Morin e o mar

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Hoje me senti como o mar. Em ondas. Ouvir o francês Edgar Morin me gerou um entusiasmo agudo, como se bexigas de água estourassem no meu peito. Depois de ouvi-lo, suas palavras voltaram à cabeça durante o dia inteiro, em ondas ruidosas e encorpadas.

A palestra de Morin aconteceu no Rio de Janeiro, num evento chamado Educação 360. O oceano Morin, do alto dos seus 93 anos, exala vigor pelos poros e palavras. Suas frases são ondas de vitalidade. Na primeira onda, ele falou que Rousseau definiu há um bom tempo o papel da educação, que é o de ensinar a viver — a viver bem, que fique claro. Numa outra onda, falou que o imperativo atual é conectar as pessoas e espaços. Que se não desenvolvermos o “nós”, o “eu” vai ficar ressecado. Que não só o indivíduo está na sociedade, mas a sociedade está também no indivíduo. Que não há paixão sem razão, nem razão sem emoção. Que todo conhecimento é uma tradução que se segue a uma construção. Que as palavras são traduções e reconstruções. Que é fantástica a capacidade do homem na criação de ideologias. Que devemos cultivar um conhecimento que seja capaz de ver múltiplos aspectos da realidade. Que as realidades são ambíguas. Que o conhecimento é multidimensional. Que enganar-se pode levar a desastres. Que é urgente desenvolvermos uma vigilância cuidadosa que diminua os nossos enganamentos constantes. Que entre um emissor e um receptor é preciso que haja um código em comum. Que as pessoas têm uma incompreensão profunda sobre quem é o outro. Que nós não ensinamos a autocompreensão e temos a tendência de jogar a culpa no outro. Que compreender nossas fraquezas e defeitos nos ajuda a compreender o outro também. Que há um ponto fundamental: o outro é ao mesmo tempo semelhante e diferente de nós. Que há uma identidade humana comum profunda e ao mesmo tempo a singularidade de cada homem e mulher. Que precisamos reconhecer a diversidade como o tesouro da humanidade. Que sempre houve incertezas na vida. Que não sabemos quando vamos morrer. Que hoje vivemos numa época com incertezas mais acentuadas. Que a certeza de um futuro melhor não é garantida. Que a escola não nos ensina a enfrentar as incertezas. Que o improvável é mais provável do que o provável. Que toda decisão é uma aposta. Que navegamos num oceano de incertezas com arquipélagos de certezas. Que devemos ensinar como abraçar a vida pelo amor. Que vivemos a crise da humanidade que não consegue ser humanidade. Que antes criavam produtos para consumidores e hoje criam consumidores para produtos. Que é urgente educar de um jeito que as pessoas percebam sua capacidade de escolher. Que há uma intoxicação consumista. Que é preciso nos educarmos para aprender a lidar com a internet. Que a educação deveria se ligar ao pensamento complexo. Que vivemos numa comunidade de destino planetário. Que os seres humanos têm algo em comum. Que devemos sentir que cada um de nós faz parte de uma aventura incrível, que é a aventura humana — e que começou há milhões de anos quando um primata se tornou bípede e desenvolveu o uso das mãos. Que depois depois de nos tornarmos bípedes, houve o aparecimento da linguagem. Que as pequenas sociedades antigas levantaram vários impérios — astecas, incas, impérios no Oriente Médio, China, Índia. Que apareceram artes, filosofia, monumentos, escravidão, hierarquia, guerras, globalização. Que a história humana é extraordinária. Que a história humana nos conduz a um destino que desconhecemos. Que não queremos um paraíso, mas uma realidade melhor para superar as principais carências. Que há células no nosso corpo que nasceram há quatro bilhões de anos. Que continuamos a história do universo, já que somos feitos de moléculas, que são feitas de átomos, que são feitas de partículas que começaram há quinze bilhões de anos. Que a aventura do universo, da vida e da humanidade é desconhecida. Que há prosa e poesia na vida. Que a prosa é o que fazemos por obrigação. Que a poesia é aquilo que nos exalta, é a comunhão recusada a tantos milhões de pessoas. Que precisamos ter consciência da reforma indispensável que deve ser feita por nós. Que professores não conhecem o mundo adolescente. Que para ensinar é preciso ter amor e comunicá-lo entusiasmadamente. Que os professores estão fechados nas suas disciplinas. Que é preciso uma nova formação de educadores. Que estamos na pré-história da reforma dos nossos tempos, à procura de um novo caminho. Que a avaliação é uma prática arbitrária. Que há a necessidade de uma reforma global em todos os aspectos. Que não existe mais sentido nas hierarquias que permanecem até agora. Que Montaigne dizia, no século XVI: todo homem é meu compatriota. Que deveriam existir casas de solidariedade em cada esquina, para as pessoas se encontrarem e lidar com seus sofrimentos. Que a juventude pode dedicar mais tempo para serviços cívicos. Que não podemos achar que existe uma única solução. Que podemos avançar com múltiplas reformas para abrir uma nova via para a civilização.

