O que atinge bem mais fundo do que qualquer bala de borracha, pedra ou bomba de gás lacrimogêneo?

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Ontem uma foto chamou a minha atenção mais do que todas as outras que apareciam na timeline do Facebook. A imagem que me arrepiou mostrava a praça Taksim, na Turquia, com um piano rodeado de pessoas. O show público, espontâneo e improvisado aconteceu durante os protestos da última quarta-feira, pouco antes da meia-noite. De início, as pessoas se fundiram nos acordes da música Imagine, de John Lennon. As vozes da multidão ecoaram até a canção O sole mio, como contou o jornalista português Paulo Moura, que esteve presente na cena.

Instantes como esse provam que a importância das manifestações não se refere apenas à defesa de resultados a longo prazo. O resultado já está acontecendo, ele é a própria insatisfação se transformando em movimento, em impulso de criação de outros mundos possíveis, de outras cenas possíveis na urbanidade árida e concreta. O resultado é um processo que começa agora e não sabemos onde termina.

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Goya, 1814 / SP, 2013

O que esse momento pode trazer de mais pulsante é a conscientização sobre a relevância da ação individual e uma nova rede de conexões entre as pessoas.

Aliás, tudo muda quando percebemos a potência da nossa ação, quando entendemos que somos criadores de realidades com cada um dos nossos micro-comportamentos. Isso me lembra uma entrevista com o Criolo, em que o curador Hans Ulrich Obrist pergunta para ele qual é a sua obra maior, a tal obra-prima, daí o cantor responde que seu ato mais sublime foi o dia em que ele se percebeu.

Perceber a si mesmo demanda cair, de corpo inteiro, na zona de desconforto. Levar para fora o que está pulsando internamente, defrontar-se com o que sobra lá dentro depois que a insatisfação já ganhou o mundo em forma de grito.

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Sinto que, caso venha à tona, nos próximos atos brasileiros, uma abundância de momentos como aquele do piano na praça Taksim, conseguiremos dar a volta por cima em nós mesmos, amplificar o fôlego da construção da mudança e aumentar a profundidade da participação das pessoas. A arte catalisa a união.

Quando falo “arte”, não me refiro apenas ao piano na Turquia, mas a essa inquietação que vai além da lógica na superfície, recriando a atmosfera que está posta, driblando a própria bola.

Há quem esteja organizando uma quadrilha de festa junina para amanhã, ironizando a ideia da “formação de quadrilha” com bom humor.

Um evento que propõe às pessoas que coloquem um lençol branco na janela já conta com mais de 80 mil confirmados.

Um evento criado por mães (e pais) que querem participar do ato de amanhã, convencidas de que “não dá mais para só ficar rezando para os filhos voltarem vivos”, tem mais de 1.500 participantes.

Uma outra proposta convida as pessoas a irem de branco e protestarem em silêncio.

Há grupos que querem levar rosas.

Quanto mais faíscas criativas dentro do ato, mais as pessoas estarão se reinventando como cidadãos e seres humanos. Mais explícita será a sede por paz.

“A vida deve ser pensada, querida e desejada tal como um artista deseja e cria sua obra, ao empregar toda a sua energia para produzir um objeto único”, explica a professora Rosa Dias, no livro “Nietzsche, vida como obra de arte”.

O que atinge bem mais fundo do que qualquer bala de borracha, pedra ou bomba de gás lacrimogêneo é a arte. A arte de recriar o mundo dentro do mundo.

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5 reflexões sobre a indignação em SP, educação e um novo vocabulário

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Os R$0,20 a mais nas passagens de ônibus são apenas a ponta do iceberg gigantesco que move a indignação em SP. Há um número significativo de pessoas que se fartaram devido à ineficiência pública, que esgotaram suas crenças na política tradicional.

Abaixo, cinco reflexões sobre o cenário que despertou a insatisfação coletiva. No final, aponto um elemento-chave nessa ebulição de ânimos – e, só para aumentar a curiosidade, já vou dizendo que esse elemento não é o vinagre.

