Três dias


– Quanto tempo você leva para fazer este barco de madeira?
– Três dias.
– Dá muito trabalho?
– Sim.
Esse diálogo aconteceu no mercado Souq Waqif (veja foto acima), em Doha. Foi a conversa que tive com um garoto de uns vinte anos, que estava sentado no chão de uma loja com artesanatos típicos da região. Ele carregava uma ferramenta de esculpir, e havia um grande pedaço de madeira ao seu lado, rodeado por serragem. O barulho da peça sendo esculpida falava mais do que as palavras. A madeira se transformava numa pequena embarcação. Tek, tek, tek, tek. A cada movimento, parecia brotar uma enxurrada de paciência, como se para aquele jovem o tempo caminhasse de outra forma. Dá muito trabalho? Sim. Quantos ritmos de tempo existem no mundo? Tantos quanto o número de pessoas que existem?

Anúncios

Notas de Doha_1


Os humanos têm a capacidade de moldar suas personalidades em diferentes formas, de acordo com a música que toca, a partir dos pares que aparecem. Já na fila do aeroporto, observei pessoas de outros países que pareciam tão diferentes de mim a ponto de eu me reconhecer nelas, de me reconhecer na multiplicidade distribuída pelo mundo, que é o mundo, é o mim. Uma multiplicidade concreta: dá quase para pegar com a mão isso que em nós se repete no outro.
.
A cebola ficou sem a camada de fora. Sair do país de origem é isso. É deslocamento, corte, risco na camada que nos cobre. Todo deslocamento implica uma nova visão, um parto interno, é espaço que nasce para dentro. Que incrível seria se todos pudéssemos nos deslocar de nós mesmos de maneira intensa e rotineira, para alargarmos nossos horizontes até eles se transformarem em infinitos. Podemos?
.
Perto, vejo um homem de turbante vermelho na cabeça, querendo passar. Outras três pessoas esperam, em frente à porta do banheiro. Outra, com um fone de ouvido e os olhos vidrados na tela à sua frente, grudada nas costas de um banco, assiste a um programa sobre esportes aquáticos. Todas essas pessoas estão no ar. Dentro de um avião. Me arrepio. Me arrepio constantemente com as situações que se desdobram ao meu redor. Há uma sucessão inexplicável de momentos que escapam tanto quanto a água de uma torneira escorre pelas mãos. Aliás, no dia a dia, o que escorre pelas mãos são as nossas próprias mãos.

The two phases of a micro-revolution

Hi, everyone! I’m grateful to TED for the opportunity to talk with very inspiring people. My name is André Gravatá and I’m a Brazilian. I was born in a low income area of the city of São Paulo. I come from a hardworking family. After much effort and luck I could go to college and I was able to come across TED. Then I volunteered in the organization of some editions of TEDx. It was there that the following question crossed my mind: why not organize a TEDx? Said and done. The TEDxYouth@Ibira theme was micro-revolutions. More than twenty speakers have been developing local projects that are changing their communities. We use the term micro-revolutions to designate actions that are transforming the lives of groups of people. By the way, TEDxYouth@Ibira was a micro-revolution too. The first edition, which was held last year, started with an e-mail that I sent to some friends. The event ended up with a team of fifteen people who have committed their time with so much enthusiasm.

I have three minutes to talk about two characteristics of a micro-revolution, based on the experience I’m having with TEDxYouth@Ibira and my life story. A micro-revolution happens in two phases simultaneously. Phase one: something happens inside of you. Phase two: something happens around you.

In other words, a micro-revolution is only genuine if it happens inside and outside of us. My life has been an intense journey of questioning. Questioning helps me to build the capacity to deal with my own self. You can only inspire a community when you actually learn to cope better with yourself and leave the comfort zone to reinvent your own life.

We should pay attention to ourselves and to the other people. The second phase of a micro-revolution is the people. Tell everyone what you are involved with. Don’t be afraid to share your journey with others. Keep in touch with everyone. An example, TEDxYouth@Ibira had lost all its sponsorship. The reason was: the company that supported the project started to face complex internal issues. If it weren’t for the amazing people on my side who spent endless nights searching for new sponsorships, we would not have been able to organize the event. You can not change the world alone, so strive to find traveling companions.

