Carta aberta sobre ruínas e casarões

Caro policial que encontrei ontem,

escrevo esta carta para te convidar a refletir.

Ouvi você falando algo que me fez sentir repulsa. Enquanto falava, seus olhos mais pareciam dardos em movimento. Numa praça, você abordou um garoto sem camisa e mochila de lado, a alguns metros de mim. Você procurava apreender drogas, provavelmente. No meio da conversa com o jovem, vieram as seguintes palavras na sua boca: “Você é um lixo”.

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Você pronunciou essas palavras lentosamente. Sílaba por sílaba. Deu pra sentir, ah, sim, que você estava saboreando essas palavras. Você é capaz de pronunciar essa frase de novo com a ênfase que eu vi você dar em cada movimento na boca? Que gosto tem a palavra “lixo”? Que gosto tem a palavra “você”? Não sei o gosto que sentiu, mas sei o que senti. Há amargor maior?

É que ninguém tem o direito de chamar ninguém de lixo. Ninguém. O que é lixo? Lixo é uma coisa que a gente descarta (e com cuidado), ser humano não é nem uma coisa nem um descartável. Não tive coragem de dizer isso na sua frente pois seus olhos em forma de dardos também me intimidaram.

Reflita um pouco comigo, por favor. Recentemente, me aproximei de alguns dos seus colegas antes de uma manifestação e perguntei se podia ler um poema para eles. Mesmo reticentes, aceitaram. Era um poema do Carlos Drummond de Andrade, intitulado Mãos Dadas. O poema fala sobre o presente em que vivemos, sobre a importância de criarmos no presente o que queremos, sem lamentar, sem procurar a volta de um mundo caduco que já está para trás. E logo depois da leitura, um dos policiais disse que ele sente que as pessoas ao redor dele o veem como um bicho. E ele pronunciou a palavra bicho algumas vezes, desabafando que não é nada bom sentir que os outros pensam que você é um animal selvagem.

Lixo, bicho… De que valem todos esses rótulos? Eles te arruínam. E me arruínam também. Deixam ruínas.

O que fazemos com as ruínas? Abandonamos. O que os rótulos fazem ao transformar as pessoas em ruínas? Geram abandonamentos.

E como se dão os abandonamentos?

Quando já achamos que sabemos tudo sobre alguém, nosso olhar abandona as camadas dessa pessoa, como se não tivesse mais nada para descobrir (a primeira rotulação é a que fica?). Mas eu, você, enfim, as pessoas têm camadas, ô se tem. Sem relevo, as pessoas viram rasos, sem gosto, sem rosto, viram números, e assim perdemos o que pulsa nelas.

Essencialmente, as pessoas não são ruínas, mas sim casarões. Imagine um casarão com tantas portas dentro de portas dentro de portas dentro de portas que você não é capaz de contá-las. Assim são as pessoas em processo de descobrência. A ciência de descobrir uma pessoa — a descobrência — é uma arte. Demanda que a gente se abra também. Mas se a gente se trata como ruína, não conseguimos ver ninguém como casarão.

Abrir as portas dos outros não é fácil, deixa a gente vulnerável. Quanto mais entramos no outro, menos sabemos onde vamos chegar. Porém, é o ato de se perder que promove um encontro substancial.

Diante de tudo isso, estou te pedindo, com todas as minhas energias: não seja ruína, não seja ruína, não seja ruína.

Hoje passei a manhã no hospital, acompanhando minha mãe, pois ela está doente, e o médico nem olhou nos olhos dela, não deu aberturas para que exercitássemos a arte da descobrência — e ele mesmo não se esforçou para descobrir minha mãe. Enquanto ele a atendia, outro médico falava, também para todos ouvirem: “Só de raiva, vou liberar aquela paciente”. Sim… a falta de descobrência e o vício em ruínas não é um problema só seu, não é uma questão pessoal contigo nem com os policiais em especial, mas com todos que fazem questão de fechar as portas dos outros antes mesmo de abri-las. E, claro, mesmo na tentativa de aproximação, poucos abrem suas portas desde o início, por isso a descobrência demanda calmaria e porosidade.

A sua frase — “Você é um lixo” — ecoa na minha cabeça, pois não são apenas palavras pronunciadas por você. Há toda a nossa cultura e nosso tempo falando através da sua voz. Toda a história fala enquanto você diz: “Você é um lixo”.

Peço encarecidamente que você não mais pronuncie algo deste tipo. Dedique-se mais à descobrência, garanto que você vai se perceber (e sentir o mundo) de um jeito diferente.

Obs.: Na minha inquietação desabafadora, muitos esperariam que eu te xingasse de lixo também. Te xingar e sair correndo. Te xingar no Facebook, num arroubo infantil. Mas não seria capaz de fazer isso, não precisamos de mais ruínas num mundo em pedaços. Num mundo tão cheio de portas para abrirmos com cuidado.

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2 thoughts on “Carta aberta sobre ruínas e casarões

  1. Que texto lindo André! Que pena eu não ter ido ao seu encontro qndo vc veio aqui em St. Teresa no Rio. Mais uma vez grande abraço nessa alma linda e sensível.

  2. André, sublinho aqui: “Abrir as portas dos outros não é fácil, deixa a gente vulnerável. Quanto mais entramos no outro, menos sabemos onde vamos chegar. Porém, é o ato de se perder que promove um encontro substancial.” Sim! encontros substanciais, acho que é disso que esse mundo carece. Queria presenciar o policial ouvindo o seu poema, que bem conheço! fez parte da minha primeira peça teatral na escola! ainda me lembro de cor: “Não serei o poeta de um mundo caduco.Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.” E o que foi ele dizer que se sentiu BICHO, nossa! arrancou substância desse sujeito, e ele pôde dividir um pouco dessa tristeza que deve causar esse confronto… um front da delicadeza vc criou…
    E uma pena mesmo essa postura do lixo, a cultura da banalização dos xingamentos e o uso da lei do mais forte, após tanto tempo de civilização. Enfim, parabéns pela generosidade pra não cavar mais ruínas nesse nosso mundinho em pedaços. Compartilho.

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