1. A violência praticada pela polícia nos protestos é tão forte quanto a violência praticada pelo sistema público no dia a dia
As pessoas estão protestando devido a um acúmulo de insatisfação. Um dia, entrei num ônibus lotado, no qual um passageiro discutia com a cobradora. Num arroubo inesperado, a cobradora disse, remetendo-se a todos: “Vocês, passageiros, são um bando de cornos e bandidos”. Ela provavelmente disse isso porque estava cansada, porque ganha muito mal, porque anda com uma dor sem diagnóstico e não consegue vaga no SUS. Minha mãe, aliás, recentemente ouviu de uma enfermeira de um hospital público que ela estava com uma infecção urinária. A enfermeira entregou alguns exames e ordenou: “Volte daqui a um mês, daí você falará com o médico sobre isso”. No dia marcado, o cidadão de jaleco branco teve a audácia de dizer: “A senhora não tem nada. Aquele exame não é da senhora. Sabe o que é? Às vezes, os exames se misturam”. Como vocês acham que uma pessoa se sente depois de uma situação assim? Estou usando dois exemplos pessoais para reforçar o que já sabemos: a indignação em SP abrange muito mais do que a área de transportes.

2. As novas gerações vivem a política de um outro jeito
Os movimentos que vemos crescer hoje em dia apontam a uma nova maneira de ver o mundo, em que a falta de um único líder e uma única bandeira são sinais da descentralização de responsabilidades e valorização da diversidade – uma diversidade que abarca o risco, a incerteza, até por isso é possível encontrar tantos perfis de manifestantes, até por isso não dá para resumir um movimento complexo apenas com as histórias daqueles que exageram na dose e destroem patrimônios públicos. O mundo mudou. Mesmo. Mudou a maneira de nos relacionarmos entre si, de nos relacionarmos com as máquinas. Nasce uma maneira de ser e de sentir que ainda não conseguimos entender muito bem. Mais fluida, caleidoscópica, sinuosa. O filósofo Michel Serres vai longe nas suas reflexões, com um olhar um tanto quanto positivo sobre o futuro: “Temos agora apenas motoristas, apenas motricidade; não mais espectadores, o espaço do teatro se enche de atores, móveis; não mais juízes no tribunal, apenas oradores, ativos; não mais sacerdotes no santuário, o templo se enche de pregadores; não mais professores no quadro-negro, eles estão por toda a sala de aula… E, haveremos de dizer, não mais poderosos na arena política, que estará ocupada por quem recebia as decisões”.

3. Ir para as ruas já é parte da mudança
Desde pequenos, aprendemos a sair em busca do “resultado” de tudo, talvez porque na escola a gente era avaliado por provas e pontos e provas e outros poucos pontos. Às vezes nós esquecemos que os processos que vivenciamos são tão importantes quanto os resultados. É notável o fato de milhares de pessoas comparecerem nos últimos protestos e organizarem uma força-tarefa tão dedicada para compartilhar informações sobre os fatos. Isso já é parte da mudança em estado puro. Pessoas que nunca expressaram nenhum interesse político nas suas timelines do Facebook, hoje se desfiaram em comentários imensos sobre o disparate da violência policial exposta.

Na semana passada, estive em dois encontros realizados pelo Occupy, em Nova York. Num deles, a pauta era a construção de um banco alternativo. Em outro, o tema era hackear a educação. Em ambos os encontros, um ponto estava claro: o que restou de mais significativo do movimento em Wall Street foi a comunidade de conexões tecida durante as ocupações. Tais atos são apenas pontos que conectam longos processos. Protestos e ocupações são disparadores de uma profusão de conexões entre as pessoas, entre sinapses que nunca se encontraram.

4. A indignação presente nas entranhas dos protestos é um sentimento potente
“Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade descontrolada da raposa no galinheiro”, apontou o escritor e diplomata franco-alemão Stéphane Hessel, um dos autores da Declaração dos Direitos Humanos, no livro Indignai-vos, um manifesto sobre a confiança no ser humano.

5. Tudo deságua na educação
Por que demoramos tanto para transformar nossa indignação em ação? Por que demoramos tanto para sequer dar voz para a nossa indignação? Fomos educados, pela escola e pelo mundo, a nos adaptarmos à realidade, a seguir carreiras lineares, a substituirmos o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates por um claro e hostil “esqueça-te a ti mesmo e se torne um número na multidão”. Os policiais seriam tão violentos caso fossem melhor treinados? Os cidadãos seriam mais ativos no dia a dia, nem que fosse apenas para cobrar os políticos, caso exercitassem autonomia, criatividade, cidadania e conexão com o próprio território desde o primeiro dia na primeira série até o último ano do ensino médio? Esta semana, não só a notícia da violência policial me chocou. Uma outra, compartilhada com menos alarde, soou tão grave quanto, é uma outra forma de conjugação do verbo violentar: reduziram até 40% dos salários de professores de Juazeiro do Norte, no Ceará, e, de quebra, ainda aumentaram a carga horária de trabalho.

