Um desejo diferente para 2015

O ano está chegando ao fim, dizem que hoje é o último dia. Uma frase que escutei recentemente não sai da memória da pele nem se findarem dois anos de uma só vez, de súbito. Nem se me lavarem com tira-manchas. Nem se esfregarem meu corpo inteiro com palha de aço.

O Talibã atacou uma escola militar no Paquistão, deixando mais de 140 mortos (em sua maioria, crianças) e, por meio do seu porta-voz, declarou que as mortes aconteceram para que os militares sentissem a dor que os membros do Talibã sentem quando seus familiares são assassinados pelo exército. “Queremos que sintam nossa dor”, foi a frase que disseram, é a frase que veio morar na minha memória.

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Por vivermos num mundo em que somos incapazes de sentir a profundidade da nossa dor — e, menos ainda, da dor dos outros –, a pior face da loucura nos espreita. Na mesma semana do ataque no Paquistão, uma amiga compartilhou uma frase absurda que leu num anúncio de analgésicos: “Não temos tempo pra sentir dor”. Por não termos mais tempo para sentir dor, a dor aumenta de tamanho, contrai gigantismo. Por não termos tempo para o sentimento do mundo, entramos em espirais que nos deixam mais doentes. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade dizia: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Nós, o que temos? Temos apenas duas mãos e nada mais? Ignoramos a segunda parte do verso? Nossa poesia é partida.

A maior doença do homem é a ignorância? Ignorar a si mesmo e ignorar o outro são faces de uma mesma moeda? São tantos tipos de dores no mundo quanto tons de cores e timbres de voz. Em tempos em que a dor está anestesiada por tantos remédios e ilusões, senti-la é um ato político, estético, vivo. Como disse a jornalista Eliane Brum, “é o mal-estar que acusa o que resta de humano em nossos corpos (…) É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: ‘É preciso viver com terror e alegria'”. Um desejo diferente para 2015: viver com terror e alegria. Viver com terror e alegria.

Consta nos diários do escritor tcheco Franz Kafka: “O ano que passou não estive desperto mais do que cinco minutos”. E me pergunto: quantos minutos eu estive desperto este ano? Menos que Kafka? Sejamos sinceros, quanto tempo passamos despertos para o terror e a alegria que se despem na realidade crua? Estamos despertos para as cicatrizes no solo? “Só quando descubro a gravidade, o chão, abre-se espaço para que o movimento crie raízes, seja mais profundo, como uma planta que só cresce a partir do contato íntimo com o solo”, disse o bailarino e coreógrafo brasileiro Klauss Vianna no livro “A Dança”. E a provocação de Klauss nos lança em outros movimentos: quantos minutos estivemos dispostos a entrar em contato íntimo com o chão? Quantos minutos estivemos despertos em 2014 para a gravidade dos corpos?

Assim como os animais aprenderam os padrões de coloração e texturas das florestas e nelas se camuflam, nós aprendemos os padrões de coloração e texturas das cidades áridas e nelas nos camuflamos, mais parecidos com asfaltos do que com gentes? Por quantos minutos somos capazes de olhar para o lado? Por quantos minutos somos capazes de olhar para uma dor? Vale vestir a dor antes de olhá-la, para que ela fique apresentável aos nossos olhos? O corpo da dor é sujo? Qual a relação entre reconhecer a dor do outro e exercitar empatia e compaixão? Não hesitemos em nos embriagar com copos e mais copos de interrogações.

No dia 24 de dezembro, visitei um cortiço no centro de SP onde mora uma mulher que se enclausurou na própria dor. Joga suas fezes pela janela da sua casinha sem banheiro, comunica-se por frestas e bilhetes. Mora na quase incomunicabilidade. De tão dolorosa, soa como ficção a história da senhora. No mesmo dia 24, enquanto estava numa lojinha com uma amiga, um morador de rua nos abordou:

“Vocês têm um real para me dar? É para a cachaça.”

A dose de cachaça serviria para dormir um pouco até a noite. Daí o homem contou para a gente que passaria uma noite de Natal elegante, exibia um sorriso bonito por entre a voz rouca e torta que denotava o uso de crack. Disse que antes de morar na rua se dedicava à arte de estampar camisetas. Perguntamos o porquê dele não mais exercer seu ofício. O homem mostrou seu braço machucado, mãos e dedos tortos. Falou que sofreu uma queda numa ponte. Amigavelmente, perguntamos se ele estava bêbado e então caiu da ponte, se foi empurrado pelo álcool. Ele olhou para a gente com uma expressão sutil e aguda, como quando se passa linha por uma agulha bem fininha. Não era uma queda por acidente, com seu olhar deu para entender que ele tentou suicídio.

O que passa pelas entranhas do homem que encontrei na rua para que ele tenha pulado de uma ponte, sonhando em pôr ponto final na própria vida? Que dores tão fortes são essas? Ele tem alguém com quem partilhá-las? Quer partilhá-las? Nós queremos partilhar as dores que guardamos nos nossos caroços? Há quanto tempo deixamos de nos comunicar com os outros e nos trancamos em uma casinha diminuta, em que só sabemos abrir a janela para jogar nossos restos para fora? Numa palestra em que estive há uns meses, o provocador de ventanias e sociólogo Edgar Morin ressaltou bastante o fato de que as pessoas não sabem mais lidar com a dor. Disse que deveriam existir casas de solidariedade em cada esquina, onde fosse possível aprender a lidar com sofrimentos.

