Um menino de 9 anos me empurrou contra a parede

Preste atenção. O presente é urgente.

Preste atenção e veja uma mulher com uma bolsa Louis Vuitton — provavelmente falsa — e uns óculos descansando no topo da sua testa. Ela atende o celular, está perto de uma escola, no horário de saída dos alunos. “Sua puta, sua vadia, sua puta.” É o que ela diz para a outra pessoa na linha, alto o suficiente para ecoar no horizonte de cor de papel de pão amassado. Decido ficar perto da mulher para entender — ou continuar não entendendo — o que está acontecendo — ou desacontecendo. Ela está falando com a própria filha.

“Sua puta, sua puta, ou você aparece daqui a pouco ou vai se ver comigo…”

A mulher se aproxima de uma base de guardas civis. Começa a falar com os homens uniformizados, que a ouvem tão inertes quanto árvores sem seiva, não esboçam nenhuma contração no rosto. Um skatista se aproxima e a mulher o olha diretamente, com ódio respingando na pele e se elevando tipo uma agulha aguda. “Você se prevalece com tudo!”, diz a mulher ao skatista. “Fica ligueira”, responde o jovem, com aspereza nas gotas de voz que se espalham pelo ar, confetes cinzas. “Olha o chão que você pisa… Tô procurando emprego que nem uma louca. Meu pai é um tentente reformado. Tem que haver uma lei para mudar tudo isso. (ela para de olhar para o skatista e se dirige novamente aos guardas) Tava pondo culpa no coordenador da escola. Ele devia orientar minha filha, ela é menor infratora. E eu a amei. Ela é linda. E eu nunca vi esse skatista pilantra. Só os cegos não veem, tenho certeza que esse pivete sabe que eu sou mãe da Raquel, e ele tá aqui de olho em mim porque a Raquel mandou, essa minha filha, essa vadia. E eu peguei ela sim. Quase decepei o dedo. Com uma faca. Do jeito que eu quase tirei o dedo, eu arranco a cabeça fora.”

Preste atenção e se arrepie com a frase dessa mulher — eu me arrepiei prolongadamente, meu primeiro arrepio-gerúndio.

Preste atenção e veja que ao seu lado há um morador de rua com uma pedra enorme na mão. Ele bate a pedra em uma fechadura de porta. Está à procura do metal que está lá dentro. Vai vendê-lo. Três reais é o que vai receber por um kilo do tal metal. A partezinha que ele retira da fechadura corresponde a umas 50 gramas — ou menos. Atrás dele, anuncia um restaurante: “bruschettas por R$18”. Ele não tem a ponta de um dos dedos, perdida nos trabalhos de pedreiro, entre os tijolos da casa onde você mora hoje.

Preste atenção e vai ver que os atendentes no supermercado sempre perguntam: “Quer nota fiscal paulista?”. Você, cansado, sempre responde sim ou não, sem nem ligar para a interrogação. E um dia você não responde nem sim nem não. “Quero outra coisa.” “Senhor, quer o quê?” “Quero uma resposta. E esta é a pergunta: Qual é o seu sonho?” A atendente do supermercado fica parada, estranhada. Não sabe se responde ou passa as compras. Naquele exato instante, entra em erosão o marasmo que é cuidadosamente preservado para preencher todas as frestas humanas de uma angústia mole como visgo. Aquela pergunta tira o verniz de um momento pálido, dá cor aos pedaços de tempo ressecados e pendurados nos varais da realidade.

Preste atenção e você vai encontrar uma professora numa escola dizer: “Fique longe de mim se quiser ter sucesso. Trabalho há 14 anos no mesmo lugar e sou tratada como estreante todos os dias”. E você vai encontrar, num debate sobre educação, uma mulher limpando as salas, e essa mulher vai te dizer que não tem nada a dizer sobre o debate, porque só o que ela tem que fazer é limpar, é servir, é trabalhar para os outros.

Preste atenção, preste atenção. Se prestarmos mais atenção no que aconteceu e no que acontece, no que desaconteceu e no que desacontece, no que nem cabe num acontecimento nem ontem nem hoje, perceberemos que há um movimento taquicárdico e espasmódico em curso no lençol freático de nós mesmos. E nossa energia para criar uma realidade possível que se distancie do caos completo tem que ser maior e maior.

Tive um encontro que reforçou em mim a necessidade de mais atenção e mais energia na construção de um outro tipo de vida coletiva. Por circunstâncias que nem sei explicar, ontem me encontrei comigo mesmo. Encontrei o garoto que eu era, eu aos 9 anos. É que me deparei com anotações feitas em um caderno que eu chamava de diário. As páginas falam por elas mesmas. Abaixo, compartilho duas delas:

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A realidade que ardia em 13 de março de 2000.

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Redemoinho mental do dia 15 de março de 2000.

Essas e outras páginas me fizeram lembrar do extenso vazio da minha infância. De um vazio imposto por essa sociedade de relações fracas, desconexão generalizada e espetáculo permanente. Os assuntos principais dessas páginas do diário do garoto de 9 anos são a escola e a televisão. Falo exaustivamente dos programas que eu assistia e reassistia, numa ânsia infinita. O que me assusta é perceber que a sociedade me entregou uma vivência insossa e carente de significado para preencher as fantásticas lacunas do tempo.

Meu diário-mirim é um elogio ao vazio. Como a gente se esquece rápido do que vive, não é? Pouco mais de dez anos depois, encontro o garoto que fui e nem me lembro mais de como ele era. Suas palavras abrem meus olhos. Me empurram para um estado de atenção maior. Emergencial. A realidade construída pelos humanos está em estado de emergência, só não vê quem não quer, quem não tem coragem de abrir os olhos afogados em privilégios ou misérias.

