5 reflexões sobre a indignação em SP, educação e um novo vocabulário

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Os R$0,20 a mais nas passagens de ônibus são apenas a ponta do iceberg gigantesco que move a indignação em SP. Há um número significativo de pessoas que se fartaram devido à ineficiência pública, que esgotaram suas crenças na política tradicional.

Abaixo, cinco reflexões sobre o cenário que despertou a insatisfação coletiva. No final, aponto um elemento-chave nessa ebulição de ânimos – e, só para aumentar a curiosidade, já vou dizendo que esse elemento não é o vinagre.

1. A violência praticada pela polícia nos protestos é tão forte quanto a violência praticada pelo sistema público no dia a dia
As pessoas estão protestando devido a um acúmulo de insatisfação. Um dia, entrei num ônibus lotado, no qual um passageiro discutia com a cobradora. Num arroubo inesperado, a cobradora disse, remetendo-se a todos: “Vocês, passageiros, são um bando de cornos e bandidos”. Ela provavelmente disse isso porque estava cansada, porque ganha muito mal, porque anda com uma dor sem diagnóstico e não consegue vaga no SUS. Minha mãe, aliás, recentemente ouviu de uma enfermeira de um hospital público que ela estava com uma infecção urinária. A enfermeira entregou alguns exames e ordenou: “Volte daqui a um mês, daí você falará com o médico sobre isso”. No dia marcado, o cidadão de jaleco branco teve a audácia de dizer: “A senhora não tem nada. Aquele exame não é da senhora. Sabe o que é? Às vezes, os exames se misturam”. Como vocês acham que uma pessoa se sente depois de uma situação assim? Estou usando dois exemplos pessoais para reforçar o que já sabemos: a indignação em SP abrange muito mais do que a área de transportes.

2. As novas gerações vivem a política de um outro jeito
Os movimentos que vemos crescer hoje em dia apontam a uma nova maneira de ver o mundo, em que a falta de um único líder e uma única bandeira são sinais da descentralização de responsabilidades e valorização da diversidade – uma diversidade que abarca o risco, a incerteza, até por isso é possível encontrar tantos perfis de manifestantes, até por isso não dá para resumir um movimento complexo apenas com as histórias daqueles que exageram na dose e destroem patrimônios públicos. O mundo mudou. Mesmo. Mudou a maneira de nos relacionarmos entre si, de nos relacionarmos com as máquinas. Nasce uma maneira de ser e de sentir que ainda não conseguimos entender muito bem. Mais fluida, caleidoscópica, sinuosa. O filósofo Michel Serres vai longe nas suas reflexões, com um olhar um tanto quanto positivo sobre o futuro: “Temos agora apenas motoristas, apenas motricidade; não mais espectadores, o espaço do teatro se enche de atores, móveis; não mais juízes no tribunal, apenas oradores, ativos; não mais sacerdotes no santuário, o templo se enche de pregadores; não mais professores no quadro-negro, eles estão por toda a sala de aula… E, haveremos de dizer, não mais poderosos na arena política, que estará ocupada por quem recebia as decisões”.

3. Ir para as ruas já é parte da mudança
Desde pequenos, aprendemos a sair em busca do “resultado” de tudo, talvez porque na escola a gente era avaliado por provas e pontos e provas e outros poucos pontos. Às vezes nós esquecemos que os processos que vivenciamos são tão importantes quanto os resultados. É notável o fato de milhares de pessoas comparecerem nos últimos protestos e organizarem uma força-tarefa tão dedicada para compartilhar informações sobre os fatos. Isso já é parte da mudança em estado puro. Pessoas que nunca expressaram nenhum interesse político nas suas timelines do Facebook, hoje se desfiaram em comentários imensos sobre o disparate da violência policial exposta.

Na semana passada, estive em dois encontros realizados pelo Occupy, em Nova York. Num deles, a pauta era a construção de um banco alternativo. Em outro, o tema era hackear a educação. Em ambos os encontros, um ponto estava claro: o que restou de mais significativo do movimento em Wall Street foi a comunidade de conexões tecida durante as ocupações. Tais atos são apenas pontos que conectam longos processos. Protestos e ocupações são disparadores de uma profusão de conexões entre as pessoas, entre sinapses que nunca se encontraram.