Tantas ondas. Tantas vias para ondear.

Hoje me senti como o mar. Em ondas. Ouvir o francês Edgar Morin me gerou um entusiasmo agudo, como se bexigas de água estourassem no meu peito. Depois de ouvi-lo, suas palavras voltaram à cabeça durante o dia inteiro, em ondas ruidosas e encorpadas.

Um convite para farejar a realidade como um cão

Ouço uma música tocar num carro, num volume bem alto. Dava para ouvir bem antes de ver qualquer carro no horizonte. “Ô novinha taradinha, / Danadinha, gostosinha / O Jajá fala pra tu / Eu quero é? / Eu quero é tu.” Enquanto essa música ainda está ecoando nos ouvidos, uma outra vai entrando pouco a pouco, como se estivesse caminhando ao meu encontro, ao vivo, vindo de um bar. Rodeado de cervejas e uma sinuca, um homem cantava, ao mesmo tempo tocando a melodia no violão: “Tá vendo aquele edifício moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / Olho pra cima e fico tonto.”

Encontrei essas músicas se encontrando diante de mim hoje à tarde. Cenas como essa me deixam como um cão que anda, de um lado para outro, farejando tudo, tentando entender as histórias das pessoas, sentir os sons, conectar os pontos inconectáveis, colocando o nariz onde der para colocar. E essa metáfora de um cão farejando o presente é a mesma que Elias Canetti, um escritor búlgaro, naturalizado britânico, prêmio Nobel de Literatura em 1981, usa num discurso que proferiu em 1936, sobre o escritor austríaco Hermann Broch.

O que mais me chama atenção nesse discurso, bem mais do que a análise que Canetti faz de Broch, é a descrição dele sobre o que seria necessário para um poeta ter significado na sua época. Curiosamente, quase 40 anos depois, em 1974, Canetti ainda afirmou que aquelas três características continuavam sendo imprescindíveis para ele. Constatou, aliás, que se esforçava para satisfazer às exigências que ele mesmo tinha listado. Mesmo sendo uma análise do início do século passado, hoje publicada no livro A consciência das palavras, no texto Hermann Broch, sua atualidade é clara. E vale ressaltar que o autor usa a palavra “poeta” como um termo mais amplo, tal como “escritor” – sobre esse ponto, vale ler o texto O ofício do poeta, publicado no mesmo livro.

As características que ele exige do poeta são bastante relevantes não só para escritores e poetas, mas para qualquer pessoa que queira realmente revirar nossos tempos turbulentos pelo avesso.

Seguem as exigências de Canetti:

1. Prender-se ao próprio tempo com máxima firmeza

Como um cão, andar por aqui e acolá, incansável, “pronto para ser instigado, difícil para ser contido”, metendo o focinho úmido em tudo, com obstinação inquietante. “Peço desculpas pela imagem, que deverá lhes parecer extremamente desmerecedora do objeto tratado aqui”, desculpa-se Canetti ao fazer a metáfora do cão. Ao farejarmos o que está na nossa frente, viciados pelo encontro com as coisas, não só entramos em contato com o que nos rodeia, mas lapidamos nosso imaginário particular. “[Esse] vício impele o poeta a criar seu próprio mundo, o que ninguém mais em seu lugar conseguiria. Imediaticidade e inexauribilidade, essas duas características que desde sempre se soube exigir do gênio, e que este sempre possui, são as filhas desse vício”, comenta o escritor.