Se enfaticamente abrirmos as comportas da nossa dor e das dores dos outros, talvez nos afogaremos — alguns podem pensar assim. Pessoalmente, sinto que é melhor morrer afogado naquilo que há de profundo do que definhar apenas por tocar a superfície das coisas. E dentro da dor não há só feiura e breu, que fique claro. Aproximar-se da dor não é mudar-se para uma sala escura. Há beleza e mistério na dor. Muito do que há de bonito e abundante no mundo surge da dor — leram O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa? Dá para esquecer o quadro Guernica, de Picasso?

Entrar em contato com a dor não quer dizer andar cabisbaixo e desalegre por entre os dias. Entrar em contato com a dor, com o chão e com a gravidade quer dizer andar desperto pelo menos mais de cinco minutos por ano.

*

Uma das intervenções poéticas que fiz nas ruas em 2014 se chama “Faço seu retrato em forma de poesia”. A ação aconteceu na Praça da Luz, em São Paulo. Uma garota de programa com quem falei nessa intervenção me trouxe um olhar que se entrelaça profundamente com as dores que sentimos ou negamos hoje. Perguntei o que ela mais gostava de fazer, ressaltei que suas paixões seriam o tema do poema. Ela me disse que gostava muito do namorado, de dançar forró com seu amor. Daí perguntei: O que é amar? A resposta veio direta como um dardo: “Amar é lembrar. Amar é lembrar de amar sem que isso seja um esforço. Amar é lembrar do nosso amor.”

Se entendermos que amar tem a ver com lembrar, o ato de lembrar a dor (dos outros e a nossa) é expressão de cuidado. Enquanto eu lia a frase do Talibã sobre o atentado que matou uma multidão de crianças (“queremos que eles sintam a nossa dor”), refletia sobre como devo seguir depois de entrar em contato com tais palavras. Devo andar com essa dor a tiracolo? Por quanto tempo devo me lembrar dela? Devo colocá-la no vaso onde guardo meus olhos à noite, para que eles absorvam a substância da qual essas palavras se compõem?

Quando a gente anda com a dor descoberta, do nosso lado, muitas vezes ela nos leva para lugares que não visitaríamos sem sua companhia. Não deixemos que certas dores saiam da pele nem se nos lavarem com tira-manchas. Nem se findarem dois anos de uma só vez, de súbito. Nem se esfregarem nosso corpo com palha de aço.

Lembrar a dor é um ato amoroso, político, estético, vivo.

* um agradecimenso especial à Serena Labate, que este ano me ajudou a sentir mais intimidade com o chão.

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Você precisa aprender a viver com menos recursos

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Em tempos de pouca água nas represas e crises ambientais fazendo fila na nossa porta, precisamos aprender a viver com menos recursos. Mas o que é viver com menos recursos?

Resolvi compartilhar uma história que vivi no ano passado, que ainda ecoa na minha mente uma infinidade de vezes, exatamente sobre nossa relação com os recursos disponíveis ao redor. Sempre que me pego numa situação de desperdício, sou chamado ao chão da consciência por essa história.

Vou narrá-la como se quem estivesse vivendo esse momento fosse você.

Imagine que você está na Índia, lavando os pratos do seu jantar, à noite. É escuro. Há lua no céu, mas poucos raios de luz se esticam sobre a pia.

Você está lavando a louça com terra. Esfrega um pouquinho de terra na superfície do prato, depois enxágua e está limpo. Simples, rápido, sem detergente nem esponja.

Há mais duas pessoas lavando louças ao seu lado.

Tateando no escuro, você decide ligar uma lanterna para jogar luz sobre a pia.

Com a lanterna acesa, você sente que consegue se assegurar que não está sobrando nenhum torrão de terra nos pratos.

Vem um homem lá de longe. Chega perto. Olha nos seus olhos com firmeza, como se fossem jabuticabas prestes a serem colhidas. Rapidamente, ele lhe diz:

– Você precisa aprender a viver com menos recursos. Não precisa ligar a lanterna, há a luz da lua. À noite, a luz da lua não é suficiente para você? Você precisa aprender a viver com menos recursos. Ah, você precisa aprender a viver com menos recursos…

Você desliga a lanterna, pensando no quanto ainda precisa aprender. Pois dá para viver com bem menos, bem menos…

Os buracos na sala

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créditos: Mohammed Abed / AFP

A sala está em buracos.

Qual é o buraco maior, o que está na parede ou o que está dentro das pessoas que abriram esses buracos?

O buraco nas pessoas é muito maior.

A foto acima é recente, mostra um garoto palestino em Gaza. Mostra uma escola perfurada pela dificuldade humana de viver em paz. Mostra uma escola que mais parece uma peneira, com fendas e cavernas em que o mal escorre sob os olhos de um garotinho que certamente não consegue entender o que está se passando — alguém consegue?