É crucial que tratemos a educação como primordial-vital-indispensável para que a mudança em curso atinja as raízes dos problemas. E vale lembrar que a palavra radical vem do latim radicalis, de “raiz”. Ser radical nos nossos tempos é transformarmos parte da indignação num movimento em busca de mais qualidade na educação.

Para terminar, gostaria de compartilhar com vocês um vocabulário com neologismos que inventei para uma história de ficção, cujo ato central é uma ocupação na Avenida Paulista. No texto, os personagens se dão conta que um novo mundo demanda um léxico subvertido. Compartilho estes termos para inspirar ainda mais criatividade nos dias que virão:

horizontar
verbo algodoeiro
1. ato de expandir os próprios horizontes.
ex. eu horizonto, nós horizontamos.

despesadelar
substantivo onírico
1. engajar-se por mudanças na realidade. 2. desfigurar pesadelos concretos.

crespidão
substantivo crescente
1. momento em que duas pessoas se encaram, olho no olho.

hictopia
substantivo do futuro do presente
1. aqui é o lugar. 2. a revolução é local.

nunctopia
substantivo topográfico-temporal
1. agora é o lugar (nota: existem duas formas principais de conceber o agora: 1. desvario ilimitado desconectado de qualquer causa, desumanizamento e 2. percepção ativa da trama (do trauma (da traça (do traço (do vasto (do mundo)))))).

juntosamento
substantivo ativo
1. gestão coletiva minuciosamente compartilhada. 2. grupo sem líder, sem hierarquia.

ocupologia
substantivo aquoso
1. estudos – e práticas – das diferentes formas de ocupar espaços e tempos. 2. ciência ativa do ato de ocupar.

mundê
substantivo lacerativo
1. ferramenta usada para despregar os parafusos da máquina do mundo. 2. caás, caés, caís, caós, caús. 3. manifestação disruptiva.

atinhonho
adjetivo trepidante
1. sonho pragmático. 2. ação nascida nas nuvens em suspensão nas mentes das pessoas.

grex
substantivo composto
1. grupo de pessoas comprometidas com uma causa e cientes da sua incompletude como seres humanos. 2. coletivo de indivíduos engajados.

radicá
verstantivo
1. buscar a raiz do radical. 2. radiculeiro.

horizontofágico
verstantivo ocular
1. que ou aquele que caleidoscopa sua identidade.

coletivar
verbo plural
1. transformar o individual em coletivo. * verbo apenas conjugado na terceira pessoa do plural.

Não tenha medo das metáforas vivas

O coração caiu na mesa. Ele tossiu o próprio coração. Os amigos não acreditaram que isso era possível. O garçom veio com um pano de prato, queria ajudá-lo. Chamaram a ambulância, a polícia, a televisão. A repórter marcou uma entrevista, mas não conseguiu fazer nenhuma pergunta, estava perdida. Nem adiantaria fazer, ele não queria responder. Hospital. Foi para onde o levaram. Queriam colocar o coração de volta para dentro do corpo. Ele dizia que não, estava bem. Sempre quis deixar seu coração para fora, no mundo, nunca teve medo das metáforas vivas.

(dedicado a Regina Datti e Bob Pascoal)

Ver o mundo

Quando você anda pelas ruas – ou até dentro da sua casa – , presta atenção nas paredes? E no chão? Nas cores? Texturas?

No último fim de semana, participei de uma oficina de fotografia contemplativa com Andy Karr, coautor do livro The practice of contemplative photography [A prática da fotografia contemplativa]. “A fotografia convencional enfatiza o tema e a técnica. A fotografia contemplativa enfatiza o trabalho com o olho, a mente e o coração para encontrar o extraordinário no ordinário. Isso não é uma invenção nova. Henri Cartier-Bresson escreveu: ‘Fotografar significa […] colocar mente, olho e coração sobre o mesmo eixo'”, diz Karr no texto Ver com clareza. 

O fundamental na fotografia contemplativa é o olhar curioso, atento e presente, espantado com a realidade.

Para saber mais, clique aqui.