4. A indignação presente nas entranhas dos protestos é um sentimento potente
“Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade descontrolada da raposa no galinheiro”, apontou o escritor e diplomata franco-alemão Stéphane Hessel, um dos autores da Declaração dos Direitos Humanos, no livro Indignai-vos, um manifesto sobre a confiança no ser humano.

5. Tudo deságua na educação
Por que demoramos tanto para transformar nossa indignação em ação? Por que demoramos tanto para sequer dar voz para a nossa indignação? Fomos educados, pela escola e pelo mundo, a nos adaptarmos à realidade, a seguir carreiras lineares, a substituirmos o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates por um claro e hostil “esqueça-te a ti mesmo e se torne um número na multidão”. Os policiais seriam tão violentos caso fossem melhor treinados? Os cidadãos seriam mais ativos no dia a dia, nem que fosse apenas para cobrar os políticos, caso exercitassem autonomia, criatividade, cidadania e conexão com o próprio território desde o primeiro dia na primeira série até o último ano do ensino médio? Esta semana, não só a notícia da violência policial me chocou. Uma outra, compartilhada com menos alarde, soou tão grave quanto, é uma outra forma de conjugação do verbo violentar: reduziram até 40% dos salários de professores de Juazeiro do Norte, no Ceará, e, de quebra, ainda aumentaram a carga horária de trabalho.

É crucial que tratemos a educação como primordial-vital-indispensável para que a mudança em curso atinja as raízes dos problemas. E vale lembrar que a palavra radical vem do latim radicalis, de “raiz”. Ser radical nos nossos tempos é transformarmos parte da indignação num movimento em busca de mais qualidade na educação.

Para terminar, gostaria de compartilhar com vocês um vocabulário com neologismos que inventei para uma história de ficção, cujo ato central é uma ocupação na Avenida Paulista. No texto, os personagens se dão conta que um novo mundo demanda um léxico subvertido. Compartilho estes termos para inspirar ainda mais criatividade nos dias que virão:

horizontar
verbo algodoeiro
1. ato de expandir os próprios horizontes.
ex. eu horizonto, nós horizontamos.

despesadelar
substantivo onírico
1. engajar-se por mudanças na realidade. 2. desfigurar pesadelos concretos.

crespidão
substantivo crescente
1. momento em que duas pessoas se encaram, olho no olho.

hictopia
substantivo do futuro do presente
1. aqui é o lugar. 2. a revolução é local.

nunctopia
substantivo topográfico-temporal
1. agora é o lugar (nota: existem duas formas principais de conceber o agora: 1. desvario ilimitado desconectado de qualquer causa, desumanizamento e 2. percepção ativa da trama (do trauma (da traça (do traço (do vasto (do mundo)))))).

juntosamento
substantivo ativo
1. gestão coletiva minuciosamente compartilhada. 2. grupo sem líder, sem hierarquia.

ocupologia
substantivo aquoso
1. estudos – e práticas – das diferentes formas de ocupar espaços e tempos. 2. ciência ativa do ato de ocupar.

mundê
substantivo lacerativo
1. ferramenta usada para despregar os parafusos da máquina do mundo. 2. caás, caés, caís, caós, caús. 3. manifestação disruptiva.

atinhonho
adjetivo trepidante
1. sonho pragmático. 2. ação nascida nas nuvens em suspensão nas mentes das pessoas.

grex
substantivo composto
1. grupo de pessoas comprometidas com uma causa e cientes da sua incompletude como seres humanos. 2. coletivo de indivíduos engajados.

radicá
verstantivo
1. buscar a raiz do radical. 2. radiculeiro.

horizontofágico
verstantivo ocular
1. que ou aquele que caleidoscopa sua identidade.

coletivar
verbo plural
1. transformar o individual em coletivo. * verbo apenas conjugado na terceira pessoa do plural.

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