Me senti muito mal ao olhar essa foto. Não que eu não tenha visto imagens piores da situação no Oriente Médio, vi sim, e há fotos que expressam o concreto horror, que têm cheiro de queimadura, que ricocheteiam no olhar e batem no estômago como balas de revólver. Essa imagem saltou dentro de mim e me incomodou mais do que as outras porque dediquei mais tempo para olhá-la, para tocá-la com os dedos do meus olhos. Parei muitos minutos diante dela, fazendo uma radiografia de cada um dos buracos na parede, e comecei a contá-los, tentando sentir a fundura dos poços de escuro, imaginando o sons do ambiente, sentindo o chão de pedras no caminho. Então pisei firme nesse chão, inalando a poeira que se acumulava sobre as mesas no canto do esquecimento. Me perguntei: que tipo de sensação da vida tem uma criança que nasce na esburacação?

Olhe a foto por mais tempo, ande pela sala na companhia do garoto.

Coloque a mão nos buracos na lousa, o que você sente?

Assim como o garoto, use seu dedo indicador para escrever algo na lousa. O que quer escrever?

Passe as palmas das suas mãos sobre a lousa, prove o sabor do pó que se acumula em cada centímetro de superfície. Só quando dedicamos mais tempo para sentir o que está ao nosso redor é que nos aproximamos do que realmente está pulsando sob os panos das cenas. Se entramos numa sala escura, só alguns minutos de observação permitem que nossos olhos se acostumem com o breu e passem a vislumbrar linhas e vultos.

Agora que você olhou a foto com mais tempo, me diga: o que você sente?

Não sei sobre você, mas eu sinto minhas entranhas tão ou mais perfuradas do que a lousa. Se meu corpo fosse uma casa e as pessoas pudessem entrar nele, encontrariam peneiras em forma de paredes. Pois ao abrir os olhos para a realidade que o homem está construindo — ou desconstruindo –, ainda que eu veja muitos pontos potentes, belos e promissores, sou também metralhado bruscamente por cacos de catástrofes que se espalham e se reproduzem como vermes.

E não vim para esmiuçar a discussão sobre o conflito entre palestinos e israelenses, desconheço as miudezas dessa narrativa. Minhas palavras apontam outra questão: a insensibilidade que gera mais e mais buracos, seja no Oriente Médio, seja aqui no Brasil.

Toda vez que me entrego a passeios pelos porões do nosso tempo, sinto a necessidade de caminhar para ver a realidade em movimento. Numa das minhas caminhadas silenciosas mais recentes, cheguei até o Parque da Água Branca, em Perdizes, e andei à noite entre as árvores. Perambulavam pela mente os poços de horror em Gaza e os porões selvagens que encontro por perto, em SP, pelo Brasil. Cheguei até uma parte do parque onde havia um bambuzal. Estava escuro, então entrei no meio do bambuzal e, olhando para cima, via apenas o pano preto da noite se estendendo na folhas que alcançavam as alturas. O vento movia as folhas com uma delicadeza bonita de se ver e ouvir, como se a multidão de folhinhas fosse um cardume na água, ora numa direção, ora em outra. Decidi me deitar no chão, para olhar o ambiente com o corpo inteiro. Os pernilongos me mordiam, deixavam coceiras em mim.

Corpo estendido sobre o chão, olhar estendido sobre o céu. Me senti em pedaços. Como se cada parte de mim fosse uma pedra jogada numa parte do parque. Nossos tempos nos transformam em pedras para que então sejamos atirados uns nos outros?

Observando as altas cabeças dos bambus em contato, em movimento numa dança com o vento… Olhando as árvores ao redor… Me dei conta do quanto a paciência da natureza tem a nos ensinar. Aquelas árvores levaram anos para crescer… Silenciosamente… Suas folhas, tão precisamente esculpidas pelo tempo… Tão cuidadosamente esculpidas pelo tempo… De novo, o tempo. Tudo mudará se dedicarmos mais tempo para aprender com o ambiente ao nosso redor, para escutar as fotos que gritam com a garganta em estado de convulsão, para perambular pelos vales e cavernas das pessoas… Num mundo em que tão poucos se leem para além das primeiras páginas, ver e ouvir sem se inebriar com a neblina instalada no ar se torna um ato político, uma campanha silenciosa pela erradicação do analfabetismo relacional.

Deixemos o Parque da Água Branca e suas árvores em paz. Voltemos a Gaza, diante do menino na sala. O que fazer depois de meditar sobre essa cena? O quê? Repito: a foto é forte não por causa do que dá para olhar, mas pelo que não se vê na sala. Afinal, o pior não são os buracos na parede, mas o que tais buracos evocam e apontam: os buracos nas pessoas, os buracos em mim.

[AVISO: Se aceitar prosseguir a leitura do post, por favor, não deixe de seguir a proposta que vou compartilhar. Se não quiser levar à frente nenhum combinado para esculpir sua sensibilidade, por favor, largue esse texto de lado, sente-se no sofá da sua sala com paredes perfuradas por buracos, finja que nada aconteceu… Se continuar a leitura, atenda à proposta sem pestanejar, por favor, por favor, por favor]

O que são buracos? Lugares onde mora o escuro, a fraqueza. Onde mora o horror. Mas também pelos buracos pode entrar a luz. Pelas frestas pode escorrer a água que mata a sede. Então percebamos cada buraco nas paredes como gritos que suplicam por relações genuínas que os preencham.