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“Cuidado com o cão” (Cave Canem)

Sem esse vício de meter o focinho na realidade, eu não teria escutado as músicas que cito no início do texto, que saltavam diante de mim. Sem esse vício, ontem não teria conversado com uma senhora que encontrei sentada numa praça perto de casa. Levei para essa senhora uma garrafinha de água e um salgado que comprei na padaria, e ela me respondeu, não, não quero, e eu disse, por favor, aceite, é um presente, e ela respondeu, ah, aceito, então anote no celular, e eu perguntei, anotar o quê?, e ela, anotar que você comprou essa comida, porque sempre que a gente compra comida tem que anotar em algum lugar que comprou comida.

Foi meu vício de me chocar com meu tempo que me fez observar essa senhora com atenção. E perceber que o coque no alto da sua cabeça parecia uma pedra cinza feita de cabelos velhos. Ainda que em nenhum itinerário comum uma conversa dessas esteja planejada, continuar conversando com ela me inundou de sentimentos e sensações inquietantes.

2. Vontade séria de compreender o tempo atual

O ímpeto de entender o que está ocorrendo no nosso tempo é a segunda característica essencial. Entender mais do que os fatos dos jornais, buscando principalmente a universalidade por trás deles. Broch, o escritor que Canetti analisa, defende que a missão da poesia é exatamente dar conta do universal que está ocupando cada segundo do nosso tempo. Haveria algo mais importante de compreender do que o universal que liga os pontos por trás das ações? A missão do poético é abarcar a totalidade. “[O poético] está acima de todo condicionamento empírico ou social, para o poético é indiferente se o homem vive numa época feudal, burguesa ou proletária – o dever da poesia para com o absoluto do conhecimento, pura e simplesmente”, comenta Broch no discurso “James Joyce e o presente”.

O poético não está só na poesia escrita, claro. Pode assumir mil formas, de palavras a sons, de movimentos a gestos.

3. Estar contra o seu tempo

Não adianta estar contra isto ou aquilo, mas sim contra a totalidade do nosso tempo. “A oposição deve soar alto e tomar forma – o poeta não pode, por exemplo, entorpecer-se ou resignar-se ao silêncio. (…) Deve desejar o sono, mas jamais se permitir alcançá-lo”, comenta Canetti.

“Esta é, sem dúvida, uma exigência radical e cruel; cruel, pois está em profunda contradição com aquela anterior (…) como vimos, o poeta está à mercê da sua época, é seu criado mais humilde, seu cão. E esse mesmo cão, que durante toda a sua vida corre atrás dos desejos de seu focinho, esse fruidor e vítima involuntária, ao mesmo tempo caçador e presa do prazer, essa mesma criatura, deve, num átimo, estar contra tudo, pôr-se contra si mesmo e contra seu vício, sem, contudo, poder jamais libertar-se dele, tendo de seguir em frente, revoltado, com plena consciência de seu próprio dilema”, completa Canetti.

Com essas três características (prender-se ao tempo atual, esforçar-se por compreender o que existe e estar contra o próprio tempo), o poeta conseguiria marcar sua época, suas criações seriam plenas de significado. Para Canetti, o poeta é um guardião de metamorfoses. É aquele capaz de se apropriar da herança literária da humanidade e de se transformar em qualquer um, de “manter abertas as vias de acesso entre os homens”.

“Só pela metamorfose (no sentido extremo em que essa palavra é usada aqui) seria possível sentir o que um homem é por trás de suas palavras”, afirma Canetti, ressaltando também que prefere usar a palavra metamorfose em vez de empatia ou qualquer outra nesse sentido.

O poeta abre espaço em si mesmo e treina, sem se cansar, o exercício de se tornar outros seres humanos.

