O barão da árvore de Higienópolis é um mágico

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* texto republicado no Planeta Sustentável.

Gabriel decidiu morar numa amoreira do bairro de Higienópolis, região de classe alta em São Paulo, ao lado de uma das saídas do Shopping Higienópolis. Gabriel, 15 anos, o menino-passarinho, não anda com documentos, sonha em aprender mágicas com baralho, não sabe ler, carrega a tiracolo um livro de mágicas. Gabriel parou na Rua Veiga Filho porque achou a rua bonita. Gabriel deve ter passado pela rua e olhado a árvore com atenção suficiente para imaginar sua cama em cima da árvore, para imaginar a si mesmo subindo na árvore e explorando-a como ninguém antes havia feito ou sequer sonhado.

Gabriel gosta da novela Carrossel. Gabriel não conhece Cosme Chuvasco de Rondó, o personagem de Ítalo Calvino do livro O barão das árvores, que resolveu morar nas árvores e se despediu da família dizendo “não vou descer nunca”. Gabriel, o barão da árvore de Higienópolis, recebe visitas da polícia, dos bombeiros e de moradores que o veem como um intruso mal-vindo. Gabriel, o barão da árvore de Higienópolis, recebe visitas de Luciana, uma mulher frondosa, que se torna sua primeira mãe das ruas, seu primeiro galho firme onde se pendurar caso se veja em perigo.

Gabriel sofreu uma agressão física por um dos moradores da região. Gabriel incomoda pela sua presença, ao ponto de o denunciarem por poluição visual. Gabriel ouve um morador do bairro: “Cortem a árvore e o menino não terá mais onde subir”. Gabriel ouve outro morador: “Esse garoto não pode viver na árvore, ele está cometendo um crime ambiental”. Gabriel pergunta: “O que é crime ambiental?”.

Gabriel quer aprender mágicas e, quando me contam a história de Gabriel, tento aprender uma mágica para compartilhar com ele. Gabriel recebe a visita de uma jornalista do Estadão, a Vivian, que ouve atentamente (e sensivelmente) sua história. Gabriel recebe a visita de Eduardo, Jorge, Gabi, Nicolau, Guiomar, Cauê, Pepê, Beliza, Rosália, Tamiê, Pedro, Flávio, mais e mais visitas de Luciana. Gabriel desce da árvore, transforma a calçada da Rua Veiga Filho na sua sala de estar. Gabriel atrai a atenção das pessoas por olhar no olho, transbordar pelos poros a sua paixão por mágica. Gabriel é um mago e não sabe, com sua alquimia natural une ao seu redor pessoas que dificilmente se encontrariam se não fosse a sua presença – ou Gabriel sabe que é um mágico? Gabriel é o mágico que desperta nas pessoas o sentimento de cuidado. Gabriel dorme rodeado de pessoas que fazem vigília para o proteger.

Gabriel me vê fazer a mágica que treinei exclusivamente para ele. Gabriel se impressiona. Gabriel se frustra um pouco depois que conto o segredo da mágica, quando revelo como faço uma moeda de cinco centavos desaparecer no meu cotovelo. Gabriel acha que não sou um mágico de verdade, diz para mim, risonho, irônico: “Quero ver você transformar essa moeda de cinco centavos em uma nota de dois reais”. Gabriel me mostra seu livro de mágicas. Gabriel pede para eu lhe ensinar uma mágica com cartas de baralho. Gabriel vai conversar com um garoto que trouxe um computador para ambos brincarem e, enquanto isso, me dedico a aprender uma mágica nova, junto com Pepê, filho de Luciana. Gabriel se impressiona quando vê a mágica que eu e Pepê aprendemos, ainda que ele dê a entender, sutilmente, com uma pontinha de desconfiança no olhar, que não nos aprova como mágicos – entusiasmados, eu e Pepê fundamos rapidamente nossa dupla de mágica que sabe uma mágica só: “Os Monomagic”.

Gabriel não sabe, mas já já vai encontrar sua mãe novamente. Gabriel chegou na Rua Veiga Filho oito dias atrás, contando que se escondeu entre a carga de um caminhão cegonha para chegar em São Paulo, deixando para trás o município de Cachoeiras do Macacu, perto de Nova Friburgo (RJ), deixando para trás sua família, deixando para trás sua televisão onde assistia à novela Carrossel. Gabriel já já vai encontrar sua mãe e, ao seu redor, as pessoas que chegam não saem mais. Gabriel não sabe, mas Rosália, uma das pessoas que o rodeiam agora, tem um sítio em Nova Friburgo. Gabriel não sabe, mas Rosália conseguiu entrar em contato com sua mãe. Gabriel quer dormir mais um pouco, mas há um caminhão ao seu lado que não para de fazer barulho. Gabriel se esconde debaixo da coberta, então Luciana se aproxima de um dos responsáveis pelo descarregamento do caminhão e oferece ajuda para retirar as caixas recheadas de produtos do McDonald’s. Gabriel continua debaixo das cobertas enquanto Luciana começa a carregar as caixas do McDonald’s para fora do veículo e chama mais gente para ajudá-la – e o homem no caminhão barulhento diz: “Esse menino vale ouro, é?”.