Para cultivar relações, entrando nas entrelinhas do outro, precisamos criar mais e mais momentos em que lemos as pessoas com tempo e atenção. Pois então, proponho que você se comprometa a organizar uma Roda de Leitura de Pessoas.

E o que é uma Roda de Leitura de Pessoas?

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Se quiser, use esse cartaz para divulgar sua Roda de Leitura de Pessoas.

Trata-se de um encontro de pelo menos duas horas em que duas pessoas são convidadas a contar sua história de vida em detalhes.

Primeiro, junte um grupo de pessoas. (I)

Elejam juntos quem serão os dois participantes da roda que vão compartilhar suas histórias de vida. (II)

Proponha que comecem contando um momento que os marcaram muito e escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute, escute. No decorrer da conversa, convide os participantes a fazerem perguntas que levem os olhares para outras camadas das narrativas. (III)

Inicialmente, não se esqueça de provocar as pessoas presentes a escutarem com atenção não apenas palavras, mas também os silêncios.

Roda de Leitura de Pessoas é uma simples provocação de encontro com páginas alheias que a pressa e a miopia não nos deixa ler — há infinitos volumes na epopeia de cada um. Faça essa roda na sua casa, escola, empresa, seja onde for. É uma forma de você entrar nas suas salas. Nas salas dos outros. Para observar buracos e frestas. Para olhar as lousas. As mesas. A poeira impregnada nas superfícies e nas peles. As bonitezas e fios d’água que escorrem pelos cantos.

A sala está em buracos.

Ler o que se passa lá dentro não é pouco. Ler o que se passa lá dentro exige coragem. Coragem de encontrar o mau de frente. Coragem de encontrar o bem de frente. Coragem de esculpir a si mesmo. Sem esse passo, não conseguimos responder o mundo à altura. Sem esse passo, só aumentarão os buracos na sala.

andre@educ-acao.com

Como mudar a educação na raiz

Screen Shot 2014-07-27 at 14.24.31* texto inicialmente publicado no Portal Aprendiz // republicado em espanhol na Reevo.

As pessoas saíam das lojas para olhar o acontecimento.

– Piriri, piriri, obá! Oi quem vem lá, obá!

A cantoria se espalhava pelos ouvidos de concreto.

– Piriri, piriri, obá!

Nas janelas dos carros, curiosos esticavam seus pescoços. O policial observava a marcha com atenção. O atendente da loja de sapatos saiu para a porta com a testa franzida em sinal de interrogação. Uma mulher chamou a atenção da amiga para juntas varrerem a cena com suas pestanas.

– Por onde passa, obá! Estremece a terra, obá!

Ainda que discreta, a marcha chamou atenção. Sem megafones, sem faixas, sem cartazes. Não havia black blocks. Não se tratava de uma manifestação comum. Não eram os “fraldas pintadas”, não era a esquerda, não era a direita. Quem compunha a marcha? Vinte e uma crianças de 5 e 6 anos e três educadores. Como reivindicação, pediam a cidade inteira. Pediam parques, praças, ruas. Pediam que a cidade recebesse as crianças com cuidado e carinho. Pediam que as pessoas olhassem nos olhos umas das outras. Pediam que ninguém se esquecesse de brincar. Pediam respiros. Pediam o retorno da poesia à presidência das imaginações. Pediam cor. Pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.

Sim, pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.

As crianças não gritavam frases políticas nem carregavam cartazes para requerer tais demandas. Seu ato berrava mais do que qualquer palavra ou faixa, demandava o sonho enquanto o realizava. Tratava-se de um ato de ocupação criativa da cidade, de brincação caminhativa. A marcha saiu da escola municipal de ensino infantil Gabriel Prestes com um destino final: uma biblioteca. No trajeto, andamos apenas algumas quadras, ritmados pela cantoria do “piriri, obá!”. Nesses poucos metros, sentimos a realidade se deslocar.

As pessoas ao redor haviam, de repente, quebrado suas resistências secas. Sorriam de boca aberta, escancarada de espanto positivo. As crianças riam em enxurradas, animadas, hiperpresentes. Como é raro encontramos grupos de crianças em ruas movimentadas, a marcha impressionou as pessoas. E as crianças saem pouco para as ruas por que é perigoso? Viver é perigoso, claro. Hoje em dia, as pessoas acreditam que tudo é perigoso e seguem, pouco a pouco, fugindo de tudo que as coloque em atrito com nossa cultura, que as joguem na aspereza da pele dos dias ou nas brechas lúdicas da cidade, e assim perdem o que há de mais pulsante e educativo na realidade. Quanto mais fogem do perigo, mais o alimentam. Quanto mais se iludem ao achar que escaparam, mais se sufocam. As crianças que marchavam pelas ruas do centro de São Paulo, acompanhadas por educadores, provavam que a resolução mais madura é destruir o perigo na raiz, ocupando sua casa – e ocupando-a criativamente.