O poeta é aquele que resiste aos “mensageiros do nada”, aos derrotistas que não acreditam em uma realidade diferente. “Eu disse que só pode ser poeta quem sente responsabilidade, embora ele talvez faça menos do que os outros para comprová-la em ações isoladas. Trata-se de uma responsabilidade para com a vida que se destrói, e não se deve ter vergonha de dizer que essa responsabilidade é alimentada pela compaixão”, reflete Canetti. Alguém que leia as palavras de Canetti talvez se assuste pela força com que ele fala sobre a responsabilidade do poeta. Esse alguém pode perguntar: e se o poeta não quiser ter responsabilidade nenhuma? É uma questão possível nesse contexto, mas vale ressaltar que aqui não estamos discutindo o conceito de poeta nem fazendo uma análise acadêmica sobre o fazer poético. Estamos apenas nos aproximando da descrição de um autor que se preocupava muito com as mazelas do seu tempo, para quem sabe aprendermos um pouco com ele.

Soltar-se dos grilhões do nosso tempo não é uma tarefa fácil. É árdua e demanda um esforço teimosamente constante. Quando Canetti fala sobre ser contra o próprio tempo, por exemplo, a princípio pode parecer exagerado, mas seu intuito é apenas deixar claro que a conivência diante da crueldade perpetrada a cada segundo sob nossos narizes é algo horrendo, e com isso não devemos compactuar – no geral, realidades muito cruéis recebem nosso consentimento em forma de silêncio.

Canetti deixa um convite. Um convite para farejar a realidade como um cão, não hesitar no esforço de compreendê-la nas entranhas e negá-la, sempre num processo de criação, entregando ao mundo a poesia que vai corroer nosso tempo e lançar novos chãos para os pés sem rumo. Um convite endereçado aos poetas, mas que vale para todo mundo.

Como não morrer engasgado com o próprio umbigo

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Para que morarmos na superfície das coisas, sendo que as mudanças necessárias são profundas?