Gabriel vai ao shopping comprar um boneco do Toy Story com o dinheiro que ganhou nos últimos dias. Gabriel está na loja, encantado com a quantidade de bonecos do Woody, seu personagem favorito, e enquanto isso sua mãe chega na Rua Veiga Filho. Gabriel nem imagina que sua mãe está na sua sala de estar. Gabriel nem imagina que sua mãe já o procurou até no IML, sem mais acreditar que veria o filho vivo. Gabriel nem imagina que sua mãe escreveu, atrás de uma foto sua, as seguintes palavras: “Dia 9.07.2014. Gabriel com 15 anos parou no Rio de Janeiro através de carona. Mas Jesus guardou e cuidou dele. Essa foto foi revelada para divulgar o desaparecimento dele. Deus é fiel e nunca abandona os seus”. Gabriel contou que a mãe havia o abandonado, mas ela ressalta outra versão, desabafando que o filho faz tratamento psiquiátrico.

Gabriel sai do shopping com uma sacola da Rihappy na mão. Gabriel olha para sua sala de estar na rua e se depara com sua mãe. Gabriel e a mãe, Dulciléa, se abraçam, e a mãe chora, e choros brotam no asfalto como enxurrada. Gabriel abraça Dulciléa e diz: “Vamo embora, mãe?”. Gabriel volta para casa com a mãe, o padrasto, o Woody e seu livro de mágicas. Gabriel é um mágico porque conseguiu uma proeza magnífica. Gabriel tira fotos com todos, finda sua epopeia na Veiga Filho. Gabriel é um mágico porque conseguiu uma proeza magnífica: transformou o asfalto em lugar de encantamento.

Ah, Gabriel, boa sorte no seu caminho… Que nos esforcemos para que cada vez mais o labirinto que chamamos de cidade se torne um espaço pontilhado de encontros profundos. Gabriel é um alerta, aponta o melhor e o pior em nós.

* agradecimento especial à Natália Ferreira, que me apresentou à Luciana.

O que atinge bem mais fundo do que qualquer bala de borracha, pedra ou bomba de gás lacrimogêneo?

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Ontem uma foto chamou a minha atenção mais do que todas as outras que apareciam na timeline do Facebook. A imagem que me arrepiou mostrava a praça Taksim, na Turquia, com um piano rodeado de pessoas. O show público, espontâneo e improvisado aconteceu durante os protestos da última quarta-feira, pouco antes da meia-noite. De início, as pessoas se fundiram nos acordes da música Imagine, de John Lennon. As vozes da multidão ecoaram até a canção O sole mio, como contou o jornalista português Paulo Moura, que esteve presente na cena.

Instantes como esse provam que a importância das manifestações não se refere apenas à defesa de resultados a longo prazo. O resultado já está acontecendo, ele é a própria insatisfação se transformando em movimento, em impulso de criação de outros mundos possíveis, de outras cenas possíveis na urbanidade árida e concreta. O resultado é um processo que começa agora e não sabemos onde termina.

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Goya, 1814 / SP, 2013

O que esse momento pode trazer de mais pulsante é a conscientização sobre a relevância da ação individual e uma nova rede de conexões entre as pessoas.

Aliás, tudo muda quando percebemos a potência da nossa ação, quando entendemos que somos criadores de realidades com cada um dos nossos micro-comportamentos. Isso me lembra uma entrevista com o Criolo, em que o curador Hans Ulrich Obrist pergunta para ele qual é a sua obra maior, a tal obra-prima, daí o cantor responde que seu ato mais sublime foi o dia em que ele se percebeu.

Perceber a si mesmo demanda cair, de corpo inteiro, na zona de desconforto. Levar para fora o que está pulsando internamente, defrontar-se com o que sobra lá dentro depois que a insatisfação já ganhou o mundo em forma de grito.

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Sinto que, caso venha à tona, nos próximos atos brasileiros, uma abundância de momentos como aquele do piano na praça Taksim, conseguiremos dar a volta por cima em nós mesmos, amplificar o fôlego da construção da mudança e aumentar a profundidade da participação das pessoas. A arte catalisa a união.

Quando falo “arte”, não me refiro apenas ao piano na Turquia, mas a essa inquietação que vai além da lógica na superfície, recriando a atmosfera que está posta, driblando a própria bola.

Há quem esteja organizando uma quadrilha de festa junina para amanhã, ironizando a ideia da “formação de quadrilha” com bom humor.

Um evento que propõe às pessoas que coloquem um lençol branco na janela já conta com mais de 80 mil confirmados.

Um evento criado por mães (e pais) que querem participar do ato de amanhã, convencidas de que “não dá mais para só ficar rezando para os filhos voltarem vivos”, tem mais de 1.500 participantes.

Uma outra proposta convida as pessoas a irem de branco e protestarem em silêncio.

Há grupos que querem levar rosas.

Quanto mais faíscas criativas dentro do ato, mais as pessoas estarão se reinventando como cidadãos e seres humanos. Mais explícita será a sede por paz.

“A vida deve ser pensada, querida e desejada tal como um artista deseja e cria sua obra, ao empregar toda a sua energia para produzir um objeto único”, explica a professora Rosa Dias, no livro “Nietzsche, vida como obra de arte”.

O que atinge bem mais fundo do que qualquer bala de borracha, pedra ou bomba de gás lacrimogêneo é a arte. A arte de recriar o mundo dentro do mundo.