No fim do dia, uma das professoras que estava na caminhança pelas ruas falou: “A cidade ouviu as vozes da infância e seus percursos!”. Outra educadora comentou: “Senti a mesma emoção quando levamos as crianças da minha escola, à pé, até o prédio do Banespa. As pessoas sorriam e viam as crianças na rua, me senti humanizando a cidade”. E eu pensava, no meu silêncio fervilhante: há algo muito errado na desconexão crônica do adulto com qualquer coisa que o cerca, um desconcerto que as crianças desmancham com um simples malabarismo de olhar. Numa conversa sobre essa experiência, cheguei a lançar uma provocação brincante: “Se fôssemos realmente radicais, colocaríamos as crianças para educar os adultos. O que temos a aprender com elas não é mais importante do que o que elas têm a aprender com a gente?”.

como mudar a educacao na raiz

Resistir e criar

Em uma cidade de cidadãos não praticantes e com altruísmo sedentário, como provocamos uma mudança na relação entre as pessoas? E as ruas, como torná-las apoteoses da mudança, lugares onde se deem mais e mais encontros potentes? “As ruas já não conduzem apenas, elas mesmas são lugares”, dizia o escritor John Brinckerhoff Jackson, um teórico que lidava com a temática das paisagens. Estimular que as crianças e jovens ocupem o território ao seu redor de maneira criativa, gerando contatos genuínos, é um ato educativo, político, de saúde e cuidado. É dizer para as novas gerações que suas presenças mudam o entorno. É apontar uma nova cultura, que demanda uma nova construção de aprendizagem, na qual a cidade como um todo é reconhecida como um organismo vivo de educação – várias expressões e projetos têm vindo à tona para tocar esse ponto crucial da mudança da nossa cultura pela percepção que a educação demanda um cuidado coletivo, como bairro-escola, cidade educadora, comunidade de aprendizagem e território educativo.

Já pensou se a aprendizagem informal que mora nas brechas das cidades for mais e mais descoberta? Quantas pessoas não aceitariam compartilhar suas histórias, ensinar o que sabem? Já imaginou se você passasse a se reconhecer como um educador das ruas? Podemos criar um novo imaginário sobre o que é educação, percebendo que a educação que transborda pela cidade é um símbolo diferente dos outros que se perpetuaram até agora. É uma raiz que vai mais fundo e encontra outras raízes – nessa linha profunda, educação é cuidado consigo mesmo, com o outro e o ambiente.

Sempre que analiso a urgência por mudanças na educação me lembro do olhar de Gandhi sobre as causas do seu tempo. Depois de se mudar para a África do Sul para trabalhar, ainda jovem, Gandhi sofreu bastante preconceito por ser indiano. Ao entrar nos trens sul-africanos, na primeira classe, exigiam que fosse transferido para a terceira classe, mas nunca consentia com esse tipo de situação. Ele sentia fortemente que não dava mais para aceitar que uma pessoa fosse menosprezada por sua cor ou nacionalidade. E esse sentimento de “não dá mais”, essa necessidade de não cooperar com uma situação ou mesmo resistir a ela, se repete quando Gandhi percebe que os indianos importavam sal da Inglaterra, sendo que era possível pegar sal diretamente na Índia. Sentindo que não dá mais para colaborar com esse tipo de situação, Gandhi estimula a não cooperação, a desobediência criativa, e leva à frente a Marcha do Sal, na qual milhares de pessoas seguiram até o litoral do Oceano Índico para buscar o sal direto na fonte. Essa urgência no olhar retorna quando Gandhi se depara com indianos pagando impostos absurdos. Não dá mais. Não dá mais.

E nessa linha de pensamento, o que “não dá mais” em relação à nossa educação deseducadora?

Não dá mais para acharmos normal um aluno passar doze anos na escola e mesmo assim não aprender nem a ler. Não dá mais para perguntarmos a jovens de 17 anos se eles têm um sonho e ouvir que a aspiração é repetir as carreiras que outros tantos hoje seguem, rumo a oceanos de infelicidade, sem que tenham refletido minimamente sobre quem são e como podem lapidar sua singularidade. Não dá mais para chegar em escolas, ficar impressionado com o número de professores de licença, muitos em depressão, e achar que um sistema que deixa a mente e o corpo das pessoas domado, mutilado e dolorido deve ser reaberto do mesmo jeitinho todos os dias. Não dá mais para acharmos que a violência é um caminho a ser seguido – e o que fazemos com as crianças, jovens e professores hoje é violência. Violentamos sonhos que nem chegam a ser sonhados. E cada vez mais acredito que só quando nos apropriarmos do ambiente ao nosso redor com ênfase, criatividade e generosidade é que deixaremos espaço para emergir uma abordagem de aprendizagem forte o suficiente para mudar a educação em larga escala.

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Recentemente uma amiga compartilhou no Facebook uma imagem com uma piada que ironiza nossas relações rachadas, dizia assim: “Fiquei sem internet por um dia e descobri que tem um pessoal aqui em casa, até sentei com eles na mesa, acho que é minha família”. E bem assim acontece com nosso entorno, imaginem a situação: “Um dia tropecei numa pedra na rua e descobri que tem um pessoal caminhando ao meu lado, até parei um deles para perguntar quem era, acho que também é um ser humano como eu”. Se não cultivarmos laços fortes com a cidade e as pessoas ao redor, aprendendo com elas, aceleraremos o processo de desumanização em curso. Viraremos máquinas, pedras, rinocerontes com sonhos natimortos. Na peça “O rinoceronte”, do franco-romeno Eugène Ionesco, há uma epidemia de “rinocerite” em uma cidade, que transforma quase todo mundo nesses grandes mamíferos de pele espessa, sem porosidade. Apenas um homem resiste – e, ainda bem, ele resiste até o final.