À noite, na Praça Roosevelt, em São Paulo. Encontro um garoto de 12 anos que me diz: “Larguei as drogas”. Um garoto de 12 anos que já foi viciado e já largou as drogas e já está em outra vida. 12 anos. Ele vê a escola como o antro do marasmo, um adjetivo resume tudo: “chata”. Ama a igreja e o funk ostentação. O pai é traficante, mora longe. Sua irmã? É uma garota “do mundo”. Aproxima-se um morador de rua que me conta: “Minha vida é frenética. Não adianta eu sair da rua, porque a rua não vai sair de mim”. Passando perto de uma manifestação do #NãoVaiTerCopa, falo com um policial militar e ele me confessa, pesaroso: “Todo mundo pensa que sou um bicho, estou cansado de pensarem que sou um bicho”. Encontro uma prostituta na Praça da Luz, perto da Estação da Luz. Ela, uma senhora, com uns 60 anos, um sorriso amarrotado no rosto. “Posso escrever um poema para a senhora?”, pergunto. Ela ri alto, me chama de “safadinho”, aceita que eu escreva o poema, e comenta que o que mais gosta é de viajar, que o mundo é o lugar onde a gente aprende, e dou um poema para ela. “Vou colocar esse presente em uma moldura”, afirma. Quanto ela cobra por programa? 30 reais. Passo numa rua que fica a algumas quadras de onde estou morando hoje em dia e encontro um cortiço que vai ser derrubado para dar lugar a uma padaria, que vai servir às mais de quinhentas famílias que estão chegando na região e vão morar nos prédios que estão sendo erguidos. Erguidos num espaço que antes também era ocupado por outros cortiços. Cortiços apinhados de pessoas que ganham pouco e que trabalham muito construindo prédios onde nunca poderiam morar. E as pessoas que vão morar nos novos prédios vão ter luxo, ah, vão. Não precisarão nem se levantar para apagar a luz. Vão fazer isso por meio do celular, usando um aplicativo que permite até abrir a porta de longe. E quando chegarem em casa, cansadas de um dia atribulado, vão poder descansar numa piscina rasinha, com uns dois palmos de água para esfriar os pés, ou mesmo nadando na piscina semi-olímpica. Falo com o vendedor de apartamentos de um dos prédios e ele me conta que mora em São Miguel Paulista, na periferia de SP. Me diz também que apartamentos de 19m2 vendem como água. Que já existem apartamentos de 6m2 na China ou Japão, não se lembra bem. Me mostra, no iPad, o apartamento decorado. O aplicativo possibilita que eu veja inclusive o chão dos cômodos. Vejo o lustre também, uma parafernália enorme, de “alto nível”. Ando um pouco mais nessa mesma rua e me arrepio por inteiro. Estou ao lado de um amigo. Olho para ele, ele olha para mim, não falamos uma palavra. À nossa frente, um prédio enorme e com aparência precária, gigante de imenso, com tantas janelas, uau, quantas janelas, e lixo sendo jogado por algumas delas. Ao lado, outro prédio imenso de gigante, inacabado, sem reboco, como se tivessem parado de construir de repente, como se os pedreiros tivessem sido demitidos de surpresa, saído correndo e esquecido metade das ferramentas e andaimes. Uns jovens nos chamam, oferecem drogas. Uma mulher com roupas curtas me olha como se me comesse com as pupilas fatigadas. Entro no supermercado, passam uns jovens ao meu lado. Eles não têm mais do que 12, 13 anos. “O que vão comprar?”, pergunta o cara no caixa. “Cigarros”, respondem. Noutra ocasião, saio de uma reunião em um shopping super requintado. Me sento na praça de alimentação com um prato de comida. À minha frente, um homem pede: “Posso me sentar aqui também?”. Ele se senta à minha frente, na mesma mesa, e passa todo o almoço sem falar nada. Eu passo o almoço sem falar nada. Um momento vazio de presente. Estamos na mesma mesa e não conversamos, como se estivéssemos apenas cumprindo mais uma burocracia da vida, como se não houvesse outro ser humano à nossa frente. Saio de uma outra reunião e resolvo ler um poema para uma pessoa na rua. Pergunto: “Moça, posso ler um poema para você?”. “Não, tô com pressa”. “Então vou ler mesmo assim, ok?”. Sigo ao lado dela, correndo um pouco e lendo um poema do Carlos Drummond de Andrade que anuncia: “O presente é tão grande, não nos afastemos”. Quando termino o poema, ela olha para trás e comenta: “Agora estou mais animada, obrigado”. Encontro um morador de rua sentado no chão. Ele me mostra algumas folhas: “Não consigo resolver nada da minha vida com esses papéis. Papel é coisa de gente estudada”. Visito uma escola, procuro a diretora. A porta dela está fechada, lá dentro uma mãe grita para a filha de 13 anos: “Não queria que você fosse minha filha, você não devia ter nascido. Nem adianta querer voltar para casa, não volte mais!”. A menina corre pela escola, se esconde. A mãe vai embora sem se preocupar com o paradeiro da garota. Antes de uma reunião numa ONG lá no centro de SP, para mostrar um projeto, uma frase se esgueira pelos corredores da instituição. Alguém lá dentro dizia: “Aquela anta não fez o café?”.

Todas essas situações são reais, foram vivenciadas nos últimos dias. Todas essas situações e muitas outras (muitas mesmo) que nem gostaria de compartilhar me viram pelo avesso a cada minuto. Basta abrirmos os olhos (de verdade) para percebermos o absurdo do mundo. E em nós. Sou sempre a pessoa que aponta o lado da abundância, acredito na mudança e estou rodeado por pessoas que têm se esforçado para agir no campo da afirmação de novas possibilidades, mas desta vez quero aprofundar um pouco de um lado obscuro que há em nós. Esse lado obscuro é a ilusão que vejo por aí e em mim, bem compartilhada, de que a mudança superficial das coisas é suficiente. E não estou dizendo que acreditamos nisso conscientemente, claro. Mas parece sim que passamos tempo demais na superfície e nos aproximamos pouco dos limites da nossa ação. Certos modos de nos acomodarmos ao mundo são muito sutis…

Adianta fazer um cafuné numa pessoa atropelada, que está sangrando na estrada, e achar que isso é suficiente? Nosso mundo foi atropelado. Atropelado por uma série de interesses que tem mais a ver com a morte do entusiasmo do que com a pulsação da vida.