Numa realidade em estado de emergência, mães chamam as filhas de putas e prometem arrancar suas cabeças, homens beijam o asfalto porque seus chefes deixam de pagar seus salários mesmo depois que os infelizes já até perderam parte dos dedos na lida diária. O menino de 9 anos está agora mesmo olhando para mim e dizendo: “Não percebe o que está desacontecendo?”.

O menino de 9 anos está agora mesmo me olhando com todos os poros. O menino de 9 anos acordou, me empurra contra a parede. O menino de 9 anos está repetindo o mesmo que disse ontem um morador de rua quando eu falei “desculpas” depois de negar dinheiro: “Desculpas é o caralho”. O menino de 9 anos está me olhando no fundo dos olhos e me perguntando: “Você realmente acha que já dá o melhor de si para o mundo? Acha que se dedica ao máximo para ousar novas realidades?”. O menino de 9 anos nem entende sua professora nem se esforça para isso. O menino de 9 anos aprendeu o desencanto e passou a rejeitar até quem aparece à sua frente para colaborar com ele — talvez sua professora seja uma pessoa legal, mas ele está com os olhos fechados para as pessoas legais que andam vestidas de mentiras.

O menino de 9 anos um dia anotou no seu diário: “Como as pessoas conseguem mentir tanto?”.

O menino de 9 anos não entende ainda como as coisas funcionam — ou desfuncionam.

O menino de 9 anos aponta o dedo para mim: “Por que você e seus amigos se contentam com mudanças tão fracas?”. O menino de 9 anos acredita que estou num caminho relevante, mas acha que exploro pouco os limites da minha ação. O menino de 9 anos me diz que o problema não é o mal, pois o mal faz parte do humano, mas sim a aceitação covarde que temos diante do absurdo encenado e reencenado a cada instante. O menino de 9 anos me chacoalha, quer que eu perceba minha imensa capacidade de enganar a mim mesmo. O menino de 9 anos para de olhar para mim, abaixa a cabeça. Perde-se nos próprios pensamentos de menino de 9 anos. Pensa no Pokemon, no Power Rangers, na Eliana e seus dedinhos. Pensa em fugir de casa, brincar com os amigos na rua, ir comprar pão, requeijão e mortadela na padaria do Seu Moisés. O menino de 9 anos quer se despedir de mim. Mas não sabe como. Nem eu sei como. Nem eu sei como nos encontramos e tivemos essa conversa que prosseguiu mais como um monólogo do que como um diálogo. O menino de 9 anos tem mais a dizer do que eu? Ele sabe mais do que eu? Ele sente mais do que eu? O menino de 9 anos vai ter aula amanhã e novamente vai odiar se sentar numa sala fechada com professores que lançam propostas que ele não consegue conectar com sua vida de menino de 9 anos.

O menino de 9 anos levanta a cabeça e olha de novo para mim, e esse olhar é suficiente para expressar o inexplicável. O olhar do menino de 9 anos é o realejo do insondável. É a caverna portátil do fim e do início. Do seu olhar, escorrem milhares de botões de melancolias e vitalidades. O menino de 9 anos vai embora com seu olhar, suas palavras e seu diário. O menino de 9 anos me olha com a ternura e o ódio de alguém que ama e abomina ao mesmo tempo. Me dá um voto de confiança. Me deixa com tornados mentais e um abraço. Como as pessoas conseguem mentir tanto? Como descontinuar o absurdo que se infiltrou na pele dos dias?

O menino de 9 anos já se foi. Não sei quando vou reencontrá-lo. O menino de 9 anos se foi, mas deixou multidões de meninos de 9 anos que não querem ser amortecidos por esse presente doente.

O menino de nove anos deixa uma provocação presa no chão, uma rosa que rompe o asfalto: o presente é urgente, não se distraia. O presente é urgente.

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6 thoughts on “Um menino de 9 anos me empurrou contra a parede

  1. Sim… Tantas distrações, numa realidade tão emergencial, e tanto por se fazer… “A realidade construída pelos humanos está em estado de emergência, só não vê quem não quer, quem não tem coragem de abrir os olhos afogados em privilégios ou misérias.”… Tanto mais podemos fazer, sim, mas não subestime, André, tudo que você tem feito (que não creio ser pouco, de forma alguma)… Esse texto trouxe em mim, dentre os muitos chacoalhões, a visita dolorida da menina que teve sua criatividade abafada a partir da 4ª série, na escola pública em que estudou, e que hoje sofre as consequências (internas) disso, mas que não desistiu de ser professora e tentar fazer diferente! Vi também tantos dos meus educandos, pequeninos e também adolescentes, a serem sufocados lentamente nessa realidade, sem que percebam, e, portanto, sem que reajam…. Obrigada por nos ajudar a ver, tirar o véu, sacudir, enfrentar a dor, vislumbrar tudo o que se pode fazer, transformar! Avante, querido… Um abraço emocionado, desencontrado (o que é positivo, já que o desencontro é essencial para o encontro)… Carol

  2. Que porrada. Camus, Tolstoi, Kierkgaard, Kazantizakis, Buda, todos os poetas de calçada, sábios, perdidos, sonhadores, todos que se encantam e se apavoram com o absurdo, o desfuncionamento, a fragilidade e a dor da vida, celebram esse teu escrito que faz pensar e sentir. Me fez lembrar de Miguel de Unamuno, “quase todos os homens vivem inconscientemente no tédio. O tédio é o fundo da vida, foi o tédio que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor.” Que sejamos empurrados contra a parede e olhemos nos olhos uns dos outros e de nós mesmos.

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