Resistir e criar: dois movimentos urgentes.

Resistir e criar.

Piriri, piriri, obá!

* depois me conte como foi seu encontro: andre@educ-acao.com

André Gravatá é jornalista, mas pode ser definido como um “esticador de horizontes”, sempre atento às transformações ao seu redor. Com o coletivo Educ.Ação, escreveu “Volta ao Mundo em 13 Escolas”, que pode ser baixado e lido gratuitamente. Em maio de 2014, como integrante doMovimento Entusiasmo, organizou com artistas, escolas, educadores, ativistas e estudantes a Virada Educação, um evento de ocupação criativa do centro da cidade de São Paulo. Pode ser encontrado através do andre@educ-acao.com.

Carta aberta sobre ruínas e casarões

Caro policial que encontrei ontem,

escrevo esta carta para te convidar a refletir.

Ouvi você falando algo que me fez sentir repulsa. Enquanto falava, seus olhos mais pareciam dardos em movimento. Numa praça, você abordou um garoto sem camisa e mochila de lado, a alguns metros de mim. Você procurava apreender drogas, provavelmente. No meio da conversa com o jovem, vieram as seguintes palavras na sua boca: “Você é um lixo”.

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Você pronunciou essas palavras lentosamente. Sílaba por sílaba. Deu pra sentir, ah, sim, que você estava saboreando essas palavras. Você é capaz de pronunciar essa frase de novo com a ênfase que eu vi você dar em cada movimento na boca? Que gosto tem a palavra “lixo”? Que gosto tem a palavra “você”? Não sei o gosto que sentiu, mas sei o que senti. Há amargor maior?

É que ninguém tem o direito de chamar ninguém de lixo. Ninguém. O que é lixo? Lixo é uma coisa que a gente descarta (e com cuidado), ser humano não é nem uma coisa nem um descartável. Não tive coragem de dizer isso na sua frente pois seus olhos em forma de dardos também me intimidaram.

Reflita um pouco comigo, por favor. Recentemente, me aproximei de alguns dos seus colegas antes de uma manifestação e perguntei se podia ler um poema para eles. Mesmo reticentes, aceitaram. Era um poema do Carlos Drummond de Andrade, intitulado Mãos Dadas. O poema fala sobre o presente em que vivemos, sobre a importância de criarmos no presente o que queremos, sem lamentar, sem procurar a volta de um mundo caduco que já está para trás. E logo depois da leitura, um dos policiais disse que ele sente que as pessoas ao redor dele o veem como um bicho. E ele pronunciou a palavra bicho algumas vezes, desabafando que não é nada bom sentir que os outros pensam que você é um animal selvagem.

Lixo, bicho… De que valem todos esses rótulos? Eles te arruínam. E me arruínam também. Deixam ruínas.

O que fazemos com as ruínas? Abandonamos. O que os rótulos fazem ao transformar as pessoas em ruínas? Geram abandonamentos.

E como se dão os abandonamentos?

Quando já achamos que sabemos tudo sobre alguém, nosso olhar abandona as camadas dessa pessoa, como se não tivesse mais nada para descobrir (a primeira rotulação é a que fica?). Mas eu, você, enfim, as pessoas têm camadas, ô se tem. Sem relevo, as pessoas viram rasos, sem gosto, sem rosto, viram números, e assim perdemos o que pulsa nelas.

Essencialmente, as pessoas não são ruínas, mas sim casarões. Imagine um casarão com tantas portas dentro de portas dentro de portas dentro de portas que você não é capaz de contá-las. Assim são as pessoas em processo de descobrência. A ciência de descobrir uma pessoa — a descobrência — é uma arte. Demanda que a gente se abra também. Mas se a gente se trata como ruína, não conseguimos ver ninguém como casarão.

Abrir as portas dos outros não é fácil, deixa a gente vulnerável. Quanto mais entramos no outro, menos sabemos onde vamos chegar. Porém, é o ato de se perder que promove um encontro substancial.

Diante de tudo isso, estou te pedindo, com todas as minhas energias: não seja ruína, não seja ruína, não seja ruína.

Hoje passei a manhã no hospital, acompanhando minha mãe, pois ela está doente, e o médico nem olhou nos olhos dela, não deu aberturas para que exercitássemos a arte da descobrência — e ele mesmo não se esforçou para descobrir minha mãe. Enquanto ele a atendia, outro médico falava, também para todos ouvirem: “Só de raiva, vou liberar aquela paciente”. Sim… a falta de descobrência e o vício em ruínas não é um problema só seu, não é uma questão pessoal contigo nem com os policiais em especial, mas com todos que fazem questão de fechar as portas dos outros antes mesmo de abri-las. E, claro, mesmo na tentativa de aproximação, poucos abrem suas portas desde o início, por isso a descobrência demanda calmaria e porosidade.