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Como fazer com que cada instante em que estou vivo seja uma manifestação potente do que há de mais genuíno em mim?

Entre tantas situações que me reviram tanto, uma questão me pega cada vez mais: nossa ação no mundo ainda não é covarde demais? Não temos sido covardes para lidar com esse turbilhão caótico, despotencializador e ceifador de sonhos? Numa viagem para a Inglaterra, visitei uma faculdade com um curso que tinha a seguinte pergunta: até que ponto as inovações representam apenas falsos sinais de mudança, mantendo viva no coração do capitalismo a forma intrinsecamente destrutiva das corporações? Pergunto a mim mesmo e a você: até que ponto nós achamos que estamos inovando e na verdade estamos apenas sedimentando e fortalecendo mais ainda esse mundo de máscaras e imagens falsas e selvagens? Não podemos tentar ir mais fundo?

Mais fundo, mais fundo?

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O poeta Leminski já sabia que a profundidade das coisas está na cara, mas a gente desaprendeu a ver

No livro “Perto do Coração Selvagem”, Clarice Lispector diz: “Um dia virá em que todo meu movimento será criação, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer”. Hoje, meu maior esforço está direcionado para lapidar meus movimentos, para que eles sejam mais e mais criação e profundidade, para que eu caia menos em erros antigos, como lembrar do coletivo e esquecer de cuidar do meu microcosmo mais íntimo, não dando atenção para as pessoas que tanto me amam. Sinto que essa lapidação demanda essencialmente de uma coisa: atenção. Preciso seguir mais atento. Inundando-me com o que há de belo e feio, abrindo meus poros até que eles explodam como fogos de artifício e me provoquem movimentos que vão além do que acho que é o suficiente. Como diria Brecht, as derrotas de quem está se esforçando por um mundo diferente só provam que ainda há poucos que se esforçam por inteiros nesse caminho. Quanto mais sensíveis ao mundo que nos rodeia e ocupa cada centímetro da nossa pele, mais ativos estaremos nessa realidade que, sim, precisa de mais gente porosa.

Se as coisas estão do jeito que estão, não é só por causa dos outros, mas por causa de mim também, que faço vista grossa a tantos absurdos, que considero normal o abominável. Se há tantos problemas e violência, não somos também cúmplices de tudo isso? Ou percebemos que a responsabilidade pelo que está aí não é só de partidos, bandidos e loucos, mas sim de cada um de nós, ou vamos todos morrer engasgados com nosso próprio umbigo.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

andre@educ-acao.com

5 reflexões sobre a indignação em SP, educação e um novo vocabulário

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Os R$0,20 a mais nas passagens de ônibus são apenas a ponta do iceberg gigantesco que move a indignação em SP. Há um número significativo de pessoas que se fartaram devido à ineficiência pública, que esgotaram suas crenças na política tradicional.

Abaixo, cinco reflexões sobre o cenário que despertou a insatisfação coletiva. No final, aponto um elemento-chave nessa ebulição de ânimos – e, só para aumentar a curiosidade, já vou dizendo que esse elemento não é o vinagre.

1. A violência praticada pela polícia nos protestos é tão forte quanto a violência praticada pelo sistema público no dia a dia
As pessoas estão protestando devido a um acúmulo de insatisfação. Um dia, entrei num ônibus lotado, no qual um passageiro discutia com a cobradora. Num arroubo inesperado, a cobradora disse, remetendo-se a todos: “Vocês, passageiros, são um bando de cornos e bandidos”. Ela provavelmente disse isso porque estava cansada, porque ganha muito mal, porque anda com uma dor sem diagnóstico e não consegue vaga no SUS. Minha mãe, aliás, recentemente ouviu de uma enfermeira de um hospital público que ela estava com uma infecção urinária. A enfermeira entregou alguns exames e ordenou: “Volte daqui a um mês, daí você falará com o médico sobre isso”. No dia marcado, o cidadão de jaleco branco teve a audácia de dizer: “A senhora não tem nada. Aquele exame não é da senhora. Sabe o que é? Às vezes, os exames se misturam”. Como vocês acham que uma pessoa se sente depois de uma situação assim? Estou usando dois exemplos pessoais para reforçar o que já sabemos: a indignação em SP abrange muito mais do que a área de transportes.