In short, whether it’s time to organize a TEDx or time to start a new project, I suggest you to feel your inside and outside phases. Talk to yourself and to others. This will certainly make the process flow much better. Study your own self and the world around you at the same time. I’m not giving you a recipe to better organize a TEDx within TEDx. It’s a strategy to take into account the two mentioned phases. When problems arise, remember the Brazilian writer Guimarães Rosa: “Life is such: warms and cools, tightens and then relaxes, calms down and then gets excited. All life wants from us is courage”. Thank you.

(Este post é a base da apresentação de três minutos que preparei para uma das atividades do TEDxSummit, na qual terei a oportunidade de compartilhar a minha experiência na organização do TEDxJovem@Ibira.)

Dá para mudar o mundo numa manhã de sábado

– Qual é o seu sonho?

No último sábado, uma criança me fez essa pergunta. Só as crianças têm a coragem de fazer questões desse porte sem rodeios. Dentro de uma simples interrogação assim, reside um chamado ao que há de mais profundo. A criança de olhos brilhantes queria saber o que me move. O que me faz acordar pela manhã todos os dias. Sim, essa criança queria que eu expressasse o melhor de mim. O supra-sumo do tal André.

A pergunta surgiu durante uma conversa que tive com jovens da 6ª série do colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo. As poucas horas de duração do encontro foram equivalentes a uma pós-graduação em entusiasmo. Até as crianças mais tímidas têm um olhar que transborda curiosidade por todos os lados. E aqueles estudantes de 11 e 12 anos tiveram a sorte de ter uma professora com qualidades de criança.

Na sua curiosidade infinita, Paula Marques levou para a sala de aula a matéria intitulada “Dá para mudar o mundo na hora do almoço?”, publicada na Vida Simples de julho. Era o relato de intervenções que fiz nas ruas. Entre outras ações, saí pelas calçadas lendo poemas para as pessoas. O objetivo? Causar impactos positivos pela cidade e instigar que repensemos as possibilidades de contato humano no dia a dia. As crianças trabalharam a matéria na sala de aula, leram e releram. Paula sugeriu: “E se recriássemos essa matéria com novas ações?”.

As crianças toparam na hora. Assim surgiu a atividade: “Dá para mudar o mundo na hora do intervalo?” Alguns estudantes criaram um projeto para diminuir a fofoca no recreio. Outro grupo pensou em atividades para influenciar os amigos a não jogarem lixo no chão. Uns imaginaram uma maneira de motivar os colegas a resolverem os problemas sem socos nem pontapés. Outros elaboraram ações para que os alunos que ficam sozinhos na hora do intervalo tenham com quem brincar e conversar. E não foram só essas as ações que surgiram. Mais ideias nasceram, foram experimentadas e continuarão sendo colocadas em prática – as crianças fizeram até cronogramas de implementação das ações ao longo do segundo semestre.

O que mais me marcou foi o modo como as crianças explicaram os projetos. Nas suas palavras havia uma profundidade característica de quem domina o assunto que está falando. Havia uma verdade viva. “Você já tinha pensado que podia fazer alguma ação para transformar o mundo?”, perguntei para um dos jovens. A resposta foi direta: “Não. Mas agora sim”.

Durante a conversa com eles, também discuti a importância de não acharmos que vamos salvar o mundo da noite para o dia, como os super-heróis dos quadrinhos. Ser a mudança que queremos ver no mundo demanda que nos transformemos, que olhemos não só para fora, mas também para dentro, e aprendamos com os sucessos e as frustrações.

E na hora que a jovem de olhos brilhantes perguntou sobre meu sonho, parei alguns segundos para pensar. Pergunta difícil para alguém como eu, que tem tantos sonhos. Na minha resposta, usei uma frase do Fernando Pessoa: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. As crianças sorriram. Talvez se questionaram como cabe tanta coisa dentro de uma pessoa. Ou não. O mais provável é que elas entendam essa frase ainda melhor do que eu e o Fernando Pessoa juntos.

[Este texto é um agradecimento aos estudantes do colégio Visconde de Porto Seguro e à professora Paula Marques]