, me deparei com a seguinte frase: “A vida é só uma sombra: um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido”. Desde então, nasceu dentro de mim um personagem tal qual o descrito por Shakespeare. Quando o personagem veio ao mundo no meu mundo de dentro, veio também o primeiro parágrafo da história:

“Ele acabou de ser demitido. Talvez uma frase menor seria mais objetiva: ele acabou. Seu emprego era sua morada, sua namorada. Sua namorada o demitiu. Ela não terminou o namoro, implícito está que o namoro acabou também. Implícito está que o amor não acabou agora, mas antes. Agora houve o aviso do fim do emprego e, nas entrelinhas, do fim do namoro. O amor acabou antes, o amor sempre acaba antes do fim, o fim é o pós-amor, é como se a queda viesse depois da dor da queda.”

O parágrafo acima ainda é um pouco confuso, mas está claro que esse personagem agora é vivo nas minhas entranhas. Ele tem nome, sexo, ex-namorada-chefa. Está em busca de emprego, e vai encontrá-lo, mais exatamente em um teatro-espelunca na periferia da cidade. Ele se debate na frase de Shakespeare tanto quanto se debate dentro da minha cabeça, querendo agir, sair por aí aos gritos – e seus gritos são tão altos quanto os nossos, aqueles que damos em silêncio.

Sim, literatura é prática. Sem a bunda na cadeira, não há conto, não há livro. Mas, ainda assim, acredito que os personagens se movimentem tanto nas palavras quanto de uma maneira mais viva, difícil de definir.

Minha curta experiência com literatura é suficiente para que eu tenha impressões para compartilhar. E a mais clara é a seguinte: até hoje convivo com alguns dos meus personagens, como o mendigo musicista, que se apresenta na praça com seu instrumento feito de cabos de ferro velho. Lembro claramente da dona de casa com uma doença em fase terminal, à espera do pássaro que frequenta o bebedouro da sua varanda diariamente. Me recordo também da criança precoce, nascida antes do dia marcado pelo médico – ela rasgou o útero da mãe com o pé, e desde então precisa alimentar a matriarca depositando comida na boca do seu estômago. Quando digo que esses personagens convivem comigo e às vezes até escrevem os textos depois divulgados por aí, quero dizer, na verdade, que eles são partes de mim deixadas em evidência no momento da escrita.

Eles são a prova da multidão dentro de mim – e em cada um de nós. Quando digo que um certo personagem não sai da minha cabeça, também quero dizer: “estou com vontade de explorar uma outra parte de mim”.

Os personagens não me habitam. Essa mistura de carne, sangue e pensamento – entre outras coisas desconhecidas – , que está agora digitando este texto, é que habita os personagens. Por uma série de circunstâncias, hoje ela habita o personagem André, construído com muita repetição ao longo de mais de duas décadas. Então, segue uma resposta à minha amiga: é, provavelmente continuarei dizendo coisas como: meus personagens são tão vivos quando o eu-André. Quando escrevo, habito outras potencialidades internas – e elas são tão fortes quanto o eu construído ao longo dos últimos anos. Falo com os personagens no mesmo nível, olho no olho, porque eu sou eles. Aliás, a maior ficção de todas, a que na maioria das vezes levamos a sério demais, é acreditarmos que somos apenas nós mesmos. Ao nos agarrarmos no eu da rotina, acabamos sendo mesquinhos demais com multiplicidade da vida.


- Quanto tempo você leva para fazer este barco de madeira?
- Três dias.
- Dá muito trabalho?
- Sim.
Esse diálogo aconteceu no mercado Souq Waqif (veja foto acima), em Doha. Foi a conversa que tive com um garoto de uns vinte anos, que estava sentado no chão de uma loja com artesanatos típicos da região. Ele carregava uma ferramenta de esculpir, e havia um grande pedaço de madeira ao seu lado, rodeado por serragem. O barulho da peça sendo esculpida falava mais do que as palavras. A madeira se transformava numa pequena embarcação. Tek, tek, tek, tek. A cada movimento, parecia brotar uma enxurrada de paciência, como se para aquele jovem o tempo caminhasse de outra forma. Dá muito trabalho? Sim. Quantos ritmos de tempo existem no mundo? Tantos quanto o número de pessoas que existem?