2. As novas gerações vivem a política de um outro jeito
Os movimentos que vemos crescer hoje em dia apontam a uma nova maneira de ver o mundo, em que a falta de um único líder e uma única bandeira são sinais da descentralização de responsabilidades e valorização da diversidade – uma diversidade que abarca o risco, a incerteza, até por isso é possível encontrar tantos perfis de manifestantes, até por isso não dá para resumir um movimento complexo apenas com as histórias daqueles que exageram na dose e destroem patrimônios públicos. O mundo mudou. Mesmo. Mudou a maneira de nos relacionarmos entre si, de nos relacionarmos com as máquinas. Nasce uma maneira de ser e de sentir que ainda não conseguimos entender muito bem. Mais fluida, caleidoscópica, sinuosa. O filósofo Michel Serres vai longe nas suas reflexões, com um olhar um tanto quanto positivo sobre o futuro: “Temos agora apenas motoristas, apenas motricidade; não mais espectadores, o espaço do teatro se enche de atores, móveis; não mais juízes no tribunal, apenas oradores, ativos; não mais sacerdotes no santuário, o templo se enche de pregadores; não mais professores no quadro-negro, eles estão por toda a sala de aula… E, haveremos de dizer, não mais poderosos na arena política, que estará ocupada por quem recebia as decisões”.

3. Ir para as ruas já é parte da mudança
Desde pequenos, aprendemos a sair em busca do “resultado” de tudo, talvez porque na escola a gente era avaliado por provas e pontos e provas e outros poucos pontos. Às vezes nós esquecemos que os processos que vivenciamos são tão importantes quanto os resultados. É notável o fato de milhares de pessoas comparecerem nos últimos protestos e organizarem uma força-tarefa tão dedicada para compartilhar informações sobre os fatos. Isso já é parte da mudança em estado puro. Pessoas que nunca expressaram nenhum interesse político nas suas timelines do Facebook, hoje se desfiaram em comentários imensos sobre o disparate da violência policial exposta.

Na semana passada, estive em dois encontros realizados pelo Occupy, em Nova York. Num deles, a pauta era a construção de um banco alternativo. Em outro, o tema era hackear a educação. Em ambos os encontros, um ponto estava claro: o que restou de mais significativo do movimento em Wall Street foi a comunidade de conexões tecida durante as ocupações. Tais atos são apenas pontos que conectam longos processos. Protestos e ocupações são disparadores de uma profusão de conexões entre as pessoas, entre sinapses que nunca se encontraram.

4. A indignação presente nas entranhas dos protestos é um sentimento potente
“Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade descontrolada da raposa no galinheiro”, apontou o escritor e diplomata franco-alemão Stéphane Hessel, um dos autores da Declaração dos Direitos Humanos, no livro Indignai-vos, um manifesto sobre a confiança no ser humano.

5. Tudo deságua na educação
Por que demoramos tanto para transformar nossa indignação em ação? Por que demoramos tanto para sequer dar voz para a nossa indignação? Fomos educados, pela escola e pelo mundo, a nos adaptarmos à realidade, a seguir carreiras lineares, a substituirmos o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates por um claro e hostil “esqueça-te a ti mesmo e se torne um número na multidão”. Os policiais seriam tão violentos caso fossem melhor treinados? Os cidadãos seriam mais ativos no dia a dia, nem que fosse apenas para cobrar os políticos, caso exercitassem autonomia, criatividade, cidadania e conexão com o próprio território desde o primeiro dia na primeira série até o último ano do ensino médio? Esta semana, não só a notícia da violência policial me chocou. Uma outra, compartilhada com menos alarde, soou tão grave quanto, é uma outra forma de conjugação do verbo violentar: reduziram até 40% dos salários de professores de Juazeiro do Norte, no Ceará, e, de quebra, ainda aumentaram a carga horária de trabalho.