Abaixo, compartilho algumas das fotos que tirei durante o curso (veja outras no Flickr):

Três dias


– Quanto tempo você leva para fazer este barco de madeira?
– Três dias.
– Dá muito trabalho?
– Sim.
Esse diálogo aconteceu no mercado Souq Waqif (veja foto acima), em Doha. Foi a conversa que tive com um garoto de uns vinte anos, que estava sentado no chão de uma loja com artesanatos típicos da região. Ele carregava uma ferramenta de esculpir, e havia um grande pedaço de madeira ao seu lado, rodeado por serragem. O barulho da peça sendo esculpida falava mais do que as palavras. A madeira se transformava numa pequena embarcação. Tek, tek, tek, tek. A cada movimento, parecia brotar uma enxurrada de paciência, como se para aquele jovem o tempo caminhasse de outra forma. Dá muito trabalho? Sim. Quantos ritmos de tempo existem no mundo? Tantos quanto o número de pessoas que existem?

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Os humanos têm a capacidade de moldar suas personalidades em diferentes formas, de acordo com a música que toca, a partir dos pares que aparecem. Já na fila do aeroporto, observei pessoas de outros países que pareciam tão diferentes de mim a ponto de eu me reconhecer nelas, de me reconhecer na multiplicidade distribuída pelo mundo, que é o mundo, é o mim. Uma multiplicidade concreta: dá quase para pegar com a mão isso que em nós se repete no outro.
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A cebola ficou sem a camada de fora. Sair do país de origem é isso. É deslocamento, corte, risco na camada que nos cobre. Todo deslocamento implica uma nova visão, um parto interno, é espaço que nasce para dentro. Que incrível seria se todos pudéssemos nos deslocar de nós mesmos de maneira intensa e rotineira, para alargarmos nossos horizontes até eles se transformarem em infinitos. Podemos?
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Perto, vejo um homem de turbante vermelho na cabeça, querendo passar. Outras três pessoas esperam, em frente à porta do banheiro. Outra, com um fone de ouvido e os olhos vidrados na tela à sua frente, grudada nas costas de um banco, assiste a um programa sobre esportes aquáticos. Todas essas pessoas estão no ar. Dentro de um avião. Me arrepio. Me arrepio constantemente com as situações que se desdobram ao meu redor. Há uma sucessão inexplicável de momentos que escapam tanto quanto a água de uma torneira escorre pelas mãos. Aliás, no dia a dia, o que escorre pelas mãos são as nossas próprias mãos.

The two phases of a micro-revolution

Hi, everyone! I’m grateful to TED for the opportunity to talk with very inspiring people. My name is André Gravatá and I’m a Brazilian. I was born in a low income area of the city of São Paulo. I come from a hardworking family. After much effort and luck I could go to college and I was able to come across TED. Then I volunteered in the organization of some editions of TEDx. It was there that the following question crossed my mind: why not organize a TEDx? Said and done. The TEDxYouth@Ibira theme was micro-revolutions. More than twenty speakers have been developing local projects that are changing their communities. We use the term micro-revolutions to designate actions that are transforming the lives of groups of people. By the way, TEDxYouth@Ibira was a micro-revolution too. The first edition, which was held last year, started with an e-mail that I sent to some friends. The event ended up with a team of fifteen people who have committed their time with so much enthusiasm.

I have three minutes to talk about two characteristics of a micro-revolution, based on the experience I’m having with TEDxYouth@Ibira and my life story. A micro-revolution happens in two phases simultaneously. Phase one: something happens inside of you. Phase two: something happens around you.

In other words, a micro-revolution is only genuine if it happens inside and outside of us. My life has been an intense journey of questioning. Questioning helps me to build the capacity to deal with my own self. You can only inspire a community when you actually learn to cope better with yourself and leave the comfort zone to reinvent your own life.

We should pay attention to ourselves and to the other people. The second phase of a micro-revolution is the people. Tell everyone what you are involved with. Don’t be afraid to share your journey with others. Keep in touch with everyone. An example, TEDxYouth@Ibira had lost all its sponsorship. The reason was: the company that supported the project started to face complex internal issues. If it weren’t for the amazing people on my side who spent endless nights searching for new sponsorships, we would not have been able to organize the event. You can not change the world alone, so strive to find traveling companions.

In short, whether it’s time to organize a TEDx or time to start a new project, I suggest you to feel your inside and outside phases. Talk to yourself and to others. This will certainly make the process flow much better. Study your own self and the world around you at the same time. I’m not giving you a recipe to better organize a TEDx within TEDx. It’s a strategy to take into account the two mentioned phases. When problems arise, remember the Brazilian writer Guimarães Rosa: “Life is such: warms and cools, tightens and then relaxes, calms down and then gets excited. All life wants from us is courage”. Thank you.

(Este post é a base da apresentação de três minutos que preparei para uma das atividades do TEDxSummit, na qual terei a oportunidade de compartilhar a minha experiência na organização do TEDxJovem@Ibira.)