Os humanos têm a capacidade de moldar suas personalidades em diferentes formas, de acordo com a música que toca, a partir dos pares que aparecem. Já na fila do aeroporto, observei pessoas de outros países que pareciam tão diferentes de mim a ponto de eu me reconhecer nelas, de me reconhecer na multiplicidade distribuída pelo mundo, que é o mundo, é o mim. Uma multiplicidade concreta: dá quase para pegar com a mão isso que em nós se repete no outro.
.
A cebola ficou sem a camada de fora. Sair do país de origem é isso. É deslocamento, corte, risco na camada que nos cobre. Todo deslocamento implica uma nova visão, um parto interno, é espaço que nasce para dentro. Que incrível seria se todos pudéssemos nos deslocar de nós mesmos de maneira intensa e rotineira, para alargarmos nossos horizontes até eles se transformarem em infinitos. Podemos?
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Perto, vejo um homem de turbante vermelho na cabeça, querendo passar. Outras três pessoas esperam, em frente à porta do banheiro. Outra, com um fone de ouvido e os olhos vidrados na tela à sua frente, grudada nas costas de um banco, assiste a um programa sobre esportes aquáticos. Todas essas pessoas estão no ar. Dentro de um avião. Me arrepio. Me arrepio constantemente com as situações que se desdobram ao meu redor. Há uma sucessão inexplicável de momentos que escapam tanto quanto a água de uma torneira escorre pelas mãos. Aliás, no dia a dia, o que escorre pelas mãos são as nossas próprias mãos.

Hi, everyone! I’m grateful to TED for the opportunity to talk with very inspiring people. My name is André Gravatá and I’m a Brazilian. I was born in a low income area of the city of São Paulo. I come from a hardworking family. After much effort and luck I could go to college and I was able to come across TED. Then I volunteered in the organization of some editions of TEDx. It was there that the following question crossed my mind: why not organize a TEDx? Said and done. The TEDxYouth@Ibira theme was micro-revolutions. More than twenty speakers have been developing local projects that are changing their communities. We use the term micro-revolutions to designate actions that are transforming the lives of groups of people. By the way, TEDxYouth@Ibira was a micro-revolution too. The first edition, which was held last year, started with an e-mail that I sent to some friends. The event ended up with a team of fifteen people who have committed their time with so much enthusiasm.

I have three minutes to talk about two characteristics of a micro-revolution, based on the experience I’m having with TEDxYouth@Ibira and my life story. A micro-revolution happens in two phases simultaneously. Phase one: something happens inside of you. Phase two: something happens around you.

In other words, a micro-revolution is only genuine if it happens inside and outside of us. My life has been an intense journey of questioning. Questioning helps me to build the capacity to deal with my own self. You can only inspire a community when you actually learn to cope better with yourself and leave the comfort zone to reinvent your own life.

We should pay attention to ourselves and to the other people. The second phase of a micro-revolution is the people. Tell everyone what you are involved with. Don’t be afraid to share your journey with others. Keep in touch with everyone. An example, TEDxYouth@Ibira had lost all its sponsorship. The reason was: the company that supported the project started to face complex internal issues. If it weren’t for the amazing people on my side who spent endless nights searching for new sponsorships, we would not have been able to organize the event. You can not change the world alone, so strive to find traveling companions.

In short, whether it’s time to organize a TEDx or time to start a new project, I suggest you to feel your inside and outside phases. Talk to yourself and to others. This will certainly make the process flow much better. Study your own self and the world around you at the same time. I’m not giving you a recipe to better organize a TEDx within TEDx. It’s a strategy to take into account the two mentioned phases. When problems arise, remember the Brazilian writer Guimarães Rosa: “Life is such: warms and cools, tightens and then relaxes, calms down and then gets excited. All life wants from us is courage”. Thank you.

(Este post é a base da apresentação de três minutos que preparei para uma das atividades do TEDxSummit, na qual terei a oportunidade de compartilhar a minha experiência na organização do TEDxJovem@Ibira.)

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