A sua frase — “Você é um lixo” — ecoa na minha cabeça, pois não são apenas palavras pronunciadas por você. Há toda a nossa cultura e nosso tempo falando através da sua voz. Toda a história fala enquanto você diz: “Você é um lixo”.

Peço encarecidamente que você não mais pronuncie algo deste tipo. Dedique-se mais à descobrência, garanto que você vai se perceber (e sentir o mundo) de um jeito diferente.

Obs.: Na minha inquietação desabafadora, muitos esperariam que eu te xingasse de lixo também. Te xingar e sair correndo. Te xingar no Facebook, num arroubo infantil. Mas não seria capaz de fazer isso, não precisamos de mais ruínas num mundo em pedaços. Num mundo tão cheio de portas para abrirmos com cuidado.

Um menino de 9 anos me empurrou contra a parede

Preste atenção. O presente é urgente.

Preste atenção e veja uma mulher com uma bolsa Louis Vuitton — provavelmente falsa — e uns óculos descansando no topo da sua testa. Ela atende o celular, está perto de uma escola, no horário de saída dos alunos. “Sua puta, sua vadia, sua puta.” É o que ela diz para a outra pessoa na linha, alto o suficiente para ecoar no horizonte de cor de papel de pão amassado. Decido ficar perto da mulher para entender — ou continuar não entendendo — o que está acontecendo — ou desacontecendo. Ela está falando com a própria filha.

“Sua puta, sua puta, ou você aparece daqui a pouco ou vai se ver comigo…”

A mulher se aproxima de uma base de guardas civis. Começa a falar com os homens uniformizados, que a ouvem tão inertes quanto árvores sem seiva, não esboçam nenhuma contração no rosto. Um skatista se aproxima e a mulher o olha diretamente, com ódio respingando na pele e se elevando tipo uma agulha aguda. “Você se prevalece com tudo!”, diz a mulher ao skatista. “Fica ligueira”, responde o jovem, com aspereza nas gotas de voz que se espalham pelo ar, confetes cinzas. “Olha o chão que você pisa… Tô procurando emprego que nem uma louca. Meu pai é um tentente reformado. Tem que haver uma lei para mudar tudo isso. (ela para de olhar para o skatista e se dirige novamente aos guardas) Tava pondo culpa no coordenador da escola. Ele devia orientar minha filha, ela é menor infratora. E eu a amei. Ela é linda. E eu nunca vi esse skatista pilantra. Só os cegos não veem, tenho certeza que esse pivete sabe que eu sou mãe da Raquel, e ele tá aqui de olho em mim porque a Raquel mandou, essa minha filha, essa vadia. E eu peguei ela sim. Quase decepei o dedo. Com uma faca. Do jeito que eu quase tirei o dedo, eu arranco a cabeça fora.”

Preste atenção e se arrepie com a frase dessa mulher — eu me arrepiei prolongadamente, meu primeiro arrepio-gerúndio.

Preste atenção e veja que ao seu lado há um morador de rua com uma pedra enorme na mão. Ele bate a pedra em uma fechadura de porta. Está à procura do metal que está lá dentro. Vai vendê-lo. Três reais é o que vai receber por um kilo do tal metal. A partezinha que ele retira da fechadura corresponde a umas 50 gramas — ou menos. Atrás dele, anuncia um restaurante: “bruschettas por R$18”. Ele não tem a ponta de um dos dedos, perdida nos trabalhos de pedreiro, entre os tijolos da casa onde você mora hoje.

Preste atenção e vai ver que os atendentes no supermercado sempre perguntam: “Quer nota fiscal paulista?”. Você, cansado, sempre responde sim ou não, sem nem ligar para a interrogação. E um dia você não responde nem sim nem não. “Quero outra coisa.” “Senhor, quer o quê?” “Quero uma resposta. E esta é a pergunta: Qual é o seu sonho?” A atendente do supermercado fica parada, estranhada. Não sabe se responde ou passa as compras. Naquele exato instante, entra em erosão o marasmo que é cuidadosamente preservado para preencher todas as frestas humanas de uma angústia mole como visgo. Aquela pergunta tira o verniz de um momento pálido, dá cor aos pedaços de tempo ressecados e pendurados nos varais da realidade.

Preste atenção e você vai encontrar uma professora numa escola dizer: “Fique longe de mim se quiser ter sucesso. Trabalho há 14 anos no mesmo lugar e sou tratada como estreante todos os dias”. E você vai encontrar, num debate sobre educação, uma mulher limpando as salas, e essa mulher vai te dizer que não tem nada a dizer sobre o debate, porque só o que ela tem que fazer é limpar, é servir, é trabalhar para os outros.

Preste atenção, preste atenção. Se prestarmos mais atenção no que aconteceu e no que acontece, no que desaconteceu e no que desacontece, no que nem cabe num acontecimento nem ontem nem hoje, perceberemos que há um movimento taquicárdico e espasmódico em curso no lençol freático de nós mesmos. E nossa energia para criar uma realidade possível que se distancie do caos completo tem que ser maior e maior.