É crucial que tratemos a educação como primordial-vital-indispensável para que a mudança em curso atinja as raízes dos problemas. E vale lembrar que a palavra radical vem do latim radicalis, de “raiz”. Ser radical nos nossos tempos é transformarmos parte da indignação num movimento em busca de mais qualidade na educação.

Para terminar, gostaria de compartilhar com vocês um vocabulário com neologismos que inventei para uma história de ficção, cujo ato central é uma ocupação na Avenida Paulista. No texto, os personagens se dão conta que um novo mundo demanda um léxico subvertido. Compartilho estes termos para inspirar ainda mais criatividade nos dias que virão:

horizontar
verbo algodoeiro
1. ato de expandir os próprios horizontes.
ex. eu horizonto, nós horizontamos.

despesadelar
substantivo onírico
1. engajar-se por mudanças na realidade. 2. desfigurar pesadelos concretos.

crespidão
substantivo crescente
1. momento em que duas pessoas se encaram, olho no olho.

hictopia
substantivo do futuro do presente
1. aqui é o lugar. 2. a revolução é local.

nunctopia
substantivo topográfico-temporal
1. agora é o lugar (nota: existem duas formas principais de conceber o agora: 1. desvario ilimitado desconectado de qualquer causa, desumanizamento e 2. percepção ativa da trama (do trauma (da traça (do traço (do vasto (do mundo)))))).

juntosamento
substantivo ativo
1. gestão coletiva minuciosamente compartilhada. 2. grupo sem líder, sem hierarquia.

ocupologia
substantivo aquoso
1. estudos – e práticas – das diferentes formas de ocupar espaços e tempos. 2. ciência ativa do ato de ocupar.

mundê
substantivo lacerativo
1. ferramenta usada para despregar os parafusos da máquina do mundo. 2. caás, caés, caís, caós, caús. 3. manifestação disruptiva.

atinhonho
adjetivo trepidante
1. sonho pragmático. 2. ação nascida nas nuvens em suspensão nas mentes das pessoas.

grex
substantivo composto
1. grupo de pessoas comprometidas com uma causa e cientes da sua incompletude como seres humanos. 2. coletivo de indivíduos engajados.

radicá
verstantivo
1. buscar a raiz do radical. 2. radiculeiro.

horizontofágico
verstantivo ocular
1. que ou aquele que caleidoscopa sua identidade.

coletivar
verbo plural
1. transformar o individual em coletivo. * verbo apenas conjugado na terceira pessoa do plural.

Não tenha medo das metáforas vivas

O coração caiu na mesa. Ele tossiu o próprio coração. Os amigos não acreditaram que isso era possível. O garçom veio com um pano de prato, queria ajudá-lo. Chamaram a ambulância, a polícia, a televisão. A repórter marcou uma entrevista, mas não conseguiu fazer nenhuma pergunta, estava perdida. Nem adiantaria fazer, ele não queria responder. Hospital. Foi para onde o levaram. Queriam colocar o coração de volta para dentro do corpo. Ele dizia que não, estava bem. Sempre quis deixar seu coração para fora, no mundo, nunca teve medo das metáforas vivas.

(dedicado a Regina Datti e Bob Pascoal)

Ver o mundo

Quando você anda pelas ruas – ou até dentro da sua casa – , presta atenção nas paredes? E no chão? Nas cores? Texturas?

No último fim de semana, participei de uma oficina de fotografia contemplativa com Andy Karr, coautor do livro The practice of contemplative photography [A prática da fotografia contemplativa]. “A fotografia convencional enfatiza o tema e a técnica. A fotografia contemplativa enfatiza o trabalho com o olho, a mente e o coração para encontrar o extraordinário no ordinário. Isso não é uma invenção nova. Henri Cartier-Bresson escreveu: ‘Fotografar significa […] colocar mente, olho e coração sobre o mesmo eixo'”, diz Karr no texto Ver com clareza. 

O fundamental na fotografia contemplativa é o olhar curioso, atento e presente, espantado com a realidade.

Para saber mais, clique aqui.

Abaixo, compartilho algumas das fotos que tirei durante o curso (veja outras no Flickr):