Tive um encontro que reforçou em mim a necessidade de mais atenção e mais energia na construção de um outro tipo de vida coletiva. Por circunstâncias que nem sei explicar, ontem me encontrei comigo mesmo. Encontrei o garoto que eu era, eu aos 9 anos. É que me deparei com anotações feitas em um caderno que eu chamava de diário. As páginas falam por elas mesmas. Abaixo, compartilho duas delas:

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A realidade que ardia em 13 de março de 2000.

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Redemoinho mental do dia 15 de março de 2000.

Essas e outras páginas me fizeram lembrar do extenso vazio da minha infância. De um vazio imposto por essa sociedade de relações fracas, desconexão generalizada e espetáculo permanente. Os assuntos principais dessas páginas do diário do garoto de 9 anos são a escola e a televisão. Falo exaustivamente dos programas que eu assistia e reassistia, numa ânsia infinita. O que me assusta é perceber que a sociedade me entregou uma vivência insossa e carente de significado para preencher as fantásticas lacunas do tempo.

Meu diário-mirim é um elogio ao vazio. Como a gente se esquece rápido do que vive, não é? Pouco mais de dez anos depois, encontro o garoto que fui e nem me lembro mais de como ele era. Suas palavras abrem meus olhos. Me empurram para um estado de atenção maior. Emergencial. A realidade construída pelos humanos está em estado de emergência, só não vê quem não quer, quem não tem coragem de abrir os olhos afogados em privilégios ou misérias.

Numa realidade em estado de emergência, mães chamam as filhas de putas e prometem arrancar suas cabeças, homens beijam o asfalto porque seus chefes deixam de pagar seus salários mesmo depois que os infelizes já até perderam parte dos dedos na lida diária. O menino de 9 anos está agora mesmo olhando para mim e dizendo: “Não percebe o que está desacontecendo?”.

O menino de 9 anos está agora mesmo me olhando com todos os poros. O menino de 9 anos acordou, me empurra contra a parede. O menino de 9 anos está repetindo o mesmo que disse ontem um morador de rua quando eu falei “desculpas” depois de negar dinheiro: “Desculpas é o caralho”. O menino de 9 anos está me olhando no fundo dos olhos e me perguntando: “Você realmente acha que já dá o melhor de si para o mundo? Acha que se dedica ao máximo para ousar novas realidades?”. O menino de 9 anos nem entende sua professora nem se esforça para isso. O menino de 9 anos aprendeu o desencanto e passou a rejeitar até quem aparece à sua frente para colaborar com ele — talvez sua professora seja uma pessoa legal, mas ele está com os olhos fechados para as pessoas legais que andam vestidas de mentiras.

O menino de 9 anos um dia anotou no seu diário: “Como as pessoas conseguem mentir tanto?”.

O menino de 9 anos não entende ainda como as coisas funcionam — ou desfuncionam.

O menino de 9 anos aponta o dedo para mim: “Por que você e seus amigos se contentam com mudanças tão fracas?”. O menino de 9 anos acredita que estou num caminho relevante, mas acha que exploro pouco os limites da minha ação. O menino de 9 anos me diz que o problema não é o mal, pois o mal faz parte do humano, mas sim a aceitação covarde que temos diante do absurdo encenado e reencenado a cada instante. O menino de 9 anos me chacoalha, quer que eu perceba minha imensa capacidade de enganar a mim mesmo. O menino de 9 anos para de olhar para mim, abaixa a cabeça. Perde-se nos próprios pensamentos de menino de 9 anos. Pensa no Pokemon, no Power Rangers, na Eliana e seus dedinhos. Pensa em fugir de casa, brincar com os amigos na rua, ir comprar pão, requeijão e mortadela na padaria do Seu Moisés. O menino de 9 anos quer se despedir de mim. Mas não sabe como. Nem eu sei como. Nem eu sei como nos encontramos e tivemos essa conversa que prosseguiu mais como um monólogo do que como um diálogo. O menino de 9 anos tem mais a dizer do que eu? Ele sabe mais do que eu? Ele sente mais do que eu? O menino de 9 anos vai ter aula amanhã e novamente vai odiar se sentar numa sala fechada com professores que lançam propostas que ele não consegue conectar com sua vida de menino de 9 anos.

O menino de 9 anos levanta a cabeça e olha de novo para mim, e esse olhar é suficiente para expressar o inexplicável. O olhar do menino de 9 anos é o realejo do insondável. É a caverna portátil do fim e do início. Do seu olhar, escorrem milhares de botões de melancolias e vitalidades. O menino de 9 anos vai embora com seu olhar, suas palavras e seu diário. O menino de 9 anos me olha com a ternura e o ódio de alguém que ama e abomina ao mesmo tempo. Me dá um voto de confiança. Me deixa com tornados mentais e um abraço. Como as pessoas conseguem mentir tanto? Como descontinuar o absurdo que se infiltrou na pele dos dias?

O menino de 9 anos já se foi. Não sei quando vou reencontrá-lo. O menino de 9 anos se foi, mas deixou multidões de meninos de 9 anos que não querem ser amortecidos por esse presente doente.

O menino de nove anos deixa uma provocação presa no chão, uma rosa que rompe o asfalto: o presente é urgente, não se distraia. O presente é urgente.